Wednesday, May 24, 2006

Cultura às escuras

A importância que os governos no Brasil dão à cultura pode ser medida pela notícia que estampa os jornais de hoje, dia 23 de maio de 2006: o Museu de Arte de São Paulo (MASP), detentor do acervo de arte internacional mais importante do país, teve sua luz cortada por conta de uma dívida de cerca de R$ 3.500.000,00 com a companhia geradora de energia, a Eletropaulo.  O museu, que tem ainda uma dívida de R$ 3.000.000,00 com a Previdência Social em disputa na Justiça, estaria em negociações com a companhia de energia elétrica para que a luz fosse religada para não causar danos à exposição que atualmente ocupa os salões principais do museu - Degas: O Universo de Um Artista, que reúne cento e noventa e seis obras do pintor impressionista francês Edgar Degas (1834-1917), quase todas emprestadas por museus internacionais de renome como o Musée d’Orsay de Paris, a National Gallery de Londres, o Art Institute de Chicago, a National Gallery de Washington e o Metropolitan Museum de Nova Iorque, entre outros. 

O risco maior reside, contudo, no acervo permanente do museu, a sua chamada reserva técnica - o conjunto de obras que são mantidas em condições especiais de conservação para pesquisa e eventuais exibições na coleção permanente do MASP -, a qual poderá sofrer danos irreparáveis com a falta da energia elétrica que mantém em funcionamento desumidificadores e ventilação, refrigeração e climatização.  O acervo do MASP, de mais de 7.500 peças, é estimado em US$ 140.000.000,00, ainda que os especialistas considerem que um conjunto de peças como este não tenha valor de mercado possível, dada a riqueza do conjunto que está ameaçado pelo corte no fornecimento de energia elétrica. 

A crise financeira do museu é antiga.  Em 2004, o MASP chegou a penhorar uma obra avaliada em R$ 4.200.000,00 para levantar fundos que permitissem ao museu pagar algumas dívidas.  Naquele mesmo ano, contudo, o museu viu-se obrigado a adquirir um prédio vizinho ao museu, na mesma Avenida Paulista, por R$ 10.000.000,00, para manutenção de seu acervo nas proximidades das salas de exibição do magnífico prédio projetado por Lina Bardi para abrigar o MASP. 

Os valores estratosféricos que surgem quando falamos na manutenção de um museu como o MASP podem levar alguns a questionar a validade de manter uma instituição tão cara.  Em verdade, é um milagre que o museu tenha conseguido se manter até hoje com um orçamento mensal de aproximadamente R$ 1.500.000,00 anuais.  O valor cultural de possuirmos no Brasil um acervo como o do MASP - e vale a pena visitá-lo, quando em São Paulo, pois não deixa a desejar a muitos museus que os turistas brasileiros gostam de conhecer no exterior - é inquestionável.  O custo financeiro, em comparação a outras instituições do gênero, não é também exorbitante - e dinheiro não falta neste rico país em que vivemos; falta, sim, decência e parcimônia nos administradores públicos, como mostram os tantos escândalos orçamentários a que fomos expostos nos últimos tempos - isso sem pensar nas tantas mostras de arte contemporânea de caráter duvidoso e importância igualmente questionável que vemos nas nossas principais cidades, sob subvenção estatal.  Há que se questionar que país pretendemos construir, com que educação e com que cultura, em uma realidade de penúria na qual um museu como o MASP tem a luz cortada por falta de pagamento.

Posted by Frizero at 00:39:04
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