Mozarteum
Há cerca de vinte anos, um filme vencedor do Oscar trouxe ao conhecimento do grande público a figura e um pouco da obra de um dos maiores mestres da música universal: Wolfgang Amadeus Mozart. em que pese sua beleza plástica e seu bem urdido roteiro, adaptação para o cinema de uma peça teatral feita por seu próprio autor, peter Schaeffer, o filme “Amadeus” foi também o culpado por uma série de mitos estranhos em relação à figura do músico austríaco, retratado nas telas por um Tom Hulce estreante, mas magnífico, contudo personificando um personagem histriônico, exageradamente boêmio e com laivos de loucura e soberba que causaram estranheza e protestos em alguns de seus estudiosos mais renomados à época do lançamento do filme. Ao público em geral, por exemplo, escapou-lhe o fato de que o filme, antes de ser uma biografia do compositor de Salzburgo, era uma visão fantasiosa do que teria sido sua vida aos olhos de um outro compositor célebre à época, Antonio Salieri, que o filme coloca como um dos responsáveis pela morte de Mozart, além de ter conspirado nos bastidores da corte austríaca para que o compositor tivesse algum fracasso em suas empreitadas e morresse na miséria e indigência - dados que a história em grande parte desmente e que também motivaram reclamações e comentários dos biógrafos de ambos os compositores.
O ano de 2006, contudo, é o mais propício para que se conheça o verdadeiro homem por trás do mito. Na Áustria em especial, mas também nos vários centros musicais espalhados pelo mundo, a obra de Mozart será relembrada com freqüência e diversas montagens de suas óperas já são anunciadas. Salzburgo, em especial, está inteiramente voltada para a celebração dos 250 anos de nascimento de Mozart, e apresenta aos visitantes desde uma vasta programação cultural em torno da obra do músico até uma explosão de souvenires que vão do chocolate às perucas comemorativas (sic!), além de aulas de minueto, fotos com roupas do século XVIII e outras extravagâncias para atrair turistas. Exageros à parte, a intenção dos organizadores do “Ano Mozart” na Áustria é nobre e as oportunidades para os que querem, efetivamente, se aprofundar na vida e obra de Wolfgang Amadeus Mozart são imensas.
Em Viena, por exemplo, há visitas guiadas nas quais o turista pode conehcer mais de cinqüenta lugares relacionados a Mozart, com direito a verdadeiras aulas de história ministradas pelos próprios guias. Além disso, duas gigantescas exposições contam a vida do compositor que um dia a corte vienense tentou enquadrar em seus cânones musicais e, por que não dizer, comportamentais. Mas há quem critique todo este aparato, questionando se ele não irá uma vez mais, a exemplo do que aconteceu quando do lançamento mundial do filme “Amadeus”, criar um cisma entre o culto à imagem de Mozart - cuja iconografia enfeita embalagens de licor e chocolate - e a música do mestre.
O fato é que Mozart é um símbolo forte de rebeldia - ainda que seja uma rebeldia à século XVIII, repleta de limitações próprias do rigor da época - e os organizadores do evento não estão a tentar esconder este lado de sua biografia. talvez seja este o viés pelo qual música e homem unam-se em Mozart, pois sua obra é bastante revolucionária se imaginarmos que ele rompeu com cânones e formalismos que o próprio Beethoven, que lhe sucede algumas décadas depois, ainda teria restrições de romper. E a isso soma-se a produção extraordinária de Mozart, em termos numéricos e artísticos, além de sua tão conhecida precocidade de menino-prodígio cujo labor paterno garantiu sua perpetuação como exemplo de criança talentosa e de espantosos dons até hoje.
A música de Mozart sobrevive até hoje, seja nas programações dos grandes teatros ou nos toques de celular que ouvimos nas ruas. É uma pena que, para alguns, a imagem de Mozart ainda vá ficar por muito tempo associada apenas a um jovem estranho de perucas coloridas e risada estridente, como lhes foi mostrado no (maravilhoso) filme de Milos Forman.