Sunday, June 4, 2006

Auto-suficiência

José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobrás, anunciou que a empresa estatal considera fortemente a possibilidade de devolução ao Governo Boliviano das duas refinarias de petróleo que a sua sucursal criada naquele país, a Petrobrás Bolívia, controla desde 1999.  As duas refinarias, localizadas em Cochabamba e Santa Cruz de la Sierra, são as que mais produzem derivados de petróleo consumidos em território boliviano - cerca de 70% (setenta por cento) do óleo díesel, por exemplo -, e a idéia seria, então, entregá-las ao controle da estatal do petróleo boliviana, a Yacimentos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), mediante reembolso do valor das instalações construídas com dinheiro brasileiro.

Mas o que se está a chamar de questão boliviana está longe de chegar a um final: as negociações entre a Petrobrás e a YPFB, ou melhor, entre o Governo Brasileiro e o Boliviano, estão paralizadas em torno dos problemas que circundam essa decisão de repassar para o controle boliviano as refinarias: primeiramente, é preciso chegar a um consenso sobre o valor da compensação a ser paga pelos bolivianos; depois, de que forma esse pagamento será feito. 

A YPFB já estabeleceu que tal compensação será paga integralmente por eles em gás natural, ou seja, nenhum centavo sequer em moeda corrente será dispendido - o valor da indenização, uma vez estabelecido, seria calculado em termos de metros cúbicos de gás a ser fornecido para o Brasil, que recebe diariamente daquele país o equivalente a US$ 3.500.000,00 (três milhões e quinhentos mil dólares estadunidenses) em gás natural boliviano.  A Petrobrás acedeu e aceitará tal forma de pagamento.  Mas disso surgem novos impasses: a Petrobrás deseja que o valor das refinarias seja descontado do pagamento pelas importações referentes ao contrato atualmente em vigor, já que a empresa brasileira não teria a intenção de renová-lo no futuro; a YPFB quer estabelecer um novo valor para o gás natural e entrar em acordo com a Petrobrás sobre qual seria o real valor das refinarias e o real preço a ser cobrado pela Bolívia por seu gás natural.

Em outras palavras: o Brasil, que alardeia em peças publicitárias milionárias a sua auto-suficiência em petróleo, age como um refém indefeso da traquinagem boliviana de não cumprir contratos internacionais.  Nossa empresa estatal do petróleo, motivo de orgulho para os brasileiros, está sendo vilipendiada em alguns milhões de reais por conta, única e exclusivamente, da inação de nosso governo federal perante as arbitrariedades do populista presidente boliviano Evo Morales.  Investimos milhões de dólares do contribuinte brasileiro na Bolívia, garantindo que aquele país pudesse explorar suas reservas e, de sobra, ganhasse mercado e forma de escoamento de seu produto; agora, agimos como a parte fraca de uma contenda que poderia ter sido solucionada com medidas de impacto como o boicote ao gás boliviano ou a interrupção dos pagamentos do contrato rasgado pela Bolívia.

Mas somos brasileiros, bonzinhos, e não desistimos nunca de tratar a coisa pública como coisa de ninguém.  Os bolivianos têm razões de sobra para nos adorar como vizinhos.    

   

Posted by Frizero at 18:58:10
Comments

3 Responses to “Auto-suficiência”

  1. Anonymous says:

    Que tal entao a gente desmontar as fabricas ? Poderiamos colocar em outro lugar…

  2. Lang says:

    No caso a “devolução” seria direto pra Hugo Chaves e Venezuela, que dá as cartas por Evo Moralles. Triste sina a nossa…

  3. Diogenes says:

    Nossa Frizero!! Estou adorando seus textos!!!!

Leave a Reply