Ah, a Vida no Campo!
I think I could turn and live awhile with the animals… they are so placid and self-contained,
I sat and look at them sometimes half the day long. They do not sweat and whine about their condition,
They do not lie awake in the dark and weep for their sins,
They do not make me sick discussing their duty to God,
Not one is dissatisfied… not one is demented with the mania of owing things,
Not one kneels to another nor to his kind that lived thousands of years ago,
Not one is respectable or industrious over the whole earth.
(Walt Whitman, Song of Myself [32])
Entendo, oh, como entento os poetas do arcadismo, aqueles que pregavam em seus versos cheirando a paganismo um retorno ao campo, à vida contemplativa, ao convívio com a natureza em sua forma mais bruta! Neste momento particular da história do homem, em que vivemos cercados de pequenos aparelhos e dispositivos que chamo carinhosamente de coleiras eletrônicas - os telefones celulares, as inúmeras contas de e-mail na Internet, os perfis em comunidades virtuais e as secretárias eletrônicas, enfim, que nos governam a vida mesmo quando queremos ser esquecidos pelo resto do mundo, parece-me que o ideal da arcadia faria ainda mais sentido. O problema de entregar-se à idéia idílica de uma vida no campo, para mim, sempre foram os insetos - ainda que alguns dos problemas que vivo atualmente, em minha existência neurotizada de homem da cidade, pareçam-se muito com algumas das mais incômodas dessas criaturinhas com quem me relaciono tão mal…
Como expressa tão bem o libertário poeta estadunidense Walt Whitman, a natureza dá-nos a impressão de placidez, de auto-controle de que o homem contemporâneo tanto carece. Ambos a natureza e nós seguimos um curso de vida que não se interrompe - apesar da aparente imobilidade das paisagens mais bucólicas, tudo no mundo está em constante mudança. Mas a diferença maior entre nós, humanos contemporâneos, e a natureza bruta é justamente o fato de que nossas mudanças parecem se dar mais por um processo de ebulição como o dos vulcões e não de lento crescimento como o da mais simples planta. Não nos contentamos em conduzir um único processo, isoladamente: nossa vida parece estar sempre envolta em uma teia de compromissos e preocupações sobre cuja real necessidade muitas vezes sequer questionamos; mas seguimos criando novos envolvimentos, na tentativa de compensar as frustrações e perdas que os anteriores nos causam - tentamos equilibrar o desequilíbrio com mais razões para a perda de controle…
Por isso, o mito da vida bucólica é algo que persegue o homem contemporâneo e já está, em verdade, presente em nós há muito e muito tempo. Lembremos que Maria Antonieta, a rainha francesa que entrou para a história por sua notória alienação dos problemas do povo - e também por ter perdido a cabeça, literalmente, por conta disso - distraía-se nos jardins do Palácio de Versalhes brincando de camponesa em uma pequena fazendinha que ela mandou ali construirem, em um canto isolado dos vastos prados que cercam o suntuoso palácio. Os homens hodiernos não mudaram muito desde então: ao acumular alguma riqueza, tratamos logo de adquirir nossa pequena propriedade rural, para descansar da agitação das grandes cidades, seja nas serras ou nas praias…
A vida no campo até me apetece um pouco, nesses momentos da vida em que a loucura ao redor parece crescer em níveis insuportáveis. Mas sou citadino demais para me adaptar aos insetos e às ausências que a tecnologia me faria, creio. O bucolismo dos poemas me encanta, contudo, ainda que a visão cristalina das neuroses modernas que nos dá Whitman - no trecho de seu Song of Myself em que exalta a vida animal em comparação aos homens - me pareça bem mais palatável que aqueles devaneios quase infantis de que a vida no campo seria algo mais próximo de uma sonhada perfeição. Ainda assim, sempre haverá os insetos.