Rompimentos
Os noticiários dos últimos dias, em sua coluna policial, giraram em torno do caso ocorrido em um bairro nobre da cidade de São Paulo, no qual um adolescente de dezessete anos assassinou sua mãe, de trinta e três anos, por estrangulamento após, diz ele, ter sido ameaçado por ela com uma faca. O motivo da briga não poderia ser mais comum entre pais e filhos: ele estava de castigo, sob ordem da mãe de não deixar a casa, mas a desrespeitou.
O rapaz, que vivia com a mãe e dois meio-irmãos, após cometer o crime fugiu para a casa do ex-padrasto, separado da mulher há cinco anos, onde reportou o fato para a mãe deste, que então acionou o filho. Este, ex-namorado da mulher, foi até a casa do adolescente e já encontrou a mulher sem vida.
A imprensa tratou o caso dentro dos poucos detalhes que a família e a polícia puderam fornecer da história, que ainda carece de maiores explicações para todos. Dos dados que foram revelados, sabe-se que no local da briga havia, realmente, uma faca. Nada mais se sabe.
Da história de vida dos envolvidos em crime tão chocante para a sociedade, sabe-se que a mãe teve este primeiro filho quando tinha apenas dezesseis anos, e que a relação com o pai do menino não foi duradoura ao ponto de fazer com que o pai fosse mais presente na vida desse jovem. Amigos do rapaz dizem também que ele tinha “problemas de relacionamento” com a mãe, uma informação vaga que pode significar tudo e, ao mesmo tempo, pouca coisa de revelador.
Trabalhando de perto com educação e observando adolescentes da mesma idade que este precoce assassino, o que se nota é que atitudes extremas como esta, ainda que difíceis de serem explicadas, podem ser ao menos vistas com olhos mais atentos por pais e familiares que vivem ao redor desses jovens, para que sirvam de alerta. Parece-me que boa parte dos adolescentes e crianças de hoje estão sendo criadas em um sistema no qual não são expostas jamais a frustrações e, quando isso ocorre, já que a vida é feita de altos e baixos, sucessos e fracassos, os pais são os primeiros a formar uma couraça protetora para os filhos, nem que para isso precisem lutar contra a escola, os professores ou qualquer um que seja, aos olhos desses pais, os culpados pelas frustrações de seus filhos.
À guisa de exemplo, conto-lhes que acompanhei muito de perto uma situação em que uma colega do mesmo curso livre de idiomas no qual leciono recebeu ameaças de violência do pai de uma adolescente que foi reprovada em um semestre, mesmo depois de a professora ter avisado continuamente à família e à aluna da necessidade de mais empenho nos estudos e do eventual agendamento de aulas extras. Este pai, em defesa de sua filha, chegou a mentir diante do coordenador da escola e da professora, dizendo que jamais havia falado com ela ao telefone, mesmo depois de ela ter mostrado a conta telefônica de sua casa indicando que havia uma ligação da professora para a casa da tal aluna de quarenta minutos de duração!
Há toda uma geração de pais e mães que, pressionados pelo mercado que lhes exige cada vez mais e mais empenho - e, no caso das mulheres, pela sociedade que exige que elas tenham uma carreira e uma vida exemplar de mãe e dona-de-casa ao mesmo tempo -, acabam carregando um profundo sentimento de culpa em relação aos filhos, quer seja pelo pouco tempo que com eles passam durante o dia, quer seja pela falta de atenção que podem a eles oferecer em conseqüencia de todo esse quadro de ausência forçada por suas vidas profissionais. Esse sentimento de culpa, em minha humilde opinião, é que tem levado os pais a atitudes de superproteção, de compensação financeira de sua ausência para com os filhos, de tentativas de construção de couraças para que os filhos jamais se sintam frustrados, tristes, derrotados.
Um outro exemplo disso? Uma professora de língua inglesa de minhas relações teve que, recentemente, corrigir a caderneta de um aluno, na qual havia escrito que ele “estava a tomar atitudes violentas em sala de aula”. O pedido de correção veio do pai da criança, via coordenação pedagógica da escola, posto que o pai, doutorando em psiquiatria, considerou o termo “atitude violenta” inadequado para o seu filho - mesmo depois que a professora reportou que o motivo para tal lançamento na caderneta do aluno fora o fato de que o menino havia aplicado três socos, de punho fechado, no rosto de um colega de classe.
Qual a conseqüência de ações desse tipo por parte dos pais? Parece-me que estamos a criar uma geração de futuros adultos com dificuldades enormes de resistir às frustrações, em primeiro lugar. Se o adolescente nunca sentiu verdadeiras perdas ou frustrações em sua vida, se nunca teve que reconstruir sua vida interior depois de um insucesso, como podemos esperar desse mesmo jovem que consiga dizer não a coisas como drogas, sexo sem segurança, atitudes auto-destrutivas diversas, ações de desrespeito aos direitos dos outros - se a eles jamais foram mostrados deveres, mas sim direitos e direitos em um mundo que lhes prometia uma total ausência de negativas?
Tal questão torna-se ainda mais grave quando consideramos que há uma fase natural do crescimento do jovem na qual ele precisa romper os laços com a família, no intuito de construir sua própria identidade como adulto. A maioria de nós consegue fazer isso em termos simbólicos - seja o nosso rompimento expresso em atos de rebeldia (cabelos coloridos, piercings, tatuagens sem autorização, namoros e companhias que desagradam os pais ou até mesmo a clássica “batida de porta” do quarto na cara do pai ou da mãe) ou, em situações mais extremas, em afastamento físico - quando alguns resolvem sair de casa e ganhar seu próprio dinheiro, dividir apartamento com amigos, mudar de cidade com o pretexto de fazer faculdade em outro lugar, enfim. Mas, se não se consegue “matar” pai e mãe de forma simbólica, qual será o caminho para tais jovens?
E pensar que aquele rapaz paulistano tem apenas dezessete anos, que sua mãe, por ele assassinada, tinha apenas trinta e três anos e que o motivo da briga dos dois foi apenas um tolo castigo desrespeitado apenas torna a história por si só hedionda em algo ainda mais preocupante e assustador.