Gado voador
Não há limites para o péssimo, já dizia, em outras palavras menos canhestas, o filósofo alemão Schopenhauer. E os seres humanos já encontraram várias maneiras de tornar a vida de seus semelhantes um pouco mais degradantes, um pouco mais insuportáveis. Mas agora estão a inventar uma nova forma, paga a peso de ouro, para que as pessoas vivam situações de desagradável incômodo - desta vez em suas viagens aéreas.
A indústria de aviação Airbus, cujo principal produto são aviões comerciais de grande porte, está a oferecer a diversas companhias aéreas da Ásia um projeto de rearranjo interno de poltronas de modo a possibilitar, em um futuro próximo, que passageiros possam viajar de pé em suas aeronaves. Segundo os executivos da companhia, o objetivo é aumentar a capacidade dos aviões para cerca de oitocentas e cinqüenta pessoas, algo em torno de setenta por cento a mais do que a atual lotação de quinhentos passageiros. E há, acreditem, companhias interessadas.
O único senão para o lançamento definitivo desse tipo de aeronave está sendo a exigência das companhias de que sejam criados espaços especiais acolchoados, que permitam ao passageiro viajar de forma confortável e segura. O outro porém ao início da fabricação desses aviões com assentos especiais é justamente este: chamar tais cabines, cujo espaço disponível seria de apenas sessenta e cinco centímetros, de assentos seria considerado, na maioria dos países asiáticos, propaganda enganosa aos clientes, o que colocaria as empresas aéreas em choque com a Justiça local.
Dizem os fabricantes que o projeto é viável por aumentar a capacidade das aeronaves, barateando os custos para as companhias aéreas e o valor das passagens para os clientes. Além disso, a recomendação da Airbus é de que tais aviões sejam usados apenas para vôos de curta duração. Mas, há como acreditar que tais limitações serão respeitadas pelas companhias aéreas em todo o mundo? E uma vez implementados tais assentos, quais as garantias de que seu uso não causará transtornos, incômodos e problemas futuros aos passageiros que, com o perdão da má figura, estarão finalmente a viajar como gado pelos ares, último refúgio de conforto dos meios de transporte contemporâneos.
Relembrando um fato pitoresco recentemente acontecido aqui no Brasil, pode-se dizer que a única certeza que se pode ter, caso esse sistema seja implementado em nosso país, é que nenhum Comandante do Exército usará de suas prerrogativas de ministro para fazer retornar uma aeronave ao portão de embarque e retirar dois passageiros da classe de pé para que ele e sua esposa sejam acomodados no vôo. Creio que nesses casos as boas (espaçosas) e velhas poltronas da primeira classe ainda será a mais digna para uma autoridade e seus eméritos familiares - e os passageiros de pé, em suas acolchoadas cabines de sessenta e tantos centímetros, terão ali a primeira visão das vantagens dos assentos verticais sobre as demais acomodações da aeronave…
Tomara que criem o equivalente aos assentos das montanhas russas mais modernas, em que as pessoas são suspensas e imobilizadas pelo torax, balançando os pés. Além de mais barato vai ser mais emocionante voar!
Brincadeiras à parte, na minha última viagem internacional senti desejo de viajar de pé mesmo, tamanho o desconforto das poltronas da classe econômica. Qualquer ônibus intermunicipal tem mais conforto e poltronas que reclinam mais. Sugiro um rodízio nos vôos, sendo que o passageiro viaja 33% do tempo de pé, depois pode sentar nas poltronas comuns por mais 33% do vôo e por fim aproveita terço final na primeira classe!