Monday, May 15, 2006

Escravos e Reféns

Treze de maio é um marco histórico por conta do ano de 1888, quando neste dia foram libertados os escravos no Brasil.  Em que pese todo o combate de alguns militantes do movimento negro à celebração desta data, já que a libertação foi feita sem qualquer cuidado quanto à introdução desses outrora escravos no mercado de trabalho e na sociedade brasileira de então.  Os historiadores contemporâneos estão a redimir, contudo, a figura da Princesa Isabel, tantas vezes retratada pelo movimento negro como uma alienada dos problemas dos negros, a qual teria assinado a Lei Áurea por pressões políticas mais que por desejo sincero de mudança; cartas recentemente encontradas, de autoria da princesa, mostram que ela se preocupava com as conseqüências da liberdade repentina dos escravos negros, buscando junto aos seus conselheiros a melhor forma de promover sua condição de novos cidadãos brasileiros uma vez estabelecida a nova realidade jurídica naquele Brasil dos últimos anos do Império.

Ironicamente, o treze de maio ficará marcado, cento e dezoito anos depois da Lei Áurea, pela violência das rebeliões e ataques perpretados por criminosos em diversas cidades de três estados brasileiros.  Pelos meios de comunicação, fomos informados continuamente do terror que se assomava sobre a maior cidade do país, São Paulo, capital do estado brasileiro mais rico e produtivo: ônibus queimados, policiais e bombeiros assassinados em atentados contra postos policiais, quartéis e instalações do Poder Judiciário, rebeliões violentas e outras tantas ações que deixariam, até o final do domingo, um saldo abjeto de cinqüenta e quatro mortos - entre agentes públicos, civis e criminosos - em mais de cem ocorrências e quarenta rebeliões em presídios nos estados de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul.

Decerto muitas autoridades e estudiosos da criminalidade irão preencher os espaços da mídia com tentativas vãs de explicação do horror que presenciamos e que já repercute na imprensa internacional, tamanha a importância do ocorrido - pois falamos de ataques orquestrados de dentro das penitenciárias, como forma de protesto e retaliação a ações de governo que teriam transferido presos considerados criminosos e com poder de liderança depois de descobertos os planos desses grupos para a realização de ataques em pleno Dia das Mães.  Seria tolo de minha parte somar-me a esses pensadores, que sabem bem mais que eu sobre a tarefa de condução da segurança pública e das atuais condições de nossos sistemas penitenciário, judiciário e penal.  Reflito apenas sobre o quanto aqueles dois dias Treze de Maio parecem estar relacionados à luz dos últimos acontecimentos.

A humanidade contida na promulgação da Lei Áurea não foi o suficiente para tornar os ex-escravos em cidadãos de fato em um Brasil que os teve como animais de trabalho por mais de um século.  Com a liberdade, veio o abandono daqueles homens e mulheres na periferia da sociedade, na sobrevivência dos subempregos e sob o teto pouco protetor das favelas e mocambos.  A impossibilidade de acesso à educação e à cidadania encarregou-se de impedir seu acesso aos meios de produção e de reforçar os preconceitos já existentes nas casas grandes, vinculando permanentemente no Brasil as questões racial e social.  Mas essa imensa massa de ex-escravos, então elevados à categoria de cidadãos-fantasma - na invisibilidade das cozinhas, dos serviços braçais, das tarefas sem qualificação -, cresceu e multiplicou-se, sobreviveu às condições mais indignas e tornou-se a base de sustentação sobre a qual se construiu um país de desigualdades cruéis.

A periferia de hoje é o desaguar daquele abandono inicial, assim como o discurso das autoridades nesses momentos que imediatamente se seguem às crises são reproduções modernas do que se seguiu à libertação dos escravos: uns falam na necessidade de usar a força para controlar as massas, outros falam da premência de mudarmos as estruturas de presídios e de códigos, mas pouco se fala do homem, do indivíduo por trás da ação criminosa, e menos ainda se faz das ações realmente eficazes para prevenir as ocorrências futuras.  Esquecem-se que as rebeliões e atentados futuros já estão sendo gestados no ventre seco das injustiças sociais, das hipócritas experimentações com que nossos governantes tratam a Educação, a Saúde e a Justiça.  É o imediatismo de nossa psique brasileira que, uma vez mais, mostra provas de seu poder destruidor sobre nossos sonhos de nação progressista e democrática. 

Não faço o discurso da periferia eternamente subjugada, que parece defender a idéia de que nascer em berço de pobreza é salvo-conduto para a ação fora-da-lei de criminosos que ordenam a queima de ônibus e o massacre de companheiros de cárcere, cenas infelizmente comuns no nosso passado imediato de rebeliões e atentados perpretados pelo crime organizado.  Creio que muito do que hoje vemos ocorrer é fruto da falta de leis mais severas, de um sistema prisional mais humano e menos permissivo e de exemplos muitos de impunidade que motivam a continuidade no crime.  Mas não há como negar que a escravidão brasileira parece ter apenas mudado de nome, de sistema e de personagens.  A diferença é que os quilombolas de hoje querem invadir a Casa Grande e não apenas deixar a Senzala para uma vida nova na clandestinidade dos Quilombos-guetos.  Não há liberdade alguma para homens que são serviçais do crime e fantasmas em uma sociedade que não lhes parece enxergar.

Guardadas as devidas proporções, somos todos reféns: eles, os criminosos, reféns de outros criminosos que os dominam e a eles ordenam as práticas terroristas contra os homens da lei e a população civil; os agentes públicos, policiais e carcereiros, bombeiros e investigadores, reféns de um sistema judiciário lento e de uma legislação repleta de escapes para que os verdadeiros criminosos não sejam afastados do convívio social, vivendo impunemente entre todos; nós, os homens comuns, reféns da violência por eles perpetrada, a qual parece não ter fim e não receber das autoridades competentes a devida atenção e o devido combate.

Posted by Frizero at 01:51:40
Comments

2 Responses to “Escravos e Reféns”

  1. Frizero says:

    Depois do trágico, o tragicômico: as autoridades não só ficaram atordoadas diante do caos promovido pelos criminosos em três estados brasileiros no útlimo fim de semana, mas agora surgem as suspeitas de que a relativa paz que reinou nos dois últimos dias em São Paulo foi fruto de um acordo entre a secretaria de segurança pública e a facção criminosa que orquestrou tudo isso… Para onde correr, meu Deus? Para onde?

  2. Diogenes says:

    Tema terrivelmente árido e, pra mim, insolúvel!!!! Na segunda-feira fiquei o dia todo trancado no apartamento simplesmente sem saber o que pensar!!!! Moro ao lado de uma movimentada rua comercial que, nesse dia, ficou com todas as suas lojas fechadas, por medo de um possível arrastão!!!
    Fiquei me perguntando por que, afinal de contas, os bandidos não tomam conta da cidade!?!?!?! O que os impede? A polícia não teria o que fazer!

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