Kion ni scias estas guto, kion ni nescias estas oceano.
“O que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano”.
(Isaac Newton)
A globalização, um processo de interdependência e de trocas econômicas intensas em nível mundial, tem sido objeto de análise desde que foi mais nitidamente identificado a partir da década de 1990. Tornada vilã por muitos, essa intensificação global de intercâmbios econômicos e culturais foi vista como uma ameaça às culturas regionais e, sobretudo, à idéia de língua nacional, já que a expansão mundial da língua inglesa, desde a Segunda Grande Guerra transformada em lingua franca dos negócios e da cultura de massa, era vista como a futura causadora do desaparecimento das chamadas línguas minoritárias.
Passados mais de trinta anos desde o surgimento do termo globalização, viu-se que o fenômeno foi justamente o oposto: a língua inglesa segue soberana como língua de comunicação entre os povos, mas seu uso tão freqüente por tantas pessoas ao redor do mundo já é visto como possível causa de sua decadência e de seu enfraquecimento, já que se fala hoje em dia em várias línguas inglesas, diariamente influenciadas pelos acréscimos e fragmentações promovidos por todos os seus usuários, muitos deles com pouquíssima fluência naquela língua; além disso, línguas esquecidas, faladas por poucos, como o occitan da França, o galego e o catalão da Espanha e outras tantas línguas minoritárias ganharam novo fôlego com o ambiente aglutinador e livre da Rede Mundial de Computadores, a Internet.
Tal expansão da língua inglesa representa, contudo, uma natural divulgação da cultura dos países que a têm como língua oficial, sobretudo das duas maiores potências de língua inglesa, o Reino Unido e os EUA - os filmes, programas televisivos, músicas e livros produzidos em língua inglesa ganharam imediato acréscimo em seu poder de penetração em todos os países do mundo a partir dos anos 1950. É curioso, portanto, que em tempos nos quais se prega a necessidade de valorizar as culturas regionais e combater a hegemonia anglófona no mundo, não seja retomada entre os defensores da igualdade entre os povos a idéia de adoção de uma língua internacional artificial, que não carregasse consigo nenhum traço desta ou daquela cultura ou ideologia nacional, mas sim a de todos os seus usuários em coletividade.
Das línguas inventadas pelo homem - deliberadamente, pode-se dizer, à guisa de diferenciá-las das línguas naturais, surgidas do convívio humano -, a mais bem sucedida é, sem dúvida, o Esperanto, nascido sob o mesmo projeto de uma língua universal surgido da incômoda noção – segundo Paulo Rónai, o eminente lingüista, bastante européia – da necessidade de um idioma internacional que pudesse auxiliar a comunicação dos povos além de suas línguas nacionais. Tal busca de uma língua universal, a bem da verdade, esteve sempre acompanhada de uma ideologia pacifista, uma “confiança na possibilidade de soluções internacionais pacíficas” que contém, em seu âmago, a convicção de que uma língua internacional pode ser uma ferramenta importante na construção de uma sonhada fraternidade universal ao permitir a compreensão dos povos – um viés ideológico que é, de certa forma, reducionista ao creditar à incapacidade de comunicação direta entre os povos a razão maior da violência entre as nações. O próprio Ludwik Lejzer Zamenhof, médico e filólogo polonês inventor do esperanto, dizia que a escolha de uma língua natural para assumir a função de língua universal daria “ao povo cuja língua fosse escolhida como internacional” uma certa “supremacia sobre todos os outros povos que os oprimiria e tragaria”. A partir de tal crença, diversos estudiosos propuseram línguas artificiais que pudessem ser usadas para tal finalidade nobre, a de promover o entendimento entre os povos.
Em que pese a facilidade de se aprender o Esperanto - a gramática está fechada em dezesseis regras imutáveis, a formação de palavras por meio de afixação torna a aquisição vocabular extremamente simples e as letras de seu alfabeto representam sempre os mesmos sons -, contra tal língua há o fato de não haver um país ou nação que a tenha como língua oficial ou de cultura, bem como o de ser o esperanto quase que exclusivamente aprendido por meios formais de educação, e quase sempre como uma língua estrangeira – já que, com exceção do ambiente dos grupos de estudos esperantistas e dos congressos internacionais de esperantistas realizados anualmente em diversas partes do mundo, não há uma sociedade completamente estabelecida ou grupo social inserido em qualquer sociedade que tenha o esperanto como língua primeira de comunicação nas diversas funções comunicativas. Em outras palavras, sua maior virtude - a de ser uma língua decalcada dos ditames deste ou daquele Estado Nacional - faz com que nenhum povo do mundo se empenhe em divulgar o Esperanto.
Para Rónai, “a maior contribuição do Esperanto para a solução do problema das comunicações internacionais consiste em ser ele o primeiro idioma artificial que não nasceu morto, como quase todos os seus predecessores, nem morreu ao cabo de alguns anos de vida, com a exatidão do entusiasmo de seus adeptos, como o volapuque”. Contudo, precisar o número de falantes de esperanto, a língua estrangeira mais falada na atualidade, torna-se uma tarefa difícil por ser esta língua tipicamente aprendida como língua estrangeira, e muitas vezes de forma autodidata por seus falantes, quer seja por meio da literatura existente para o estudo do esperanto, quer seja modernamente pelo auxílio dos meios eletrônicos, mormente dos cursos de esperanto mantidos na rede mundial de computadores (Internet), muitos deles com a possibilidade de o aprendiz contar com o auxílio de tutores voluntários via correspondência eletrônica (e-mail). A língua artificial esperanto teve como vantagens o fato de seu inventor, que aprendera de berço o russo e o iídiche, ter primado, na construção de seu projeto de língua universal, pelos princípios da economia lingüística de André Martinet e na negação do que chamou de “opulência de formas gramaticais” que, nas línguas naturais, segundo ele, é “apenas uma casual ocorrência histórica, desnecessária a uma língua”. Além disso, Zamenhof previu no futuro de sua língua internacional a intervenção dos falantes e estudiosos - algo semelhante ao que ocorre na Informática com o software livre, no qual todos os usuários são potenciais criadores e aperfeiçoadores daquela linguagem.
Porque, então, diante das vantagens todas que pode oferecer esta língua artificial, não adotaram os povos o Esperanto como segunda língua? Esta era, aliás, a idéia primeira de Zamenhof: que o Esperanto não fosse a língua nacional de nenhum povo, mas uma língua estrangeira de fácil aprendizado que permitisse aos povos se comunicarem entre si sem terem que abir mão de suas línguas nacionais - e sem a obrigatoriedade de aprender diversas línguas estrangeiras para manter a comunicação a fluir satisfatoriamente. Se no plano individual tal idéia possa parecer tola - afinal, quem aprende uma língua estrangeira o faz por diversas razões, dentre elas acessar na língua original a obra de grandes artistas e as idéias de seus pensadores -, quanto não seria facilitada a comunicação em meios voltados para as trocas internacionais, como a diplomacia e o mundo dos negócios?
Enfim, restou do Esperanto o sonho de Zamenhof. Mas que deixou há tempos de ser o sonhar isolado de um único homem: hoje o Esperanto têm, em todo o mundo, mais de três milhões de falantes - alguns deles, por mais incrível que possa parecer, que o aprenderam como língua materna, por meio de pais e mães que falaram desde o berço em Esperanto com seus filhos - e uma produção cultural considerável - desde escritores que elegeram o Esperanto como língua original para suas obras a grupos musicais que compõem e gravam na língua universal proposta pelo médico polonês e aperfeiçoada pelos seus milhões de aprendizes.