Wednesday, June 7, 2006

E Já Não Podemos Dizer Nada

[...]Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

(No Caminho com Maiakóvski,
poema do poeta brasileiro Eduardo Alves da Costa)

Em 6 de junho de 2006, data que tantos proclamavam como aziaga, aconteceu um ato que estarreceu a todos os brasileiros - ao menos, àqueles que ainda cultivam alguma esperança de aqui construir um país democrático, justo e ordeiro. Um grupo de aproximadamente trezentos militantes de um dito movimento social autointitulado Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST), uma espécie de dissidência do renomado Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), invadiu o prédio da Câmara dos Deputados, simbolicamente conhecido como a Casa do Povo, para ali promover cenas de selvageria que seriam condenáveis em qualquer lugar, mais ainda em plena sede de um dos três Poderes da República Federativa do Brasil.

Os supostos sem-terra - nas imagens televisionadas, vê-se gente muito bem vestida entre os manifestantes - estavam em Brasília para marcar o término de um mês de protestos durante o qual promoveram diversas invasões de terra e manifestações. Mas, segundo palavras do próprio coordenador de tal movimento, um senhor Bruno Maranhão, amigo pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e membro da executiva nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), o grupo foi à capital federal “sem nenhuma reivindicação”, apenas para uma “falação” (sic) com o presidente da Câmara dos Deputados, a quem ele chama carinhosamente de “o Aldo”.

O que se viu, contudo, não foi nenhuma manifestação pacífica: houve pelo menos vinte feridos, quatrocentas e noventa e sete prisões (dentre as quais, a de trinta e dois menores) e um rastro de destruição pelos coredores de acesso e pelo Salão Verde da Câmara dos Deputados, que serve de ante-sala para o plenário, que será difícil de ser reparado - ao menos de nossas memórias. As cenas mostradas por todas as emissoras de televisão são assustadoras: os pacíficos manifestantes de Bruno Maranhão adentram o acesso secundário da Câmara dos Deputados armados com paus e pedras, destróem um automóvel que ali estava em exposição e que seria sorteado pou um banco aos funcionários da casa, estilhaçam a porta de vidro da entrada principal e, a partir daí, como uma horda de bárbaros, vão destruindo o que vêem e usando os escombros da destruição como novas armas para destruir o que está mais adiante. É uma cena digna dos filmes de batalha ver um dos supostos sem-terra ostentar uma bandeira do MLST trepado em uma escultura de um anjo criada por Ceschiatti para adornar o Salão Verde da Casa do Povo.

As autoridades foram rápidas em emitir suas notas de repúdio à violência - umas acusando o Governo Federal de não ter cumprido promessas de Reforma Agrária, outras defendendo a idéia de que Maranhão não segue as orientações do partido a que pertence -, mas a verdade é que o fato não nasceu daquele dia 6 de junho de 2006. O processo é longo, de décadas. Começou quando os governos do Brasil - municipais, estaduais e federal - esquivaram-se de fazer cumprir a lei brasileira desde as primeiras invasões de terras improdutivas promovidas por esses movimentos sociais, que então invocavam preceitos constitucionais para burlar o direito à propriedade; depois, as invasões começaram a atingir os prédios públicos, em chantagens inaceitáveis para que o processo de Reforma Agrária desse os passos que eles desejavam, e não os que eram possíveis de ser feitos naquele momento; o passo seguinte, imitado por outros movimentos sociais, foi o de interromper estradas, não importando a justeza da causa que defendiam, e tudo isso sempre acompanhados de longe por forças policiais que eram compelidas a servir de platéia de luxo aos atos de desrespeito à lei e à ordem; o passo seguinte, foi atacar e destruir empresas, distribuidoras, laboratórios, cultivares e centros de pesquisa à guisa de protesto contra os trangênicos, as multinacionais, o baixo preço do leite ou qualquer outra reivindicação que lhes servisse de pretexto. A resposta a isto tudo por parte do Estado Brasileiro, em suas três instâncias e poderes, foi sempre a mesma: a plácida observação à distância dos fatos, as notas explicativas pela modulação melíflua de seus porta-vozes e nenhuma ação concreta de enquadramento dos responsáveis, tanto pelas arruaças quanto pela organização desses grupos que beiram a criminalidade, usando-se da força da lei e do poder a eles investido pelo povo, através do voto.

O brasileiro não tem consciência qualquer de que o bem público é de todos, e também seu. Além disso, a sensação de impunidade, estampada em nossas mentes por inúmeros exemplos oriundos dos três Poderes da República, faz com que o Brasil esteja a se tornar um país onde todos têm direitos, e ninguém tem deveres. Isto está estampado nas falas dos próprios invasores do Congresso Nacional. Marcos Prachedes, diretor do MLST em São Paulo, declarou, por exemplo, alguns minutos antes da invasão, que “[o Congresso Nacional] é a cada do povo. Se não entrar por bem, vamos entrar por mal”. Valmir Macedo, outro líder da invasão, regozijava-se ante os repórteres televisivos dizendo que “[eles ocuparam] um lugar que ainda não estava ocupado, o Salão Verde da Cãmara” e afirmou que “a culpa pela quebradeira foi da segurança, que não soube trabalhar com a gente”.

Os invasores foram retirados do Congresso Nacional com todo o respeito que merece qualquer ser humano - respeito que eles não tiveram para com o servidor da Câmara dos Deputados que está neste momento na UTI do Hospital de Base de Brasília, em decorrência das agressões sofridas, nem com o chefe da segurança daquela casa, que fraturou uma perna ao ser empurrado escada abaixo. Resta-nos saber o que virá como conseqüência legal para os baderneiros por terem atacado o coração de um dos símbolos maiores de nossa democraria cabocla. Em se tratando do Congresso Nacional Brasileiro, paira sobre nós a suspeita cruel de que tudo isso não vai dar em nada. Mais uma vez, em nada.

Parece que já nos arrancaram a voz da garganta.

Posted by Frizero at 13:24:42 | Permalink | Comments (5)