Thursday, April 27, 2006

Corrigir ou não corrigir?

O professor de língua estrangeira deve ou não corrigir o aluno por ocasião de sua produção oral na língua estudada?  Recentemente realizei uma pesquisa que, além dos interessantes resultados por seu intermédio obtidos, serviu de curiosa experiência para meus estudos sobre a própria realização de pesquisas qualitativas em ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras. 

O tema da pesquisa era o tratamento e a correção do erro em produção oral nas salas de aula de língua estrangeira, estudados a partir dos dados processados a partir da distribuição de questionários para diversos voluntários, dos quais vinte e cinco deles mostraram-se dentro do perfil desejado de participante para os objetivos daquela pesquisa.  O resultado consolidado da apuração dos dados obtidos por tal instrumento e uma breve revisão da literatura existente sobre o tema estão condensados em um artigo de minha autoria intitulado Memórias sobre a Correção e o tratamento de Erros no Ensio de Língua Estrangeira no Brasil: o que Dizem os Ex-alunos.

A peculiariedade da pesquisa foi a forma pela qual os voluntários foram arregimentados e os dados, coletados: contatos pela Internet, envio e recebimento de questionários por e-mail, confirmação de algumas informações por meio de ferramentas de bate-papo na Rede Mundial de Computadores.  Em que pesem as limitações da ferramenta aplicada para esta pesquisa - o questionário de perguntas objetivas - o uso da Internet mostrou-se bastante propício para uma pesquisa que tinha por objetivo analisar as opiniões de adultos - acima dos 21 anos de idade - que tivessem vivido uma longa experiência como alunos de língua estrangeira (e o universo de entrevistados abrangeu pessoas que haviam estudado os mais diferentes idiomas), seja em cursos regulares ou livres, em aulas particulares ou em cursos de formação de professores.

E o que pensam os ex-alunos?  A pesquisa revelou que as recordações dos alunos diante da correção e do tratamento do erro nas salas de aula de língua estrangeira pelas quais passaram parece ser bem menos traumática do que nós, professores de idiomas, costumamos imaginar:  a produção oral e escrita são, como em geral se pode constatar nas salas de aula, as habilidades lingüísticas de maior grau de dificuldade para eles; contudo, todos conceituaram o erro em produção oral nas aulas de língua estrangeira como sendo parte natural do processo de ensino e aprendizagem.  Os participantes dessa pesquisa disseram sempre aceitar a correção do erro em produção oral, mas os critérios passíveis de serem corrigidos em tais situações apontados pela maioria foram os erros de pronúncia, de pragmática e de semântica; a correção da produção oral foi vista como um momento propício para a correção de erros de gramática e de vocabulário para poucos ex-alunos. 

Ainda que aceitando a correção, um terço dos entrevistados revelaram sentir constrangimento ou frustração quando corrigidos.  Mas a maioria absoluta dos entrevistados considerou que o momento da correção do erro na produção oral não pode se distanciar da ocorrência do erro, seja a correção feita logo em seguida ou mesmo durante a fala do aluno.  Os ex-alunos disseram, também, que preferem quando o professor corrige o aluno alertando-o de que há um problema em sua produção oral, mas dando a ele tempo para que possa reformular a enunciação de forma correta (o que em termos técnicos chamamos de elucidação); outro significativo grupo disse gostar que o professor repita a frase dita erroneamente, mas desta vez enfatizando a forma correta (um tipo de correção tecnicamente conhecido como recast).  A maioria deles afirmou, ainda, que aceitam a correção feita pelos colegas de turma, mas quando esta ocorre em atividades de grupo ou em duplas; o professor ainda é visto como fonte primeira de correção, ao ponto de um quarto dos pesquisados terem declarado que jamais corrigem seus colegas em sala de aula.

A correção e o tratamento corretivo, que na literatura especializada são alvos de aprofudados estudos - bem mais significativos em termos estatísticos que os dados que pude coletar para meu artigo nesse meio inovador para a pesquisa na área das Ciências Humanas que é a Internet -, estão longe de ser vistos por todo o universo de professores de igual forma.  Há, em verdade, em cada professor, duas memórias que lutam permanentemente: a memória do aluno que ele foi um dia (e segue sendo, pois não há bom professor de idiomas que deixe um dia de estudar aquela língua à qual se dedica como educador) e a do estudioso, pesquisador e instrutor formado pelos bancos acadêmicos.  Nesta luta mental, há as experiências positivas e negativas que ele sofreu ao longo de seu aprendizado, e as que coletou de sua prática docente.  Mas ao fundo desse digladiar constante de idéias, nas quais há o medo de que a correção gere traumas no aluno que o prejudiquem em seu progresso como falante de uma língua estrangeira, há também as expectativas dos alunos em relação ao professor, ao processo de aprendizado e ao que eles esperam daqueles poucos momentos dentro de uma sala de aula nos quais se busca o momento mágico - e por vezes tão fugidio - da construção do conhecimento.   

Posted by Frizero at 01:42:43
Comments

One Response to “Corrigir ou não corrigir?”

  1. Ricardo Perez Menetti says:

    Frizero, é um prazer constatar que teu prazer pela letra e idéia continuam mais vivos do que nunca, espero o dia; que hoje vejo não tão distante, teu nome a circular por entre estantes e bibliotecas deste país.
    Afinal de contas, este País tem sim muitos heróis, com um pouco de paciência você vai se lembrando que conheceu vários deles…

Leave a Reply