Friday, May 5, 2006

Quintanares

 

“O poema é uma pedra no abismo,
O eco do poema desloca os perfis:
Para o bem das águas e das almas
Assassinemos o poeta.”

(O Poema, de Mário Quintana)

 

Há exatos doze anos, no dia 5 de maio de 1994, morria Mário Quintana.

Eu estava em alto-mar naquele dia, a trabalho, em meio a uma operação de patrulhamento da costa brasileira, distante quase duzentas milhas do litoral do Rio Grande do Sul, aproximadamente na mesma latitude da cidade de Porto Alegre.  Recordo-me que navegávamos com o ouvido atento às transmissões radiofônicas, pois dias antes havia falecido o piloto de corridas Ayrton Senna, o ídolo esportivo de maior evidência à época, que morrera em um acidente em meio a uma das provas da Fórmula 1, no auge de sua fama e juventude.  Distantes do alcance das imagens televisivas, acompanhávamos pelo rádio a comoção de todo um país pela morte do jovem herói que então elevava a auto-estima dos brasileiros pelas vitórias nas pistas.  E foi em meio a uma dessas transmissões radiofônicas que me chegou a notícia do passamento de Mário Quintana.

Descobri sua poesia ainda muito jovem, e não tenho receios de confessar que muito de minha produção poética primeira foi uma emulação de seu estilo e seu frescor.  Emulação, não; melhor seria dizer uma tentativa, pois cedo também descobri que cada poeta é único e, com o perdão do jogo tolo de palavras, Mário Quintana parecia mesmo ser mais único que os outros.  Minha proximidade com sua poesia, ao menos, garantia-me um consolo ao fato de eu jamais conseguir escrever com o mesmo frescor, a mesma ironia e profunda simplicidade que o poeta de Porto Alegre: ser um leitor de Quintana, talvez mais que a um leitor de outros tantos poetas, faz com que você sinta como suas aquelas poesias.  E a poesia, como um gênero que cresce e cresce a cada leitura, e que te permite ler e reler diversas vezes sem que se perca o interesse pelo texto, em Quintana parece se tornar ainda mais pessoal e íntima a cada leitor - por isso, não raro, sempre me vinham à mente seus versos, em momentos de contrariaedade ou de alegria, em livre associação das idéias do poeta com a vida por mim vivida.  Aqueles versos eram meus, apenas não haviam sido por mim escritos.

E a notícia da morte de Quintana comoveu-me.  A ocasião não me permitiu expor a minha tristeza a ninguém, e essa contenção fazia um bizarro contraste com as manifestações de luto histérico pela morte de Ayrton Senna que ouvíamos pelo rádio.  Mas será que um poeta jamais causaria arroubos de emoção histérica, velórios intermináveis, dias e dias de melancolia exposta nos noticiários de televisão, ou motivaria com a sua morte o suicídio de jovens fãs, como ocorreu com o falecimento de nosso melhor piloto de corridas?  Penso que não, e talvez a resposta esteja nos próprios versos de Quintana.  Pois o poeta morre, mas a obra fica.  E um atleta, desde os tempos imemoriais da Pólis grega, é digno de louros enquanto vivo e presenteando seu país com vitórias.  Depois de morto, infelizmente, o atleta é apenas memória, seja ela viva em nossas mentes ou petrificada em estátuas e nomes de logradouros.  O poeta não, ele é insistente, e fica no meio de nós em seus versos, pois “o eco do poema desloca os perfis”, incomoda e comove, causa em nós pequeníssimos abalos sísmicos que só ao longo do tempo irão mostrar suas marcas indeléveis.

E há exatos doze anos, no dia 5 de maio de 1994, o poeta Mário Quintana mudou-se de Porto Alegre e passou a habitar os seus livros. 

Posted by Frizero at 14:27:06 | Permalink | No Comments »