Sinistros sinais
O Governo do Irã rechaçou sua existência, mas o jornal canadense National Post divulgou em 19 de maio de 2006 a informação, a eles repassada por dissidentes iranianos que vivem no Canadá, de que o Parlamento Iraniano teria aprovado uma lei que determina que judeus, cristãos e zoroastristas terão que portar faixas de braços de diferentes cores para que eles sejam identificáveis em público. A notícia foi imediatamente colocada em dúvida por especialistas israelenses que acompanham a vida política do Irã, rechaçada por políticos iranianos e, um dia depois, sairia o desmentido pelo mesmo jornal: o item da lei que determina o código de vestimenta do país - sim, lá eles definem as formas aceitáveis do vestir por meio de lei federal - no qual havia menção de sinais coloridos para a distinção de pessoas de credos diferentes do Islamismo no Irã fora apenas “uma das moções secundárias surgidas durante as discussões” da referida lei.
Verdade ou calúnia dos opositores do regime iraniano exilados na América do Norte, o que há de fato nessa notícia assustadora é que existe uma lei de vestimenta no Irã, de autoria de Muhammad Khatami, a qual estava suspensa desde 2004 e que foi recolocada na pauta de votações do Parlamento Iraniano por pressão do atual presidente, Mahmoud Ahmadinejad. A idéia básica da referida lei é a de que os muçulmanos iranianos vistam-se com certos tipos de vestimenta básicos e determinados pela legislação no intuito de “apagar distinções étnicas e de classe” no seio da sociedade iraniana.
Nas palavras de Ahmadinejad, os novos uniformes estabelecerão uma igualdade visual que os preparará para a vinda do Imã Oculto. Na crença xiita, a qual domina a política iraniana e faz dele o único país muçulmano do mundo dominado por um regime teocrático de caráter xiita, acredita-se no retorno do décimo-terceiro imã, descendente direto de Ali ibn Abi Talib, primo e sobrinho de Maomé; esse imã, que não deixou herdeiros, desapareceu sobrenaturalmente no século VIII, e os xiitas crêem que seu retorno no fim dos tempos, como mahdi - uma espécie de messias, em termos judaico-cristãos -, será o início de um reino de felicidade e justiça universais.
Há os que vêem nas atitudes do Irã de Ahmadinejad razões para apoiá-lo. Na visão desses, o enfrentamento do presidente iraniano à política externa dos Estados Unidos da América é a razão maior de sua admiração torta, e a luta daquele país pela manutenção de seu programa nuclear - justificado por necessidades energéticas, em um país deitado sobre um berço de esplêndidas reservas petrolíferas - é vista como causa justa e em nada merecedora de suspeição. “Afinal, se é contra os Estados Unidos da América, é do bem”, podemos imaginar alguns desses defensores da causa iraniana a dizer entre goles generosos de capuccino e frases anti-imperialistas de efeito. Difícil, contudo, para nós ocidentais, é conceber um mundo de justiça e felicidade no qual divisões abjetas como a supostamente estabelecida nos debates da aprovação de tal lei de vestimenta, estabelecendo sinais coloridos para distinguir os não-muçulmanos, sejam determinadas pelo governo. A ligação entre essa idéia, aterrorizante por remeter imediatamente às práticas da Alemanha nazista - e que viriam a facilitar o projeto funesto hitlerista de limpeza étnica -, e as declarações feitas pelo mesmo presidente Ahmadinejad nas quais dizia não acreditar na existência de um “massacre e perseguição de judeus na Segunda Guerra Mundial” são inevitáveis. O que pode, e deve, ser evitado, é que um regime temerário como é o atual governo iraniano consiga estabelecer sua visão estreita de justiça e de felicidade a partir da negação dos direitos mais elementares dos seres humanos.