Everybody goes to Bollywood
Porto Alegre está sendo presenteada, desde o início de abril, com uma mostra de cinema atípica para nós, brasileiros: Bollywood Super Hits, patrocinada pelo Consulado Geral da Índia em São Paulo, traz aos portoalegrenses, com entrada franca, alguns dos mais significativos filmes da gigantesca produção cinematográfica indiana, a maior do mundo em número de películas produzidas anualmente nos mais diversos idiomas. A mostra inclui filmes produzidos desde os últimos anos da década de 1970 até os sucessos mais recentes, como os ótimos Lagaan, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2001, e Devdas, sucesso mundial e destaque no Festival de Veneza de 2003.
O cinema indiano tem inúmeras lições a ensinar ao cinema brasileiro. Talvez a mais importante delas seja o fato de que aquela rica cinematografia não passou, jamais, por uma crise de desvinculação com seu público. Em que pesem as críticas desmedidas de alguns ocidentais aos filmes indianos, que são em geral taxados de “exagerados” e “caricaturais”, a verdade é que o cinema indiano é reconhecido por seu público, que comparece às salas de exibição e mantém uma indústria cinematográfica que jamais dependeu de subvenção estatal ou aprovação da crítica internacional para sobreviver. Os indianos vêem-se em seus filmes e reconhecem neles seu modo de ser; as salas de exibição da Índia passam, também, os blockbusters norte-americanos, mas isso não parece ser uma influência perceptível na filmografia indiana: os filmes de Bollywood - nome que homenageia a Meca do cinema da Índia, a cidade de Bombaim - mantém suas fortes origens culturais indianas, servindo como um forte veículo de identificação cultural; neles, todos os gêneros transitam sem maiores pudores, do drama à comédia, do musical ao romance (ainda que sem beijos ousados ou cenas de nudez), sempre com referências religiosas e culturais que fazem do cinema indiano algo tão único e, não é exagerado dizer, tão maravilhoso aos olhos. Os indianos, enfim, parecem não ter esquecido que cinema é entretenimento e que depende de seu público para sobreviver.
O sucesso de Bollywood, o fato de ser uma indústria que gera dinheiro, e aos borbotões, faz com que haja espaço para todos os tipos de filmes, inclusive para aqueles de temática social ou política mais complexos e incisivos. Nem tudo em Bollywood é glamour e música; de lá, da mesma Índia dos longos musicais de amor, vieram também alguns dos mais significativos filmes asiáticos das últimas décadas.
Mas Bollywood não é apenas escapismo. Mesmo os filmes que seguem a tal fórmula bollywoodiana romance-música-cultura local o fazem sem esquecer os problemas sociais que trespassam a vida indiana contemporânea. Em Devdas (adaptação de um romance de imenso sucesso na Índia, escrito por Sarat Chandra Chattopadhye e várias vezes adaptado para o cinema), por exemplo, a história de um amor que rompe diversos obstáculos sociais é permeada de imagens belíssimas - a começar pela magnética atuação de Aishwarya Rai, ex-Miss Universo, como Paro (veja as fotos!), cuja beleza rouba a cena e é sempre muito bem explorada pelo diretor Sanjay Leela Bhansal -, providas tanto pelos cenários quanto pela cuidadosa direção de arte, e por números de dança aos quais não há como ficar indiferente. Contudo, o filme também aborda questões delicadas como o alcoolismo, a prostituição, as relações conflituosas entre pai e filho, o rígido sistema de castas, a dominação inglesa, o preconceito e a opressão feminina, sem deixar de ser uma bela história de amor e, o que é mais significativo, entretenimento. A expressividade dos atores, que em Bollywood também precisam ser exímios bailarinos, é outro traço peculiar do cinema indiano - algo talvez herdado da rica dança indiana, na qual corpo, gestos e expressões faciais formam um todo harmonioso de raríssima beleza.
Oxalá o cinema indiano, que é autosustentável, possa cada vez mais adentrar nossas salas de exibição com suas mais belas produções como o vistoso e sensível Devdas e o divertido Lagaan. E quem sabe, no futuro, Bollywood possa ensinar aos cineastas brasileiros como fazer as pazes com seu público.