Tuesday, June 13, 2006

E Rola a Bola…

Gostaria imensamente de saber se há algum país do mundo que se comova em iguais proporções com a Copa do Mundo como o nosso país. 

Há semanas acompanho a preocupação de todos sobre como seria a rotina dos dias de jogos do Brasil na Copa do Mundo.  Colegas de trabalho e chefias preocupam-se com os horários de compensação e com a liberação para os jogos; universidades discutem a hora-término das aulas nas tardes de jogos; lojas, edifícios e escolas enfeitam-se em verde e amarelo e as pessoas começam a surgir, aqui e acolá, hostentando camisetas, bonés e por vezes trajes completos em alusão às cores de nossa bandeira nacional - para a alegria dos ambulantes. 

Hoje, por exemplo, pude notar o nervosismo do trânsito e a agitação das pessoas nessa hora mágica que antecede o horário marcado para um jogo do Brasil.  Exatamente uma hora antes do jogo comecei a me deslocar para casa e é impressionante a tensão que parece pairar sobre as pessoas.  Os motoristas pareciam mais nervosos, os carros aceleravam mais e mesmo as pessoas que cruzavam o Centro de Porto Alegre.  Vi pessoas que aceleravam seu passo disfarçadamente, senhoras que olhavam tensas o relógio, à espera no ponto de ônibus, e homens engravatados que despudoradamente corriam em direção ao lugar que tenham eles escolhido naquele dia para acompanhar o jogo do Brasil. 

Meu prédio, que pela manhã era o mesmo de sempre, no meu regresso estava já enfeitado por um túnel de balões verdes e amarelos, correntes de papel crepom nas cores da bandeira e o pavilhão nacional, ele mesmo, reproduzido em um sem-número de folhas plásticas a pender pelo teto - uma decoração que foi iniciativa das próprias funcionárias que fazem a limpeza do edifício.

Como explicar a um estrangeiro a dimensão que existe dentro da psique de nossos nacionais para a Copa do Mundo de Futebol?  O país paralisa-se, é fato: ruas desertas, sem o trânsito de automóveis ou mesmo do transporte coletivo - todos recolhidos a algum canto onde haja uma televisão ligada e sintonizada nas transmissões direto de um longínquo estádio de futebol localizado em um país que a maioria dos brasileiros jamais irá conhecer.  E todos compactuam com isso - de bom ou mal grado - e adaptam suas vidas para aquelas horas poucas em que todo o país estará voltado para este único e meteórico objetivo: a vitória de colocar mais vezes no fundo de uma rede entre traves altas de metal uma bola costurada de couro.

Não há em minhas palavras crítica alguma - eu mesmo escrevo estas linhas de dentro de uma camiseta azul-amarela que ostenta uma miniatuta de nossa bandeira.  Mas é curioso perceber como a vida dos brasileiros parece ficar suspensa, por noventa minutos, em um limbo no qual não há problemas, não há miséria, não há sequer um mundo lá fora para nos fazer refletir sobre o quão efêmera é uma vitória futebolística.  Mas quem pode dizer que não há valor na alegria instantânea de nos sentirmos campeões por alguns segundos, nem que seja pelos pés de outro que por alguma razão - nacionalidade, sonhos em comum, mesma origem e língua pátria - a nos se assemelha?

Posted by Frizero at 23:16:13
Comments

One Response to “E Rola a Bola…”

  1. Carmen Silvia Presotto says:

    Robertson!
    Me somo à camiseta verde -amarela, que por minutos nos “hibridiza” a uma nacionaIDADE… Mostrando-nos que nem tudo se explica, quando a implicação é a paixão de nos sentirmos campeões junto a tantos pés em direção a “redes” que nos permitam estufar o peito junto a sonhos comuns: HumanIDADE, talvez uma pátria banhada de origem e fim, sangue e ginga e suor que no fim nos coloca no mais real da Vida… A vida como ela é. Um jogo! Um tempo! Um gol!
    Uma vitória, uma derrota… e quando isso é para todos, qualquer coração vibra. Claro que os “canários” são os que melhor entoam o canto, então que em toda semelhança que nos coloca uma Copa do Mundo, essa seja a única diferença.: Mais Goooools!
    Um abraço e parabéns pela crônica e gracias pelos poemas que fazem com que nossos dedos sigam jogando por mais palavras.
    Carmen Silvia Presotto

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