Um Novo Holocausto?
Há uma religião, surgida em meados do século XIX, que parece apresentar na atualidade uma forte ameaça para certos governantes do mundo. Ela prega a unidade da humanidade, a igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres, a importância da educação como meio de crescimento pessoal e a eliminação de todas as formas de preconceito e discriminação. Espalhados em todo o mundo, seus seguidores têm encontrado liberdade para professar sua fé e viver em harmonia com a comunidade local - mesmo em regiões com fortes traços regionais, como as comunidades Bahá’í existentes em regiões de grande tradição indígena na Bolívia e no Peru, por exemplo. Mas, em que pese seu caráter universalista e sua mensagem de paz, essa religião tem sofrido perseguições que, colocadas em sua proporcional perspectiva, parecem ser um prenúncio das mesmas ocorrências que levaram à existência do Holocausto judeu na Segunda Guerra Mundial - sobretudo pelo fato de que o mundo parece ignorar tais sinais.
Ainda que seja pouco conhecida no Brasil ,o Bahá’í é uma das religiões que, segundo a Organização das Nações Unidas, mais cresce em todo o mundo, tendo hoje aproximadamente cinco milhões de seguidores. No Irã, país onde surgiu a religião, eles somam mais de trezentos mil, sendo a maior das religiões minoritárias em território iraniano. Há alguns aspectos da vida dos seguidores do Bahá’í no Irã, contudo, que diferencia o tratamento que tal religião recebe naquele país do clima de harmonia e tranqüilidade em que eles vivem no resto do mundo - e que, efetivamente, lembram os primeiros momentos da perseguição dos judeus pela Alemanha hitlerista. Os que professam tal religião precisam ser cadastrados em órgãos do governo e tem registrada sua condição de crente daquela fé - a exemplo do que ocorria com os espíritas no Brasil nas décadas de 1930 a 1950 e aos judeus na Alemanha do entre-guerras.
O terrível destino de tal religião começou a ser traçado já em seu nascimento, pois ela foi fundada em 1844 em Teerã, capital e principal cidade da então Pérsia, por um homem de nome Mirzá Husayn’Ali, depois denominado Bahá’u'lláh, filho de um vizir da corte persa. Naquele ano, aquele que se tornaria o profeta do Bahá’í começou sua jornada messiânica de divulgação das idéias que formam o corpo doutrinário dessa religião, o que lhe levou à prisão pelas mãos do clero muçulmano que já à época influenciava as decisões de governo. Nos anos seguintes, houve várias perseguições aos seguidores do Bahá’í, dentre as quais um célebre massacre nas ruas de Teerã cujas narrativas fazem-nos, ocidentais, recordar o banho de sangue do Massacre da Noite de São Bartolomeu, quando católicos franceses assassinaram centenas de protestantes nas vias públicas de Paris por ocasião das núpcias de Marguerite de Valois e Henri de Navarra. Ainda que perseguidos pelo regime do Xá Reza Pahlevi, foi a Revolução Islâmica de 1979 que fez recrudescer ainda mais o cerco contra os Bahá’í. Em junho de 1983, por exemplo, dez mulheres e crianças foram presas durante uma aula do que poderia ser chamado de Escola Dominical dos Bahá’í; levadas à prisão e torturadas, foram executadas em público por não terem abjurado sua fé, para que servissem de exemplo aos demais. Outros casos de prisões, abusos, torturas e execuções somam-se em um relatório entregue em 20 de março de 2006 à ONU por uma observadora que trabalha naquele país. As suspeitas de Asma Jahangir, autora do relatório, é de que haja uma política estabelecida pelo governo central do Irã para o extermínio daquela religião.
O relatório de Jahangir é um apelo para que a comunidade internacional não ignore os riscos que correm essas pessoas, ameaçadas de morte pelo simples fato de verem o transcendente de uma forma diferente daquela adotada pelo regime teocrático iraniano. Fechar os olhos para tal situação, manter um silêncio distante, ignorar o que lá ocorre por questões meramente políticas de boa vizinhança - tudo isso é ser conivente com o preconceito e o radicalismo.
A foto é de um templo Bahá’í localizado na Índia.
Conheço alguns integrantes da religião Bahá’í, bem como seus preceitos básicos e a considero de uma simplicidade e coerência assombrosas. Se há religião na face da Terra que se presta à paz universal é exatamente esta. Não é, portanto, difícil de entender porque é perseguida.