A Validação da Literatura
Uma das primeiras discussões que surgem quando se estuda a Literatura é justamente o que faz de um texto uma obra de arte literária. Em termos gerais, o texto literário tem elementos que lhe são peculiares - como o uso de figuras de linguagem, a sensação de estranhamento que causam no leitor, a distribuição espacial e sua morfologia - mas que não lhe são exclusivas: encontram-se figuras de linguagem diversas em textos jornalísticos, com maior ou menor grau de abstração do sentido primeiro das palavras, bem como se vê o estranhamento e o uso de distribuições espaciais diferenciadas no texto publicitário. O que faz, então, com que um texto seja aceito como literatura?
Para alguns importantes teóricos, como o português Carlos Reis, a literatura faz-se notar por diversos aspectos, dos quais a relação entre escritor e leitor não pode ser esquecida. Reis vê esta relação dentro do campo da teoria da comunicação, associando o autor ao emissor de uma mensagem literária e o leitor, receptor da mesma. O que faz, contudo, com que esta mensagem seja percebida como literária é justamente seu caráter explícito de ficção, de mimesis da realidade, de recriação - uma característica que é notada pelo leitor e faz com que este assuma uma posição diferenciada diante do texto literário que, talvez, não tenha diante de outras espécies de texto: o leitor acata as palavras do autor não como as de uma autoridade que lhe apresenta um assunto, mas como a de um guardião que carrega as chaves de um mundo novo, que ele sabe ser inventado, mas que carrega em si tal verossimilhança com o mundo real que passa a ser por ele visto com a mesma importância e realidade, ainda que pelos poucos instantes em que se deixa levar por aquela trama de ações e imagens sugeridas pelo texto.
Basta, então, que o leitor, qualquer leitor, identifique uma obra como literária para que esta seja fruto de interesse? Em verdade, aqui entram questões mais complexas e muitas vezes distanciadas do próprio texto literário. A validação, chamemos assim, da literatura passa por uma série de circunstâncias - desde as escolhas estabelecidas nos cânones das diferentes épocas à valoração oferecida pelos prêmios literários de toda sorte, pelo prestígio oferecido pelos meios midiáticos à obra ou, muitas vezes, ao próprio autor - e que pode antecede o valor da obra.
A história da literatura é repleta de exemplos de obras literárias que hoje tem seu valor artístico reconhecido e que no passado eram desprezadas, bem como um sem-número de casos opostos a estes. Em verdade, toda tentativa de escrever uma história da literatura é, em igual medida, uma ação de exclusão. Compõe-se, assim, uma lista de obras a serem lidas, e a seu reboque há todo um universo de outros textos que são lançados na lista dos esquecidos. Não raro obras que se querem de fôlego na tarefa inglória de construir uma história literária trazem uma lista imensa de autores e obras, resumidos em linhas diminutas na tentativa vã de ser “o mais completo compêndio literário” possível. Mas, enfim, seguirão sempre sendo obras excludentes, pois antes delas outras tantas definiram o esquecimento de livros e textos que sequer chegariam às mãos dos leitores contemporâneos.
Que dizer então do panorama da literatura atual? Em que pesem os naturais exageros de qualquer generalização, parece-nos que o acesso dos escritores àquele momento mágico e sonhado da publicação é cada vez mais regido por fatores outros que ultrapassam a qualidade das obras ou mesmo aquela literariedade do texto a que se refere Reis em seus estudos. Os prêmios literários, que exercem uma função indiscutível de validação institucional, multiplicaram-se e passaram a ser usados até mesmo por grandes empresas como uma forma de marketing institucional, na qual se vinculam a premiação de obras literárias e seus autores à imagem de que aquela empresa investe em cultura - quando não raro o valor gasto nas premiações é seu único dispêndio em promoção cultural no decorrer de todo um exercício financeiro. Além disso, há os prêmios literários concedidos por academias de letras, governos e centros de ensino, nos quais estão em jogo, muitas vezes, mais a necessidade de prestígio da entidade que concede o prêmio que um interesse maior em descobrir novos talentos. Premia-se, então, o consagrado, o famoso, o célebre - e o novo autor que espere as oportunidades esparsas que lhe surjam. Há, ainda, os prêmios literários que servem tão-somente para extrair dos aspirantes a escritor alguns trocados - são as editoras que promovem seus concursos próprios, dos quais sempre emerge uma coletânea da qual os premiados só participarão, naturalmente, ao se tornarem co-editores do tal livreto com a compra de cotas de publicação e o recebimento de seus direitos por meio de um número qualquer de exemplares do livro por eles mesmos financiado…e muitos se sentem felizes diante da oportunidade, mesmo que tão vaporosa, de ter sua obra levada ao público!… Mas não há como negar que os prêmios literários - e há os que seguem critérios justos para sua avaliação, que convidam jurados com competência para tal, pessoas que pensam e estudam a literatura - são, presentemente, importante instrumento de validação da literatura e, por que não dizer, de exposição do escritor perante a sociedade.
O escritor - e creio que concordarão todos os que, como eu, passam horas, por vezes dias, com idéias a martelar no cérebro, pedindo para serem colocadas no papel pelas ações e falas de personagens de um mundo novo e mimético - jamais se libertará dessa necessidade de transmitir sua mensagem literária. A explosão do conhecimento, a modernização da tecnologia de comunicação e os novos meios de divulgação - como este que uso agora, enquanto converso contigo, leitor, a Internet - talvez tragam novas formas de manutenção desse diálogo silencioso, por vezes solitário de ambas as partes, que o autor trava com seus leitores de todas as épocas - da sua própria e das que estão por vir. E o destinatário dessas mensagens, o leitor, mal pode imaginar o quão importante é, para o escritor, fazê-la chegar aos seus eventuais interlocutores.