Monday, June 5, 2006

Número besta

Conseguiu que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, tivessem um sinal na mão direita e na fronte, e que ninguém pudesse comprar ou vender, se não fosse marcado com o nome da fera ou o número de seu nome. Eis aqui a sabedoria! Quem tiver inteligência, calcule o número da fera, porque é o número de um homem, e esse número é seiscentos e sessenta e seis.(Apocalipse de João, 13:16-18)

Os manuscritos gregos do Livro da Revelação de João trazem o número que representaria, para os crentes, o número do Anticristo: 666, o sinal que viria marcado naquele que seria controlado (ou encarnaria, segundo alguns) pelo mal absoluto. Tal conjunção de algarismos gerou um sem-número de interpretações - até os códigos de barras já foram apontados como o 666 da besta apocalíptica - e de livros diversos que se arvoram a listar dos sinais do surgimento do Anticristo às instituições e pessoas do mundo moderno que ostentariam tal número aziago.

A imprensa nossa tem auxiliado a alimentar as superstições em torno disso, a bem da verdade, muitas vezes sem esclarecer as origens de tal número e da mitologia em torno dele. O resultado é, no mínimo, curioso: o dia 6 de junho de 2006 - 6/6/06 - está sendo anunciado como um dia de mau agouro, no qual tragédias inomináveis - dentre as quais o próprio nascimento do tal anticristo - irão acontecer. De concreto, o que há por enquanto é o anúncio mundial do lançamento da refilmagem do clássico filme de terror A Profecia (que fala do justamente do surgimento do filho do Diabo no mundo), o início das vendas do último volume da série de livros evangélicos alarmistas norte-americana Left Behind, o lançamento de uns tantos CDs de bandas de Heavy Metal que querem aproveitar o factóide para repetir a eterna pose de adoradores do demônio e, ao que consta, uma certa corrida de várias grávidas em certos estados dos EUA para que os partos marcados para esse dia fatídico fossem antecipados ou adiados.

O curioso é que não há consenso algum sobre o que significaria o número 666 nos escritos visionários de João. A versão aceita pela Igreja Católica, inclusive, é afinada com boa parte dos historiadores, que crêem ser o número uma referência velada a uma grande autoridade da época, o Imperador Nero, grande perseguidor dos cristãos - e não a algum ser sobrenatural que surgiria no futuro com a missão de destruir o Cristianismo. Além de tal controvérsia nas interpretações do número da besta, hoje discute-se até mesmo se o número 666 é, de fato, o indicado no texto de João. Os manuscritos gregos apresentam-no como “χξϛ´”, que seria 666 na forma numérica do grego (ou, no chamado Codex Alexandrinus, no qual é literalmente apresentado como “seiscentos e sessenta e seis” - “ἑξακόσιοι ἑξήκοντα ἕξ”). Mas cópias recentemente encontradas do livro de João, da mesma época dos originais gregos - os chamados Oxyrhynchus papyri -, trazem o número grafado como “χιϛ´”, o que seria o número 616, e não o temido 666. Em outras palavras, enquanto não se chega a uma definição precisa de qual seria a forma original, corremos até mesmo o risco de estar a temer o número da besta errado… E se o dia fatídico foi, em verdade, 6 de janeiro de 2006 - 6/1/06? Vejam só há quantos dias já estaremos vivendo o Juízo Final sem sentir!

Que necessidade é esta de nós, homens, depositarmos em sinais externos, no outro, no exterior, a fonte de todo o mal que nos atinge e nos aflige? Será uma forma de fugir às responsabilidades? Cada um com suas crenças, mas disso parecem viver muitas e muitas seitas religiosas no mundo, mas também o comércio, a indústria do entretenimento e mesmo a imprensa. É muito mais fácil acreditar que os males de minha vida são devidos a um encosto qualquer - e até creio que eles existam, ainda que não sob esta nomenclatura, nem sob essa mesma idéia - que admitir que mesmo os encostos todos nada podem contra a nossa vontade.

Alimentamo-nos com superstições de que um dia, uma mera coincidência numérica no calendário ocidental gregoriano (será que os muçulmanos e os chineses, que seguem distintos calendários, estarão livres da hecatombe final?), o encontro fortuito de três algarismos 6, irá servir de marca visível do início do fim - e esquecemos que os dias, todos eles, são construídos por nós mesmos.

Ao ler estas linhas, provavelmente já estarás a viver o dia 6/6/06, ou por ele terás passado, incólume ou ferido, e arrisco-me a estar registrando aqui um erro grosseiro de interpretação - vai que o mundo acaba amanhã? -, mas me fio na crença de que o dia de amanhã, com todos os seus possíveis males, cabe apenas a mim decidir.

Posted by Frizero at 21:22:47
Comments

One Response to “Número besta”

  1. Daniel says:

    Ah, é por isso que vivo sem dinheiro! O número da minha conta bancária é 23666-7! Esta é a chave para compreender as hecatombes que se abatem sobre ela assim que o dinheiro entra - é o fim do mundo, ou pelo menos, o fim do salário… Salvai-me, Jesus, do holocausto financeiro!

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