Aposentado de primeira viagem

O primeiro ato dessa história nós comentamos em cinco de abril de 2006, em um texto intitulado Para o Alto e…Avante? - Marcos Pontes, Tenente-coronel da Aeronáutica, primeiro astronauta brasileiro, teve sua viagem espacial de uma semana na Estação Espacial Internacional (ISS) bancada pelo Governo Brasileiro pela bagatela de US$ 10.000.000,00 (dez milhões de dólares estadunidenses), cerca de vinte por cento de todo o orçamento do Programa Espacial Brasileiro para o ano de 2005. Naquele texto, lembrávamos que estamos em um país que concede bolsas de doutorado de apenas R$ 1.200,00 (mil e duzentos reais) e no qual as universidades públicas estão cada dia mais sucateadas, mas que tem verba para custear uma viagem de sete dias pelo espaço e de retorno duvidoso para o Brasil.
O segundo ato da farsa espacial brasileira, contudo, é ainda mais tragicômico. O mesmo Marcos Pontes, quarenta e três anos de idade, apenas um mês depois de regressar de sua aventura espacial, entrou com seu pedido de aposentadoria - em termos militares, pediu reserva. A notícia, que pegou de surpresa tanto a Agência Espacial Brasileira (AEB) quanto o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), já rende especulações: há órgãos de imprensa que atribuem a aposentadoria precoce do astronauta brasileiro a um convite da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). Além disso, pelo que se pode deduzir das informações constantes no site oficial do tenente-coronel, a saída do serviço público permitirá que ele possa cobrar por suas palestras - de motivação, de trabalho sob risco ou de vencendo o medo - e dedicar-se a demais atividades na iniciativa privada nas quais sua experiência de cosmonauta pode ser de grande valia.
Os planos para o aproveitamento dos conhecimentos do astronauta nas atividades da AEB , adquiridos por meio de grandes investimentos estatais em sua formação, ficarão certamente comprometidos. Sérgio Gaudenzi, presidente daquela agência estatal, havia dado carta branca para que o tenente-coronel Pontes decidisse que função gostaria de exercer na AEB, além de tê-lo convidado para capitanear uma viagem de trabalho aos Estados Unidos da América na qual o Brasil irá negociar novas parcerias com a Agência Espacial Estadunidense (NASA). Com a reserva de Pontes, qualquer participação do ex-militar em atividades da AEB passa a ser remunerada, além de ter que atender à agenda pessoal do astronauta, de sua programação de palestras empresariais pelo país.
A decisão de Pontes, em que pese ser um direito pessoal seu, dá azo às críticas dos detratores da viagem espacial. Ennio Candotti, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), disse que a atitude do astronauta confirma sua teoria de que “tudo foi publicidade, algo muito parecido com fogos de artifício, que explodem e logo acabam”.
A saída de Pontes do serviço público, logo após o alto investimento feito pelos cofres públicos brasileiro, não é ilegal - ao contrário dos servidores públicos, que após um curso financiado pela União precisam cumprir um período de contrapartida, sob pena de indenização dos custos do investimento, não há respaldo legal para que Pontes tenha que retornar aos cofres públicos nenhum tostão. Ainda assim, há uma questão moral que se sobressai desses acontecimentos. Partindo de alguém como Pontes, que há pouco tempo dizia ter a intenção de criar um instituto para incentivar a educação de crianças pobres com o apoio da Força Aérea Brasileira e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) - que, aliás, patrocina o site oficial do piloto - tanto descaso com a verba pública é, talvez, a maior das surpresas.
Mas, enfim, no link da loja virtual (sic!) do site oficial do cosmonauta Marcos Pontes é que estão, curiosamente, as explicações do tenente-coronel em vias de entrar para a Reserva, em que ele esclarece que “entrar para a Reserva não significa afastamento do Programa Espacial Brasileiro”… Mas porque será que essas informações foram publicadas justamente na loja virtual? Serão apenas mais produtos de merchandising, ou será a tentativa de manter a cotação do produto “Marcos Pontes” no mercado de palestras e afins?