Friday, May 19, 2006

Cândidos Candidatos

Para os romanos, havia dois tipos distintos de branco. 

O branco comum, aquele que era usado para caiar as casas e os objetos, era denominado em latim albus.  As referências nas línguas modernas a esta cor branca comum estão na palavra album, que originalmente se referiam a placas de madeira alvejadas com gesso e que ficavam expostas em praça pública para que ali fossem transcritos os editos, ordens gerais e outras informações de interesse público.

O outro tipo de branco que aparece na língua latina é o candidus, um branco mais brilhante, que ofuscava a vista dos transeuntes e era a cor das túnicas vestidas por aqueles homens que almejavam assumir um cargo público.  Caso a população acreditasse que aquele homem não merecia trajar aquelas vestes de branco imaculado, ou seja, que não deveria assumir um cargo público, por conta de qualquer traço de caráter que lhe fosse demeritório, tratava de sujar-lhe a túnica jogando-lhe terra e sujeiras outras de modo a deixar claro que um número razoável de cidadãos não aceitavam aquele postulante ao serviço público.  Esta prática passaria aos nossos dias por aforismos como o manchar a honra ou as referências de que fulano ou beltrano está sujo na praça.

Que ironia dos tempos!  O branco imaculado, o candidus, foi a palavra que deu origem ao termo candidato para se referir àqueles que postulam cargos públicos - e, por extensão, qualquer posição na sociedade.  A relação metafórica entre aqueles homens romanos que se colocavam à avaliação do povo para assumir uma função de defesa de seus interesses e os atuais candidatos aos cargos políticos sob disputa nas próximas eleições de outubro rende inúmeras associações mentais - mas será que os nomes que hoje são cogitados para concorrer à Presidência da República, ao Congresso Nacional, às Assembléias Estaduais e ao Poder Executivo de cada unidade da Federação escapariam, ilesos, imaculados, à exposição pública de suas túnicas cândidas?  

Nas últimas eleições tivemos partidos que se vestiram em candidus e com a exposição pública de uma virtude de estátua conseguiram alcançar o poder - ainda que depois o país viesse a descobrir que a túnica era como o sepulcro caiado das parábolas evangélicas, que por dentro guardava a mesma podridão das túnicas de seus antecessores, muitas vezes por eles maculadas com acusações as mais diversas.  Será que algum dos atuais candidatos ousará vestir sua túnica mais cândida para esta disputa?  E será que o eleitor permanecerá deslumbrado com o branco cintilante, ou erguerá as mãos para marcar as túnicas de pureza daqueles que não merecem ocupar nenhum dos cargos públicos que almejam?  Isso só o tempo - e o resultado das urnas - dirá.

Posted by Frizero at 00:06:25
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