Friday, June 30, 2006

Poesia

A sombra das palavras trespassa os sons e as formas
e aguarda, silenciosa, que te entretenhas
com tais pequenos folguedos:
ela espera, com a tranqüilidade das certezas inatingíveis,
que brinques com tua língua em silêncio pelo desenho das letras,
formes em ti as canções entrecortadas destes versos
e que vás tecendo em ti os sentidos
que esses traços primeiro te tragam.
Mas, depois, sob o véu opaco dos riscos
e das miragens de dicionário,
a sombra das palavras desvendará o bote,
revelará o oculto e destruirá a farsa,
e arrancará de ti, em encantado espanto,
essa verdade que só em ti reside e nasce
do oco das palavras, e que em ti se espelham.

Da obra

(1996)
(Robertson Frizero Barros)

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Tuesday, June 27, 2006

Barbárie ou civilização?

Diante do que nossos olhos vêem nos distanciadores noticiários televisivos ou na crueza latente da realidade de nossas ruas e cotidianos, uma pergunta parece se impor a todos nós: estaremos abandonando a civilização ou abraçando de vez a barbárie?

A pergunta soa alarmista e intolerante - afinal, tal contraste entre o que seria a civilização e o que se considera barbárie pode variar até mesmo de uma época para outra, e o que hoje consideramos normal ter sido visto, há eras a fio, como um sinal do fim dos tempos.  Mas é importante buscarmos aquele questionamento dentro dos conceitos mais genéricos - e por isso mais passíveis de um consenso universal - do que seria a barbárie e a civilização, para a partir dessa reflexão mensurarmos o quanto estamos a caminhar em direção a uma coisa ou distanciando-nos da outra.

Quando falamos em barbárie, as idéias que a tal conceito se impõem são a do caos, da imposição do medo e dos sentimentos sobre a razão, do domínio pelo irracional e pelo instintivo, da desmedida e da ação violenta sobre o pensamento e o raciocínio.  Em contraponto, a civilização traz a organização, o domínio dos instintos por meio da razão, a construção da vida em sociedade e de regramentos que a garantam em uma base comum do que aquele grupo aceita como o certo e o errado, o tolerável e o abjeto.  Em outras palavras, a barbárie é o domínio do presente, do imediato, da satisfação primeira dos instintos mais primevos, enquanto a civilização carrega, em seu impulso normatizador, uma proposta de futuro, de construção de um porvir para os que nos sucederão, de preservação da espécie e de um modo de vida que nos parece confiável e perene.

Estará conseguindo a civilização dar conta dos avanços da barbárie?  Não são poucos os que vêem o homem como sendo o lobo do homem e usam tal expressão diante de cada atrocidade cometida pelos outros contra si ou aqueles com quem se identifica e simpatiza.  Em verdade, a civilização é um conceito em si abstrato, que jamais irá se concretizar em sua plenitude.  Ainda assim, por sorte o Ocidente assumiu o que se chama de impulso civilizatório como uma bandeira inquestionável, à qual está unida de forma indissolúvel o conceto de democracia - pois que a civilização prevê o estatuto do voto como a melhor das formas para se buscar um bem comum, um estado de coisas que busque satisfazer a todos em igual medida e que seja o mais perene possível -, ainda que em nome desse regime tantos erros tenham sido cometidos na história da humanidade. 

Mas, qual a alternativa?  A barbárie pressupõe o autoritarismo e a tirania, regimes no qual o medo exerce o papel que o livre pensar exerceria em um regime democrático ideal.  E ao falarmos em escolhas, cabe assinalar outro interessante contraponto entre civilização e barbárie: o papel dos homens em ambos os processos.  A civilização pressupõe uma coletividade de indivíduos, de seres pensantes, que como conjunto formam um povo que compartilha de ideais de futuro e de concepções de vida e que também tem em comum um desejo de permanência e de construção de um futuro comum.  A barbárie é formada por um todo indistinto de partículas humanas, uma massa que, em sua condição de coletividade disforme, carrega um pensamento único e limitador.  A civilização constrói, elege, julga, organiza e caminha adiante em busca de objetivos comuns; a barbárie destrói, saqueia, lincha, viola e pisoteia indistintamente em busca da satisfação imediata de seus instintos individuais e vontades que parecem não poder ser frustradas.  Aliás, a civilização pressupõe uma certa dose de renúncia, de abdicar de certos prazeres quando eles trespassam os limites do direito alheio; a barbárie não respeita limite algum.

E em que ponto estamos neste embate eterno entre civilização e barbárie?  Parece-nos que esta é uma resposta difícil de responder em uma época na qual os individualismos estão tão exacerbados e na qual tudo parece se resumir a uma incessante busca pelo prazer mais imediato.  Mas, qualquer que seja a resposta que dermos ao questionamento sobre o qual constantemente estamos a refletir, o que surge com maior importância para todos nós é pensar que papel estaremos a desempenhar perante o mundo: somos nós indivíduos, seres pensantes, partes de um povo que vislumbra um futuro maior ou estaremos apenas compondo, como partículas manipuladas de uma massa disforme, as forças de destruição da barbárie sempre temida e assustadora?

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Saturday, June 24, 2006

Partes

 

O que restará de mim quando partires?

Estas palavras de amor sinceras e inauditas

Este gesto cordial suspenso em afeto e sonho

Este olhar de saudade em órbitas vazias

Este deserto interior do que jamais será.


 

O que restará de mim quando te fores?

Este pranto de ausência, absurdo e cortante

Este lugar rasgado nas noites tranqüilas

Este listar eterno do que antes eu era

Este abismo espectral em que minha vida nasce.

 

O que serei eu depois que me deixares?

Esta sombra sem forças, véu do caos e do assombro

Este resto de ser a relembrar tua parte

Neste teatro de vidas que se encontram e partem

E que vão a deixar inauditas palavras

Desse amor que surgiu, mas que no ar se perdeu.

 

E esta infinita dor, e este horror de jamais

Ter sido em minha vida algo a conter tua partida.

 

(Robertson Frizero Barros)

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Thursday, June 22, 2006

A Validação da Literatura

Uma das primeiras discussões que surgem quando se estuda a Literatura é justamente o que faz de um texto uma obra de arte literária.  Em termos gerais, o texto literário tem elementos que lhe são peculiares - como o uso de figuras de linguagem, a sensação de estranhamento que causam no leitor, a distribuição espacial e sua morfologia - mas que não lhe são exclusivas: encontram-se figuras de linguagem diversas em textos jornalísticos, com maior ou menor grau de abstração do sentido primeiro das palavras, bem como se vê o estranhamento e o uso de distribuições espaciais diferenciadas no texto publicitário.  O que faz, então, com que um texto seja aceito como literatura

Para alguns importantes teóricos, como o português Carlos Reis, a literatura faz-se notar por diversos aspectos, dos quais a relação entre escritor e leitor não pode ser esquecida.  Reis vê esta relação dentro do campo da teoria da comunicação, associando o autor ao emissor de uma mensagem literária e o leitor, receptor da mesma.  O que faz, contudo, com que esta mensagem seja percebida como literária é justamente seu caráter explícito de ficção, de mimesis da realidade, de recriação - uma característica que é notada pelo leitor e faz com que este assuma uma posição diferenciada diante do texto literário que, talvez, não tenha diante de outras espécies de texto: o leitor acata as palavras do autor não como as de uma autoridade que lhe apresenta um assunto, mas como a de um guardião que carrega as chaves de um mundo novo, que ele sabe ser inventado, mas que carrega em si tal verossimilhança com o mundo real que passa a ser por ele visto com a mesma importância e realidade, ainda que pelos poucos instantes em que se deixa levar por aquela trama de ações e imagens sugeridas pelo texto.

Basta, então, que o leitor, qualquer leitor, identifique uma obra como literária para que esta seja fruto de interesse?  Em verdade, aqui entram questões mais complexas e muitas vezes distanciadas do próprio texto literário.  A validação, chamemos assim, da literatura passa por uma série de circunstâncias - desde as escolhas estabelecidas nos cânones das diferentes épocas à valoração oferecida pelos prêmios literários de toda sorte, pelo prestígio oferecido pelos meios midiáticos à obra ou, muitas vezes, ao próprio autor - e que pode antecede o valor da obra.

A história da literatura é repleta de exemplos de obras literárias que hoje tem seu valor artístico reconhecido e que no passado eram desprezadas, bem como um sem-número de casos opostos a estes.  Em verdade, toda tentativa de escrever uma história da literatura é, em igual medida, uma ação de exclusão.  Compõe-se, assim, uma lista de obras a serem lidas, e a seu reboque há todo um universo de outros textos que são lançados na lista dos esquecidos.  Não raro obras que se querem de fôlego na tarefa inglória de construir uma história literária trazem uma lista imensa de autores e obras, resumidos em linhas diminutas na tentativa vã de ser “o mais completo compêndio literário” possível.  Mas, enfim, seguirão sempre sendo obras excludentes, pois antes delas outras tantas definiram o esquecimento de livros e textos que sequer chegariam às mãos dos leitores contemporâneos.

Que dizer então do panorama da literatura atual?  Em que pesem os naturais exageros de qualquer generalização, parece-nos que o acesso dos escritores àquele momento mágico e sonhado da publicação é cada vez mais regido por fatores outros que ultrapassam a qualidade das obras ou mesmo aquela literariedade do texto a que se refere Reis em seus estudos.  Os prêmios literários, que exercem uma função indiscutível de validação institucional, multiplicaram-se e passaram a ser usados até mesmo por grandes empresas como uma forma de marketing institucional, na qual se vinculam a premiação de obras literárias e seus autores à imagem de que aquela empresa investe em cultura - quando não raro o valor gasto nas premiações é seu único dispêndio em promoção cultural no decorrer de todo um exercício financeiro.  Além disso, há os prêmios literários concedidos por academias de letras, governos e centros de ensino, nos quais estão em jogo, muitas vezes, mais a necessidade de prestígio da entidade que concede o prêmio que um interesse maior em descobrir novos talentos.  Premia-se, então, o consagrado, o famoso, o célebre - e o novo autor que espere as oportunidades esparsas que lhe surjam.  Há, ainda, os prêmios literários que servem tão-somente para extrair dos aspirantes a escritor alguns trocados - são as editoras que promovem seus concursos próprios, dos quais sempre emerge uma coletânea da qual os premiados só participarão, naturalmente, ao se tornarem co-editores do tal livreto com a compra de cotas de publicação e o recebimento de seus direitos por meio de um número qualquer de exemplares do livro por eles mesmos financiado…e muitos se sentem felizes diante da oportunidade, mesmo que tão vaporosa, de ter sua obra levada ao público!…   Mas não há como negar que os prêmios literários - e há os que seguem critérios justos para sua avaliação, que convidam jurados com competência para tal, pessoas que pensam e estudam a literatura - são, presentemente, importante instrumento de validação da literatura e, por que não dizer, de exposição do escritor perante a sociedade.

O escritor - e creio que concordarão todos os que, como eu, passam horas, por vezes dias, com idéias a martelar no cérebro, pedindo para serem colocadas no papel pelas ações e falas de personagens de um mundo novo e mimético - jamais se libertará dessa necessidade de transmitir sua mensagem literária.  A explosão do conhecimento, a modernização da tecnologia de comunicação e os novos meios de divulgação - como este que uso agora, enquanto converso contigo, leitor, a Internet - talvez tragam novas formas de manutenção desse diálogo silencioso, por vezes solitário de ambas as partes, que o autor trava com seus leitores de todas as épocas - da sua própria e das que estão por vir.  E o destinatário dessas mensagens, o leitor, mal pode imaginar o quão importante é, para o escritor, fazê-la chegar aos seus eventuais interlocutores.  

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Friday, June 16, 2006

Língua Apátrida

Kion ni scias estas guto, kion ni nescias estas oceano.
“O que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano”.
(Isaac Newton)

A globalização, um processo de interdependência e de trocas econômicas intensas em nível mundial, tem sido objeto de análise desde que foi mais nitidamente identificado a partir da década de 1990. Tornada vilã por muitos, essa intensificação global de intercâmbios econômicos e culturais foi vista como uma ameaça às culturas regionais e, sobretudo, à idéia de língua nacional, já que a expansão mundial da língua inglesa, desde a Segunda Grande Guerra transformada em lingua franca dos negócios e da cultura de massa, era vista como a futura causadora do desaparecimento das chamadas línguas minoritárias.

Passados mais de trinta anos desde o surgimento do termo globalização, viu-se que o fenômeno foi justamente o oposto: a língua inglesa segue soberana como língua de comunicação entre os povos, mas seu uso tão freqüente por tantas pessoas ao redor do mundo já é visto como possível causa de sua decadência e de seu enfraquecimento, já que se fala hoje em dia em várias línguas inglesas, diariamente influenciadas pelos acréscimos e fragmentações promovidos por todos os seus usuários, muitos deles com pouquíssima fluência naquela língua; além disso, línguas esquecidas, faladas por poucos, como o occitan da França, o galego e o catalão da Espanha e outras tantas línguas minoritárias ganharam novo fôlego com o ambiente aglutinador e livre da Rede Mundial de Computadores, a Internet.

Tal expansão da língua inglesa representa, contudo, uma natural divulgação da cultura dos países que a têm como língua oficial, sobretudo das duas maiores potências de língua inglesa, o Reino Unido e os EUA - os filmes, programas televisivos, músicas e livros produzidos em língua inglesa ganharam imediato acréscimo em seu poder de penetração em todos os países do mundo a partir dos anos 1950. É curioso, portanto, que em tempos nos quais se prega a necessidade de valorizar as culturas regionais e combater a hegemonia anglófona no mundo, não seja retomada entre os defensores da igualdade entre os povos a idéia de adoção de uma língua internacional artificial, que não carregasse consigo nenhum traço desta ou daquela cultura ou ideologia nacional, mas sim a de todos os seus usuários em coletividade.

Das línguas inventadas pelo homem - deliberadamente, pode-se dizer, à guisa de diferenciá-las das línguas naturais, surgidas do convívio humano -, a mais bem sucedida é, sem dúvida, o Esperanto, nascido sob o mesmo projeto de uma língua universal surgido da incômoda noção – segundo Paulo Rónai, o eminente lingüista, bastante européia – da necessidade de um idioma internacional que pudesse auxiliar a comunicação dos povos além de suas línguas nacionais. Tal busca de uma língua universal, a bem da verdade, esteve sempre acompanhada de uma ideologia pacifista, uma “confiança na possibilidade de soluções internacionais pacíficas” que contém, em seu âmago, a convicção de que uma língua internacional pode ser uma ferramenta importante na construção de uma sonhada fraternidade universal ao permitir a compreensão dos povos – um viés ideológico que é, de certa forma, reducionista ao creditar à incapacidade de comunicação direta entre os povos a razão maior da violência entre as nações. O próprio Ludwik Lejzer Zamenhof, médico e filólogo polonês inventor do esperanto, dizia que a escolha de uma língua natural para assumir a função de língua universal daria “ao povo cuja língua fosse escolhida como internacional” uma certa “supremacia sobre todos os outros povos que os oprimiria e tragaria”. A partir de tal crença, diversos estudiosos propuseram línguas artificiais que pudessem ser usadas para tal finalidade nobre, a de promover o entendimento entre os povos.

Em que pese a facilidade de se aprender o Esperanto - a gramática está fechada em dezesseis regras imutáveis, a formação de palavras por meio de afixação torna a aquisição vocabular extremamente simples e as letras de seu alfabeto representam sempre os mesmos sons -, contra tal língua há o fato de não haver um país ou nação que a tenha como língua oficial ou de cultura, bem como o de ser o esperanto quase que exclusivamente aprendido por meios formais de educação, e quase sempre como uma língua estrangeira – já que, com exceção do ambiente dos grupos de estudos esperantistas e dos congressos internacionais de esperantistas realizados anualmente em diversas partes do mundo, não há uma sociedade completamente estabelecida ou grupo social inserido em qualquer sociedade que tenha o esperanto como língua primeira de comunicação nas diversas funções comunicativas. Em outras palavras, sua maior virtude - a de ser uma língua decalcada dos ditames deste ou daquele Estado Nacional - faz com que nenhum povo do mundo se empenhe em divulgar o Esperanto.

Para Rónai, “a maior contribuição do Esperanto para a solução do problema das comunicações internacionais consiste em ser ele o primeiro idioma artificial que não nasceu morto, como quase todos os seus predecessores, nem morreu ao cabo de alguns anos de vida, com a exatidão do entusiasmo de seus adeptos, como o volapuque”. Contudo, precisar o número de falantes de esperanto, a língua estrangeira mais falada na atualidade, torna-se uma tarefa difícil por ser esta língua tipicamente aprendida como língua estrangeira, e muitas vezes de forma autodidata por seus falantes, quer seja por meio da literatura existente para o estudo do esperanto, quer seja modernamente pelo auxílio dos meios eletrônicos, mormente dos cursos de esperanto mantidos na rede mundial de computadores (Internet), muitos deles com a possibilidade de o aprendiz contar com o auxílio de tutores voluntários via correspondência eletrônica (e-mail). A língua artificial esperanto teve como vantagens o fato de seu inventor, que aprendera de berço o russo e o iídiche, ter primado, na construção de seu projeto de língua universal, pelos princípios da economia lingüística de André Martinet e na negação do que chamou de “opulência de formas gramaticais” que, nas línguas naturais, segundo ele, é “apenas uma casual ocorrência histórica, desnecessária a uma língua”. Além disso, Zamenhof previu no futuro de sua língua internacional a intervenção dos falantes e estudiosos - algo semelhante ao que ocorre na Informática com o software livre, no qual todos os usuários são potenciais criadores e aperfeiçoadores daquela linguagem.

Porque, então, diante das vantagens todas que pode oferecer esta língua artificial, não adotaram os povos o Esperanto como segunda língua?  Esta era, aliás, a idéia primeira de Zamenhof: que o Esperanto não fosse a língua nacional de nenhum povo, mas uma língua estrangeira de fácil aprendizado que permitisse aos povos se comunicarem entre si sem terem que abir mão de suas línguas nacionais - e sem a obrigatoriedade de aprender diversas línguas estrangeiras para manter a comunicação a fluir satisfatoriamente.  Se no plano individual tal idéia possa parecer tola - afinal, quem aprende uma língua estrangeira o faz por diversas razões, dentre elas acessar na língua original a obra de grandes artistas e as idéias de seus pensadores -, quanto não seria facilitada a comunicação em meios voltados para as trocas internacionais, como a diplomacia e o mundo dos negócios? 

Enfim, restou do Esperanto o sonho de Zamenhof.  Mas que deixou há tempos de ser o sonhar isolado de um único homem: hoje o Esperanto têm, em todo o mundo, mais de três milhões de falantes - alguns deles, por mais incrível que possa parecer, que o aprenderam como língua materna, por meio de pais e mães que falaram desde o berço em Esperanto com seus filhos - e uma produção cultural considerável - desde escritores que elegeram o Esperanto como língua original para suas obras a grupos musicais que compõem e gravam na língua universal proposta pelo médico polonês e aperfeiçoada pelos seus milhões de aprendizes.

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Tuesday, June 13, 2006

E Rola a Bola…

Gostaria imensamente de saber se há algum país do mundo que se comova em iguais proporções com a Copa do Mundo como o nosso país. 

Há semanas acompanho a preocupação de todos sobre como seria a rotina dos dias de jogos do Brasil na Copa do Mundo.  Colegas de trabalho e chefias preocupam-se com os horários de compensação e com a liberação para os jogos; universidades discutem a hora-término das aulas nas tardes de jogos; lojas, edifícios e escolas enfeitam-se em verde e amarelo e as pessoas começam a surgir, aqui e acolá, hostentando camisetas, bonés e por vezes trajes completos em alusão às cores de nossa bandeira nacional - para a alegria dos ambulantes. 

Hoje, por exemplo, pude notar o nervosismo do trânsito e a agitação das pessoas nessa hora mágica que antecede o horário marcado para um jogo do Brasil.  Exatamente uma hora antes do jogo comecei a me deslocar para casa e é impressionante a tensão que parece pairar sobre as pessoas.  Os motoristas pareciam mais nervosos, os carros aceleravam mais e mesmo as pessoas que cruzavam o Centro de Porto Alegre.  Vi pessoas que aceleravam seu passo disfarçadamente, senhoras que olhavam tensas o relógio, à espera no ponto de ônibus, e homens engravatados que despudoradamente corriam em direção ao lugar que tenham eles escolhido naquele dia para acompanhar o jogo do Brasil. 

Meu prédio, que pela manhã era o mesmo de sempre, no meu regresso estava já enfeitado por um túnel de balões verdes e amarelos, correntes de papel crepom nas cores da bandeira e o pavilhão nacional, ele mesmo, reproduzido em um sem-número de folhas plásticas a pender pelo teto - uma decoração que foi iniciativa das próprias funcionárias que fazem a limpeza do edifício.

Como explicar a um estrangeiro a dimensão que existe dentro da psique de nossos nacionais para a Copa do Mundo de Futebol?  O país paralisa-se, é fato: ruas desertas, sem o trânsito de automóveis ou mesmo do transporte coletivo - todos recolhidos a algum canto onde haja uma televisão ligada e sintonizada nas transmissões direto de um longínquo estádio de futebol localizado em um país que a maioria dos brasileiros jamais irá conhecer.  E todos compactuam com isso - de bom ou mal grado - e adaptam suas vidas para aquelas horas poucas em que todo o país estará voltado para este único e meteórico objetivo: a vitória de colocar mais vezes no fundo de uma rede entre traves altas de metal uma bola costurada de couro.

Não há em minhas palavras crítica alguma - eu mesmo escrevo estas linhas de dentro de uma camiseta azul-amarela que ostenta uma miniatuta de nossa bandeira.  Mas é curioso perceber como a vida dos brasileiros parece ficar suspensa, por noventa minutos, em um limbo no qual não há problemas, não há miséria, não há sequer um mundo lá fora para nos fazer refletir sobre o quão efêmera é uma vitória futebolística.  Mas quem pode dizer que não há valor na alegria instantânea de nos sentirmos campeões por alguns segundos, nem que seja pelos pés de outro que por alguma razão - nacionalidade, sonhos em comum, mesma origem e língua pátria - a nos se assemelha?

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Wednesday, June 7, 2006

E Já Não Podemos Dizer Nada

[...]Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

(No Caminho com Maiakóvski,
poema do poeta brasileiro Eduardo Alves da Costa)

Em 6 de junho de 2006, data que tantos proclamavam como aziaga, aconteceu um ato que estarreceu a todos os brasileiros - ao menos, àqueles que ainda cultivam alguma esperança de aqui construir um país democrático, justo e ordeiro. Um grupo de aproximadamente trezentos militantes de um dito movimento social autointitulado Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST), uma espécie de dissidência do renomado Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), invadiu o prédio da Câmara dos Deputados, simbolicamente conhecido como a Casa do Povo, para ali promover cenas de selvageria que seriam condenáveis em qualquer lugar, mais ainda em plena sede de um dos três Poderes da República Federativa do Brasil.

Os supostos sem-terra - nas imagens televisionadas, vê-se gente muito bem vestida entre os manifestantes - estavam em Brasília para marcar o término de um mês de protestos durante o qual promoveram diversas invasões de terra e manifestações. Mas, segundo palavras do próprio coordenador de tal movimento, um senhor Bruno Maranhão, amigo pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e membro da executiva nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), o grupo foi à capital federal “sem nenhuma reivindicação”, apenas para uma “falação” (sic) com o presidente da Câmara dos Deputados, a quem ele chama carinhosamente de “o Aldo”.

O que se viu, contudo, não foi nenhuma manifestação pacífica: houve pelo menos vinte feridos, quatrocentas e noventa e sete prisões (dentre as quais, a de trinta e dois menores) e um rastro de destruição pelos coredores de acesso e pelo Salão Verde da Câmara dos Deputados, que serve de ante-sala para o plenário, que será difícil de ser reparado - ao menos de nossas memórias. As cenas mostradas por todas as emissoras de televisão são assustadoras: os pacíficos manifestantes de Bruno Maranhão adentram o acesso secundário da Câmara dos Deputados armados com paus e pedras, destróem um automóvel que ali estava em exposição e que seria sorteado pou um banco aos funcionários da casa, estilhaçam a porta de vidro da entrada principal e, a partir daí, como uma horda de bárbaros, vão destruindo o que vêem e usando os escombros da destruição como novas armas para destruir o que está mais adiante. É uma cena digna dos filmes de batalha ver um dos supostos sem-terra ostentar uma bandeira do MLST trepado em uma escultura de um anjo criada por Ceschiatti para adornar o Salão Verde da Casa do Povo.

As autoridades foram rápidas em emitir suas notas de repúdio à violência - umas acusando o Governo Federal de não ter cumprido promessas de Reforma Agrária, outras defendendo a idéia de que Maranhão não segue as orientações do partido a que pertence -, mas a verdade é que o fato não nasceu daquele dia 6 de junho de 2006. O processo é longo, de décadas. Começou quando os governos do Brasil - municipais, estaduais e federal - esquivaram-se de fazer cumprir a lei brasileira desde as primeiras invasões de terras improdutivas promovidas por esses movimentos sociais, que então invocavam preceitos constitucionais para burlar o direito à propriedade; depois, as invasões começaram a atingir os prédios públicos, em chantagens inaceitáveis para que o processo de Reforma Agrária desse os passos que eles desejavam, e não os que eram possíveis de ser feitos naquele momento; o passo seguinte, imitado por outros movimentos sociais, foi o de interromper estradas, não importando a justeza da causa que defendiam, e tudo isso sempre acompanhados de longe por forças policiais que eram compelidas a servir de platéia de luxo aos atos de desrespeito à lei e à ordem; o passo seguinte, foi atacar e destruir empresas, distribuidoras, laboratórios, cultivares e centros de pesquisa à guisa de protesto contra os trangênicos, as multinacionais, o baixo preço do leite ou qualquer outra reivindicação que lhes servisse de pretexto. A resposta a isto tudo por parte do Estado Brasileiro, em suas três instâncias e poderes, foi sempre a mesma: a plácida observação à distância dos fatos, as notas explicativas pela modulação melíflua de seus porta-vozes e nenhuma ação concreta de enquadramento dos responsáveis, tanto pelas arruaças quanto pela organização desses grupos que beiram a criminalidade, usando-se da força da lei e do poder a eles investido pelo povo, através do voto.

O brasileiro não tem consciência qualquer de que o bem público é de todos, e também seu. Além disso, a sensação de impunidade, estampada em nossas mentes por inúmeros exemplos oriundos dos três Poderes da República, faz com que o Brasil esteja a se tornar um país onde todos têm direitos, e ninguém tem deveres. Isto está estampado nas falas dos próprios invasores do Congresso Nacional. Marcos Prachedes, diretor do MLST em São Paulo, declarou, por exemplo, alguns minutos antes da invasão, que “[o Congresso Nacional] é a cada do povo. Se não entrar por bem, vamos entrar por mal”. Valmir Macedo, outro líder da invasão, regozijava-se ante os repórteres televisivos dizendo que “[eles ocuparam] um lugar que ainda não estava ocupado, o Salão Verde da Cãmara” e afirmou que “a culpa pela quebradeira foi da segurança, que não soube trabalhar com a gente”.

Os invasores foram retirados do Congresso Nacional com todo o respeito que merece qualquer ser humano - respeito que eles não tiveram para com o servidor da Câmara dos Deputados que está neste momento na UTI do Hospital de Base de Brasília, em decorrência das agressões sofridas, nem com o chefe da segurança daquela casa, que fraturou uma perna ao ser empurrado escada abaixo. Resta-nos saber o que virá como conseqüência legal para os baderneiros por terem atacado o coração de um dos símbolos maiores de nossa democraria cabocla. Em se tratando do Congresso Nacional Brasileiro, paira sobre nós a suspeita cruel de que tudo isso não vai dar em nada. Mais uma vez, em nada.

Parece que já nos arrancaram a voz da garganta.

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Monday, June 5, 2006

Número besta

Conseguiu que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, tivessem um sinal na mão direita e na fronte, e que ninguém pudesse comprar ou vender, se não fosse marcado com o nome da fera ou o número de seu nome. Eis aqui a sabedoria! Quem tiver inteligência, calcule o número da fera, porque é o número de um homem, e esse número é seiscentos e sessenta e seis.(Apocalipse de João, 13:16-18)

Os manuscritos gregos do Livro da Revelação de João trazem o número que representaria, para os crentes, o número do Anticristo: 666, o sinal que viria marcado naquele que seria controlado (ou encarnaria, segundo alguns) pelo mal absoluto. Tal conjunção de algarismos gerou um sem-número de interpretações - até os códigos de barras já foram apontados como o 666 da besta apocalíptica - e de livros diversos que se arvoram a listar dos sinais do surgimento do Anticristo às instituições e pessoas do mundo moderno que ostentariam tal número aziago.

A imprensa nossa tem auxiliado a alimentar as superstições em torno disso, a bem da verdade, muitas vezes sem esclarecer as origens de tal número e da mitologia em torno dele. O resultado é, no mínimo, curioso: o dia 6 de junho de 2006 - 6/6/06 - está sendo anunciado como um dia de mau agouro, no qual tragédias inomináveis - dentre as quais o próprio nascimento do tal anticristo - irão acontecer. De concreto, o que há por enquanto é o anúncio mundial do lançamento da refilmagem do clássico filme de terror A Profecia (que fala do justamente do surgimento do filho do Diabo no mundo), o início das vendas do último volume da série de livros evangélicos alarmistas norte-americana Left Behind, o lançamento de uns tantos CDs de bandas de Heavy Metal que querem aproveitar o factóide para repetir a eterna pose de adoradores do demônio e, ao que consta, uma certa corrida de várias grávidas em certos estados dos EUA para que os partos marcados para esse dia fatídico fossem antecipados ou adiados.

O curioso é que não há consenso algum sobre o que significaria o número 666 nos escritos visionários de João. A versão aceita pela Igreja Católica, inclusive, é afinada com boa parte dos historiadores, que crêem ser o número uma referência velada a uma grande autoridade da época, o Imperador Nero, grande perseguidor dos cristãos - e não a algum ser sobrenatural que surgiria no futuro com a missão de destruir o Cristianismo. Além de tal controvérsia nas interpretações do número da besta, hoje discute-se até mesmo se o número 666 é, de fato, o indicado no texto de João. Os manuscritos gregos apresentam-no como “χξϛ´”, que seria 666 na forma numérica do grego (ou, no chamado Codex Alexandrinus, no qual é literalmente apresentado como “seiscentos e sessenta e seis” - “ἑξακόσιοι ἑξήκοντα ἕξ”). Mas cópias recentemente encontradas do livro de João, da mesma época dos originais gregos - os chamados Oxyrhynchus papyri -, trazem o número grafado como “χιϛ´”, o que seria o número 616, e não o temido 666. Em outras palavras, enquanto não se chega a uma definição precisa de qual seria a forma original, corremos até mesmo o risco de estar a temer o número da besta errado… E se o dia fatídico foi, em verdade, 6 de janeiro de 2006 - 6/1/06? Vejam só há quantos dias já estaremos vivendo o Juízo Final sem sentir!

Que necessidade é esta de nós, homens, depositarmos em sinais externos, no outro, no exterior, a fonte de todo o mal que nos atinge e nos aflige? Será uma forma de fugir às responsabilidades? Cada um com suas crenças, mas disso parecem viver muitas e muitas seitas religiosas no mundo, mas também o comércio, a indústria do entretenimento e mesmo a imprensa. É muito mais fácil acreditar que os males de minha vida são devidos a um encosto qualquer - e até creio que eles existam, ainda que não sob esta nomenclatura, nem sob essa mesma idéia - que admitir que mesmo os encostos todos nada podem contra a nossa vontade.

Alimentamo-nos com superstições de que um dia, uma mera coincidência numérica no calendário ocidental gregoriano (será que os muçulmanos e os chineses, que seguem distintos calendários, estarão livres da hecatombe final?), o encontro fortuito de três algarismos 6, irá servir de marca visível do início do fim - e esquecemos que os dias, todos eles, são construídos por nós mesmos.

Ao ler estas linhas, provavelmente já estarás a viver o dia 6/6/06, ou por ele terás passado, incólume ou ferido, e arrisco-me a estar registrando aqui um erro grosseiro de interpretação - vai que o mundo acaba amanhã? -, mas me fio na crença de que o dia de amanhã, com todos os seus possíveis males, cabe apenas a mim decidir.

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Sunday, June 4, 2006

Auto-suficiência

José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobrás, anunciou que a empresa estatal considera fortemente a possibilidade de devolução ao Governo Boliviano das duas refinarias de petróleo que a sua sucursal criada naquele país, a Petrobrás Bolívia, controla desde 1999.  As duas refinarias, localizadas em Cochabamba e Santa Cruz de la Sierra, são as que mais produzem derivados de petróleo consumidos em território boliviano - cerca de 70% (setenta por cento) do óleo díesel, por exemplo -, e a idéia seria, então, entregá-las ao controle da estatal do petróleo boliviana, a Yacimentos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), mediante reembolso do valor das instalações construídas com dinheiro brasileiro.

Mas o que se está a chamar de questão boliviana está longe de chegar a um final: as negociações entre a Petrobrás e a YPFB, ou melhor, entre o Governo Brasileiro e o Boliviano, estão paralizadas em torno dos problemas que circundam essa decisão de repassar para o controle boliviano as refinarias: primeiramente, é preciso chegar a um consenso sobre o valor da compensação a ser paga pelos bolivianos; depois, de que forma esse pagamento será feito. 

A YPFB já estabeleceu que tal compensação será paga integralmente por eles em gás natural, ou seja, nenhum centavo sequer em moeda corrente será dispendido - o valor da indenização, uma vez estabelecido, seria calculado em termos de metros cúbicos de gás a ser fornecido para o Brasil, que recebe diariamente daquele país o equivalente a US$ 3.500.000,00 (três milhões e quinhentos mil dólares estadunidenses) em gás natural boliviano.  A Petrobrás acedeu e aceitará tal forma de pagamento.  Mas disso surgem novos impasses: a Petrobrás deseja que o valor das refinarias seja descontado do pagamento pelas importações referentes ao contrato atualmente em vigor, já que a empresa brasileira não teria a intenção de renová-lo no futuro; a YPFB quer estabelecer um novo valor para o gás natural e entrar em acordo com a Petrobrás sobre qual seria o real valor das refinarias e o real preço a ser cobrado pela Bolívia por seu gás natural.

Em outras palavras: o Brasil, que alardeia em peças publicitárias milionárias a sua auto-suficiência em petróleo, age como um refém indefeso da traquinagem boliviana de não cumprir contratos internacionais.  Nossa empresa estatal do petróleo, motivo de orgulho para os brasileiros, está sendo vilipendiada em alguns milhões de reais por conta, única e exclusivamente, da inação de nosso governo federal perante as arbitrariedades do populista presidente boliviano Evo Morales.  Investimos milhões de dólares do contribuinte brasileiro na Bolívia, garantindo que aquele país pudesse explorar suas reservas e, de sobra, ganhasse mercado e forma de escoamento de seu produto; agora, agimos como a parte fraca de uma contenda que poderia ter sido solucionada com medidas de impacto como o boicote ao gás boliviano ou a interrupção dos pagamentos do contrato rasgado pela Bolívia.

Mas somos brasileiros, bonzinhos, e não desistimos nunca de tratar a coisa pública como coisa de ninguém.  Os bolivianos têm razões de sobra para nos adorar como vizinhos.    

   

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Friday, June 2, 2006

Ah, a Vida no Campo!

I think I could turn and live awhile with the animals… they are so placid and self-contained,
I sat and look at them sometimes half the day long.
They do not sweat and whine about their condition,
They do not lie awake in the dark and weep for their sins,
They do not make me sick discussing their duty to God,
Not one is dissatisfied… not one is demented with the mania of owing things,
Not one kneels to another nor to his kind that lived thousands of years ago,
Not one is respectable or industrious over the whole earth.

(Walt Whitman, Song of Myself [32])

Entendo, oh, como entento os poetas do arcadismo, aqueles que pregavam em seus versos cheirando a paganismo um retorno ao campo, à vida contemplativa, ao convívio com a natureza em sua forma mais bruta!  Neste momento particular da história do homem, em que vivemos cercados de pequenos aparelhos e dispositivos que chamo carinhosamente de coleiras eletrônicas - os telefones celulares, as inúmeras contas de e-mail na Internet, os perfis em comunidades virtuais e as secretárias eletrônicas, enfim, que nos governam a vida mesmo quando queremos ser esquecidos pelo resto do mundo, parece-me que o ideal da arcadia faria ainda mais sentido.  O problema de entregar-se à idéia idílica de uma vida no campo, para mim, sempre foram os insetos - ainda que alguns dos problemas que vivo atualmente, em minha existência neurotizada de homem da cidade, pareçam-se muito com algumas das mais incômodas dessas criaturinhas com quem me relaciono tão mal…

Como expressa tão bem o libertário poeta estadunidense Walt Whitman, a natureza dá-nos a impressão de placidez, de auto-controle de que o homem contemporâneo tanto carece.  Ambos a natureza e nós seguimos um curso de vida que não se interrompe - apesar da aparente imobilidade das paisagens mais bucólicas, tudo no mundo está em constante mudança.  Mas a diferença maior entre nós, humanos contemporâneos, e a natureza bruta é justamente o fato de que nossas mudanças parecem se dar mais por um processo de ebulição como o dos vulcões e não de lento crescimento como o da mais simples planta.  Não nos contentamos em conduzir um único processo, isoladamente: nossa vida parece estar sempre envolta em uma teia de compromissos e preocupações sobre cuja real necessidade muitas vezes sequer questionamos; mas seguimos criando novos envolvimentos, na tentativa de compensar as frustrações e perdas que os anteriores nos causam - tentamos equilibrar o desequilíbrio com mais razões para a perda de controle…

Por isso, o mito da vida bucólica é algo que persegue o homem contemporâneo e já está, em verdade, presente em nós há muito e muito tempo.  Lembremos que Maria Antonieta, a rainha francesa que entrou para a história por sua notória alienação dos problemas do povo - e também por ter perdido a cabeça, literalmente, por conta disso - distraía-se nos jardins do Palácio de Versalhes brincando de camponesa em uma pequena fazendinha que ela mandou ali construirem, em um canto isolado dos vastos prados que cercam o suntuoso palácio.  Os homens hodiernos não mudaram muito desde então: ao acumular alguma riqueza, tratamos logo de adquirir nossa pequena propriedade rural, para descansar da agitação das grandes cidades, seja nas serras ou nas praias…

A vida no campo até me apetece um pouco, nesses momentos da vida em que a loucura ao redor parece crescer em níveis insuportáveis.  Mas sou citadino demais para me adaptar aos insetos e às ausências que a tecnologia me faria, creio.  O bucolismo dos poemas me encanta, contudo, ainda que a visão cristalina das neuroses modernas que nos dá Whitman - no trecho de seu Song of Myself em que exalta a vida animal em comparação aos homens - me pareça bem mais palatável que aqueles devaneios quase infantis de que a vida no campo seria algo mais próximo de uma sonhada perfeição.  Ainda assim, sempre haverá os insetos.   

Posted by Frizero at 20:14:25 | Permalink | Comments (4)