Tuesday, May 2, 2006

Nacionalismo com o Dinheiro Alheio

Neste dia do trabalho, o governo central da Bolívia decidiu agir em defesa dos interesses nacionais e baixou um decreto que confisca os bens das empresas estrangeiras de exploração de petróleo naquele país sob o nome de nacionalização.  O exército boliviano tomou conta das instalações de poços de exploração e refinarias, e tais empresas estrangeiras têm o prazo de setenta e cinco dias para renegociar seus contratos com o país ou sofrer o total confisco de seus bens pelo governo boliviano.

A medida de Evo Morales, atual presidente da Bolívia, que foi eleito após inúmeras crises institucionais provocadas, em grande parte, pelos grupos por ele coordenados - ele era líder indígena e presidente do sindicato dos cocaleiros da Bolívia quando de sua eleição - não surpreende ninguém em seu radicalismo.  Com maior ou menor intensidade, seu discurso é o mesmo que o de tantos outros líderes sul-americanos que recentemente ascenderam ao poder pela escolha das urnas - caso de Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil, e Alejandro Toledo, no Peru - ou por um misto de eleição democrática e expedientes ditatoriais - caso de Hugo Chávez, na Venezuela: libertar o povo oprimido da situação de pobreza e opressão, defender os interesses nacionais, promover o crescimento nacional a partir das riquezas naturais de seus países. 

No caso boliviano, é curioso que este movimento de nacionalização venha a ocorrer justamente depois que o gás boliviano passou a ser imprescindível para o Brasil - estima-se que 75% (setenta e cinco por cento) do gás combustível usado em São Paulo seja de origem boliviana; em estados das regiões Sul e Centro-oeste do Brasil, o percentual chega a 100% (cem por cento).  É imperioso também recordar que a exploração do gás natural da Bolívia deu-se por intermédio justamente de empresas estrangeiras - o termo mais apropriado seria multinacionais, já que foram abertas empresas na Bolívia para que se efetuasse tal exploração - como a brasileira Petrobrás, que desde sua instalação em solo boliviano já investiu naquele país cerca de R$ 1.500.000.000,00 (um bilhão e quinhentos milhões de reais).  Uma vez estabelecidas as condições para a exploração e a distribuição do gás boliviano, com a construção de um vastíssimo gasoduto que possibilitou a chegada do produto até mercados promissores como o de São Paulo e da Região Sul do Brasil, o governo de Evo Morales decide usar da força de seu exército para garantir os interesses nacionais.  E que as empresas estrangeiras aceitem as novas leis ou entreguem seus bens ao governo, está é a mensagem por trás das medidas do governo.  E é claro que renegociar contratos de modo a atender os interesses da Bolívia irá significar perdas significativas de investimentos por parte das empresas que trouxeram à flor da terra o gás boliviano que aquele país não conseguiria estar extraindo hoje sem a ação dessas mesmas empresas estrangeiras.

Para o dia 2 de maio de 2006, foram convocadas no Brasil reuniões extraordinárias do presidente Lula com seus ministros e assessores, sobretudo das pastas de Relações Internacionais e Minas e Energias, para discutir o que fazer diante do ultimato dado pelo governo de Morales à Petrobrás.  Luiz Inácio da Silva e Evo Morales, é notório, sempre foram muito próximos em seus discursos, considerando-se “irmãos de causa” em seus respectivos países, nisto que já foi chamado pelos observadores internacionais de “guinada à esquerda” da América Latina.  Diante disso, qual será a decisão de Lula, que interesses nacionais serão mais fortes neste caso, os do Brasil ou os da Bolívia?  Tomando por base algumas decisões tomadas por Lula na política externa dos últimos anos, não será de se espantar se ele decidir simplesmente acatar as decisões de Morales sem sequer retrucar - afinal, ele é o mandatário magnânimo que perdoou a dívida externa de ditadores africanos e levou os empréstimos do BNDES para os países vizinhos.

É realmente difícil encontrar um meio-termo entre governantes que em seu discurso pregam a igualdade ampla e absoluta - e não a igualdade de oportunidades, a que valoriza o trabalho e o esforço -, a interferência massiva do Estado na economia, as medidas paternalistas de amparo total aos carentes sem o contraponto da educação e da formação de mão-de-obra para a construção de países melhores para suas populações desamparadas.  Fosse o discurso voltado para um Estado mínimo, que propiciasse a ação privada e não a sufocasse com enxurradas de impostos, como é o caso brasileiro, ou a mão firme de um exército usado para tomar posse de empresas multinacionais, caso da atual Bolívia, e a reunião de Lula com seus ministros seria bem mais tranqüila - ou sequer seria necessária. 

Mas consigo até vislumbrar alguns que devem estar a festejar a medida radical de Evo Morales como uma “vitória diante do capitalismo estrangeiro”…posso até imaginar o próprio, o presidente dos bolivianos, o mesmo que indicou uma dona-de-casa para o Minsitério da Educação, discursando em cadeia nacional sobre a conquista do povo boliviano sobre o capital multinacional.  Um belo avanço, sem dúvida, feito com dinheiro brasileiro e de outras nacionalidades - um quase estelionato que certamente lançará a credibilidade da Bolívia, um país que não tem muito mais a oferecer do que gás combustível como riqueza natural, sob uma suspeição que poderá ser difícil de ser contornada em um futuro próximo.

Posted by Frizero at 00:43:50 | Permalink | Comments (6)