Tuesday, June 27, 2006

Barbárie ou civilização?

Diante do que nossos olhos vêem nos distanciadores noticiários televisivos ou na crueza latente da realidade de nossas ruas e cotidianos, uma pergunta parece se impor a todos nós: estaremos abandonando a civilização ou abraçando de vez a barbárie?

A pergunta soa alarmista e intolerante - afinal, tal contraste entre o que seria a civilização e o que se considera barbárie pode variar até mesmo de uma época para outra, e o que hoje consideramos normal ter sido visto, há eras a fio, como um sinal do fim dos tempos.  Mas é importante buscarmos aquele questionamento dentro dos conceitos mais genéricos - e por isso mais passíveis de um consenso universal - do que seria a barbárie e a civilização, para a partir dessa reflexão mensurarmos o quanto estamos a caminhar em direção a uma coisa ou distanciando-nos da outra.

Quando falamos em barbárie, as idéias que a tal conceito se impõem são a do caos, da imposição do medo e dos sentimentos sobre a razão, do domínio pelo irracional e pelo instintivo, da desmedida e da ação violenta sobre o pensamento e o raciocínio.  Em contraponto, a civilização traz a organização, o domínio dos instintos por meio da razão, a construção da vida em sociedade e de regramentos que a garantam em uma base comum do que aquele grupo aceita como o certo e o errado, o tolerável e o abjeto.  Em outras palavras, a barbárie é o domínio do presente, do imediato, da satisfação primeira dos instintos mais primevos, enquanto a civilização carrega, em seu impulso normatizador, uma proposta de futuro, de construção de um porvir para os que nos sucederão, de preservação da espécie e de um modo de vida que nos parece confiável e perene.

Estará conseguindo a civilização dar conta dos avanços da barbárie?  Não são poucos os que vêem o homem como sendo o lobo do homem e usam tal expressão diante de cada atrocidade cometida pelos outros contra si ou aqueles com quem se identifica e simpatiza.  Em verdade, a civilização é um conceito em si abstrato, que jamais irá se concretizar em sua plenitude.  Ainda assim, por sorte o Ocidente assumiu o que se chama de impulso civilizatório como uma bandeira inquestionável, à qual está unida de forma indissolúvel o conceto de democracia - pois que a civilização prevê o estatuto do voto como a melhor das formas para se buscar um bem comum, um estado de coisas que busque satisfazer a todos em igual medida e que seja o mais perene possível -, ainda que em nome desse regime tantos erros tenham sido cometidos na história da humanidade. 

Mas, qual a alternativa?  A barbárie pressupõe o autoritarismo e a tirania, regimes no qual o medo exerce o papel que o livre pensar exerceria em um regime democrático ideal.  E ao falarmos em escolhas, cabe assinalar outro interessante contraponto entre civilização e barbárie: o papel dos homens em ambos os processos.  A civilização pressupõe uma coletividade de indivíduos, de seres pensantes, que como conjunto formam um povo que compartilha de ideais de futuro e de concepções de vida e que também tem em comum um desejo de permanência e de construção de um futuro comum.  A barbárie é formada por um todo indistinto de partículas humanas, uma massa que, em sua condição de coletividade disforme, carrega um pensamento único e limitador.  A civilização constrói, elege, julga, organiza e caminha adiante em busca de objetivos comuns; a barbárie destrói, saqueia, lincha, viola e pisoteia indistintamente em busca da satisfação imediata de seus instintos individuais e vontades que parecem não poder ser frustradas.  Aliás, a civilização pressupõe uma certa dose de renúncia, de abdicar de certos prazeres quando eles trespassam os limites do direito alheio; a barbárie não respeita limite algum.

E em que ponto estamos neste embate eterno entre civilização e barbárie?  Parece-nos que esta é uma resposta difícil de responder em uma época na qual os individualismos estão tão exacerbados e na qual tudo parece se resumir a uma incessante busca pelo prazer mais imediato.  Mas, qualquer que seja a resposta que dermos ao questionamento sobre o qual constantemente estamos a refletir, o que surge com maior importância para todos nós é pensar que papel estaremos a desempenhar perante o mundo: somos nós indivíduos, seres pensantes, partes de um povo que vislumbra um futuro maior ou estaremos apenas compondo, como partículas manipuladas de uma massa disforme, as forças de destruição da barbárie sempre temida e assustadora?

Posted by Frizero at 23:51:37
Comments

3 Responses to “Barbárie ou civilização?”

  1. Daniel says:

    Frizero, interessantes essas considerações. Aqui no prédio onde moro resolveram pintar os elevadores, que estavam um farrapo. No mesmo dia que a pintura foi feita, foi riscada. Fecharam-se as portas do prédio com estreita vigilância sobre quem entrava e pintou-se mais uma vez. Amanheceu riscado. Conclusão: alguém de dentro do prédio, que usa as instalações para seu próprio conforto é que anda riscando. É como cuspir no prato que se come todos os dias. Não consigo entender como alguém pode ser tão burro para fazer uma coisa dessas.
    Me vêm à cabeça, no entanto, os países escandinavos, de modos tão civilizados e politicamente corretos, o coletivo acima de tudo. A preocupação com a sociedade é grande, educação, saúde… Mas ao mesmo tempo, num paradoxo brutal, as pessoas são muito sozinhas e frias umas com as outras. Individualistas ao extremo em suas vidas privadas, elegem como companhia o alcoolismo e chegam infelizmente tantas vezes ao suicídio. Que fazer então? Será a civilização sufocante para o espírito humano? Temos que deixar um pouco de espaço para a emoção em detrimento da razão? Talvez um caminho do meio, como tão bem ensinam nossos amigos budistas…

  2. Patrícia says:

    Daniel, E Aristóteles.

    É dele a expressão, no Ocidente, “A virtude está no meio (e não nos extremos)”.

    Sem negar o gênio de Buda, o Ocidente também tem grandes pensadores. Pena que muito pouca gente, no próprio Ocidente, os lê.

  3. Frizero says:

    É de se questionar se “civilização” é sinônimo de ausência de emoção, meu caro Daniel. Concordo com a Patrícia, “in medium virtus”. Mas a pergunta maior não é mais o quão distante estamos do que seria o ápice da civilização - que tu localizaste nos países escandinavos - mas, sim, se ainda caminhamos para um meio termo aceitável ou desistimos de vez da civilização em nome da barbárie que tudo quer e tudo pode.

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