E Já Não Podemos Dizer Nada
[...]Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
(No Caminho com Maiakóvski,
poema do poeta brasileiro Eduardo Alves da Costa)
Em 6 de junho de 2006, data que tantos proclamavam como aziaga, aconteceu um ato que estarreceu a todos os brasileiros - ao menos, àqueles que ainda cultivam alguma esperança de aqui construir um país democrático, justo e ordeiro. Um grupo de aproximadamente trezentos militantes de um dito movimento social autointitulado Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST), uma espécie de dissidência do renomado Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), invadiu o prédio da Câmara dos Deputados, simbolicamente conhecido como a Casa do Povo, para ali promover cenas de selvageria que seriam condenáveis em qualquer lugar, mais ainda em plena sede de um dos três Poderes da República Federativa do Brasil.
Os supostos sem-terra - nas imagens televisionadas, vê-se gente muito bem vestida entre os manifestantes - estavam em Brasília para marcar o término de um mês de protestos durante o qual promoveram diversas invasões de terra e manifestações. Mas, segundo palavras do próprio coordenador de tal movimento, um senhor Bruno Maranhão, amigo pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e membro da executiva nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), o grupo foi à capital federal “sem nenhuma reivindicação”, apenas para uma “falação” (sic) com o presidente da Câmara dos Deputados, a quem ele chama carinhosamente de “o Aldo”.
O que se viu, contudo, não foi nenhuma manifestação pacífica: houve pelo menos vinte feridos, quatrocentas e noventa e sete prisões (dentre as quais, a de trinta e dois menores) e um rastro de destruição pelos coredores de acesso e pelo Salão Verde da Câmara dos Deputados, que serve de ante-sala para o plenário, que será difícil de ser reparado - ao menos de nossas memórias. As cenas mostradas por todas as emissoras de televisão são assustadoras: os pacíficos manifestantes de Bruno Maranhão adentram o acesso secundário da Câmara dos Deputados armados com paus e pedras, destróem um automóvel que ali estava em exposição e que seria sorteado pou um banco aos funcionários da casa, estilhaçam a porta de vidro da entrada principal e, a partir daí, como uma horda de bárbaros, vão destruindo o que vêem e usando os escombros da destruição como novas armas para destruir o que está mais adiante. É uma cena digna dos filmes de batalha ver um dos supostos sem-terra ostentar uma bandeira do MLST trepado em uma escultura de um anjo criada por Ceschiatti para adornar o Salão Verde da Casa do Povo.
As autoridades foram rápidas em emitir suas notas de repúdio à violência - umas acusando o Governo Federal de não ter cumprido promessas de Reforma Agrária, outras defendendo a idéia de que Maranhão não segue as orientações do partido a que pertence -, mas a verdade é que o fato não nasceu daquele dia 6 de junho de 2006. O processo é longo, de décadas. Começou quando os governos do Brasil - municipais, estaduais e federal - esquivaram-se de fazer cumprir a lei brasileira desde as primeiras invasões de terras improdutivas promovidas por esses movimentos sociais, que então invocavam preceitos constitucionais para burlar o direito à propriedade; depois, as invasões começaram a atingir os prédios públicos, em chantagens inaceitáveis para que o processo de Reforma Agrária desse os passos que eles desejavam, e não os que eram possíveis de ser feitos naquele momento; o passo seguinte, imitado por outros movimentos sociais, foi o de interromper estradas, não importando a justeza da causa que defendiam, e tudo isso sempre acompanhados de longe por forças policiais que eram compelidas a servir de platéia de luxo aos atos de desrespeito à lei e à ordem; o passo seguinte, foi atacar e destruir empresas, distribuidoras, laboratórios, cultivares e centros de pesquisa à guisa de protesto contra os trangênicos, as multinacionais, o baixo preço do leite ou qualquer outra reivindicação que lhes servisse de pretexto. A resposta a isto tudo por parte do Estado Brasileiro, em suas três instâncias e poderes, foi sempre a mesma: a plácida observação à distância dos fatos, as notas explicativas pela modulação melíflua de seus porta-vozes e nenhuma ação concreta de enquadramento dos responsáveis, tanto pelas arruaças quanto pela organização desses grupos que beiram a criminalidade, usando-se da força da lei e do poder a eles investido pelo povo, através do voto.
O brasileiro não tem consciência qualquer de que o bem público é de todos, e também seu. Além disso, a sensação de impunidade, estampada em nossas mentes por inúmeros exemplos oriundos dos três Poderes da República, faz com que o Brasil esteja a se tornar um país onde todos têm direitos, e ninguém tem deveres. Isto está estampado nas falas dos próprios invasores do Congresso Nacional. Marcos Prachedes, diretor do MLST em São Paulo, declarou, por exemplo, alguns minutos antes da invasão, que “[o Congresso Nacional] é a cada do povo. Se não entrar por bem, vamos entrar por mal”. Valmir Macedo, outro líder da invasão, regozijava-se ante os repórteres televisivos dizendo que “[eles ocuparam] um lugar que ainda não estava ocupado, o Salão Verde da Cãmara” e afirmou que “a culpa pela quebradeira foi da segurança, que não soube trabalhar com a gente”.
Os invasores foram retirados do Congresso Nacional com todo o respeito que merece qualquer ser humano - respeito que eles não tiveram para com o servidor da Câmara dos Deputados que está neste momento na UTI do Hospital de Base de Brasília, em decorrência das agressões sofridas, nem com o chefe da segurança daquela casa, que fraturou uma perna ao ser empurrado escada abaixo. Resta-nos saber o que virá como conseqüência legal para os baderneiros por terem atacado o coração de um dos símbolos maiores de nossa democraria cabocla. Em se tratando do Congresso Nacional Brasileiro, paira sobre nós a suspeita cruel de que tudo isso não vai dar em nada. Mais uma vez, em nada.
Parece que já nos arrancaram a voz da garganta.
Bom, na verdade, não tenho nada mais a acrescentar! Concordo em gênero, número e grau.
Você, meu amigo Robertson, oportuno como sempre. Antes de ontem falou sobre o número besta. Devias ter jogado no bicho! Hoje eu já tinha certeza de que teu blog conteria a repercussão dos atos animais que ocorreram no congresso nacional.
Ah, são tantas coisas a criticar em nosso país e tão poucos blogs…
Tentemos deixar de lado o festival de escândalos e maus exemplos deixados pelos atuais parlamentares (isto é culpa direta de quem os elegeu). Vamos nos concentrar no ataque à instituição que foi historicamente um avanço político. A negação do absolutismo, do autoritarismo e o salutar controle legislativo.
O primeiro tipo de ataque vimos ontem. Uma organização sem personalidade jurídica, impossível de responsabilizar judicialmente, mas que recebe plenamente as benesses do estado como cestas básicas e verbas através de subterfúgios e ONGs. Só serão responsabilizados uns poucos asnos estúpidos o suficiente para quebrar vidraças na frente das cameras de tv. Logo o tal MLST vai estar badernando novamente.
O segundo tipo de ataque é da própria constituição federal, que tem regras eleitorais favorecendo o populismo e impede o voto distrital. Também são legisladores demais. Se fossem poucos, lideranças de seus partidos apenas, seriam melhor controlados e não faltariam às sessões. Os chamados membros do “baixo clero” não influem em nada, não apresentam propostas válidas (sugiro uma olhada no site da camara, onde se lê os mais absurdos projetos de lei - é de rir para não chorar, para não abandonar o país). Este baixo clero só pensa em uma coisa: continuar lá. Por quê? Estes senhores deixam suas famílias e suas atividades em prol do Brasil? Não. Analisando tudo isto temos ainda o fato de que a maioria esmagadora de projetos de lei efetivamente transformados em lei federal teve origem na iniciativa do poder executivo. Através de projetos de lei que o presidente pode apresentar ou através de medidas provisórias.
Tcham tcham: O LEGISLATIVO NÃO LEGISLA. Não reforma o processo político, não reforma o sistema processual judiciário e não controla o executivo. Só funciona na base do agrado, do conchavo, de emendas orçamentárias (outro absurdo que merece um livro sozinho).
Resultado da ópera de ontem: Todos os brasileiros podem criticar o MLST por invadir a casa democrática por excelência, menos os srs deputados e senadores, pois eles nada fazem por merecer respeito.
O terrível é que por definição eles são um espelho do nosso povo.
As palavras do Lang são contundentes e repletas de verdade.
Mas escrevo aqui diante do pasmo de ter visto na televisão, há alguns minutos, as imagens gravadas em uma fita de vídeo apreendida pela Polícia Legislativa das mãos dos baderneiros do MLST: na fita, mostra-se a verdadeira operação de guerra montada pelo dito movimento social para a invasão da Câmara dos deputados; reuniões prévias, nas quais os líderes dão informações para os invasores sobre as falhas da segurança do Congresso Nacional e de como deveriam agir para chegar ao Salão Verde, chamado por eles de “Salão de Baile”; visitas prévias, disfarçados de turistas, ao prédio da Câmara para conhecerem o local onde ontem iriam promover tamanho estrago na nossa imagem de democracia que se deseja moderna. Se a idéia de uma manifestação expontânea que se transforma em baderna já é assustadora, a de um movimento planejado, com aulas prévias e operação de reconhecimento do local e da rotina dos seguranças do Congresso Nacional é abominável.
Gostaria de reproduzir aqui uma notícia divulgada ontem pela agência de notícias de ‘O Globo’:
“Uma agenda apreendida com integrantes do Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST), que participaram da invasão ao Congresso, revela que R$ 83 mil teriam sido gastos para organizar a manifestação. De acordo com reportagem do Jornal Hoje, a polícia afirma que o caderno pertencia ao líder do movimento, Bruno Maranhão. A verba seria usada para transporte, hospedagem, alimentação, água e até aluguel de um carro.
Segundo a reportagem, em uma das anotações, Maranhão pede que uma mulher identificada apenas como Raquel cobre do PT os números do partido e o orçamento de passagens. Em telefonema para o MLST, uma funcionária informou que Raquel é secretária de Bruno Maranhão.” (AGÊNCIA O GLOBO)
Abstenho-me de maiores comentários.
Pelo menos aqueles que na cãmara dos deputados,ou melhor dos grandes ladrões do país, como vemos hoje, com as grandes maracutaias de sarney e companhia. Tinham vergonha na cara, e ao contrário da última estrofe da poesia citada acima(maiakovisk, eles não deixaram que arrancassem suas vozes, foram a luta.
os que acima escreveram aquelas idiotices, continuem hoje a defender a Câmara dos corruptos e o senado dos lacaios.