Glasbergen e a arte do bom cartunismo

Há alguns anos descobri os traços e o humor de Randy Glasbergen. Eu estava a procurar por imagens de computadores para ilustrar alguns exercícios de minhas aulas de inglês como língua estrangeira quando me deparei com um de seus cartuns. Abri a página onde o desenho estava hospedado, em verdade era o site oficial do artista (http://www.glasbergen.com/), e lembro-me de ter esquecido completamente da tarefa que eu estava a fazer na internet: foram mais de trinta minutos visitando os diversos cartuns que Glasbergen disponibiliza em sua página, divididos por temas, variando entre sorrisos de simpatia e gargalhadas histéricas. Desde então, sou um fã distante, mas incondicional, de seu trabalho.
Fazer rir é uma arte difícil. Expressar humor através de desenhos que sejam claros e inteligíveis na medida certa do timing humorístico é uma arte para poucos. Glasbergen consegue fazer isso com uma maestria que me traz à lembrança outros grandes cartunistas da minha memória afetiva, de Charles Schultz a Quino, de Scott Adams a Bill Watterson - apenas para citar alguns dos cartunistas estrangeiros mais conhecidos no Brasil. Seus traços são precisos, quase geométricos, esquemáticos como costumam ser os traços de muitos bons cartunistas, mas com um poder de sugestão e com uma precisão impressionantes, o que os fazem muito apropriados para o humor. Seus traços, de tão simples, trazem a impressão da perfeição. Mas o forte de Glasbergen é o texto. Suas tiradas são perfeitas, e ocultam uma profundidade de visão sobre a vida que fazem seu humor ser de fácil compreensão mesmo sob as mudanças necessárias da tradução - e isso eu digo apenas por imaginar, pois ainda não tive o privilégio de ver seus trabalhos em nossa língua, apesar de seus livros já terem sido editados em Portugal.
Randy Glasbergen começou cedo sua carreira de cartunista, aos quinze anos de idade, mas se tornou um profissional da atividade após o primeiro ano de curso de jornalismo em uma universidade do estado de Nova Iorque. Desde 1976 dedica-se inteiramente ao ofício de produzir cartoons, os quais são usados por um sem número de empresas e meios de comunicação, incluindo jornais de todo o mundo, que publicam sua engraçadíssima série de tirinhas, intitulada The Better Half, sobre as dores e delícias do matrimônio, aliás um tema recorrente em seu trabalho, juntamente com os cartuns sobre crianças, adolescentes e sobre o ambiente de trabalho - com piadas que nada deixam a desejar aos melhores momentos de Dilbert, apenas para citar um cartunista conhecido de nós, brasileiros.
O que mais posso dizer de Randy Glasbergen? O pouco que consigo ver de seu trabalho através de seu site na internet tem me servido de remédio certeiro para curar os momentos mais difíceis de meu dia-a-dia de burocrata e professor. Não poucas vezes eu me reconheci nos personagens e nas situações ali descritas, um mérito que se pode atribuir à atualidade e à precisão com que o artista parece dominar seu ofício. E pelo meio de obras como a de Glasbergen - e a de Quino, e a de Schultz, de Watterson, de Iotti, de Fernando Gonsales, de Adams, de Ziraldo… - é que podemos assumir que o cartunismo é, sim, uma arte. E das mais difíceis, porque sob ameaça constante de desaparecimento com o tempo e sob sua tirania, a do tempo, sempre produzida.
