Cola e Escola
Em março de 2006, um grupo de estudantes da Mount Saint Vincent University em Bedford, Nova Scotia, Canadá, convenceram a reitoria da instituição a proibir que os professores usem qualquer auxílio informatizado anti-plágio. O pretexto da solicitação dos alunos? Para o líder do diretório acadêmico da Mount San Vincent, o esforço dos docentes em desvendar casos de trabalhos copiados de outros textos disponíveis na rede mundial de computadores “cria na universidade uma cultura da desconfiança”.
Na Bósnia, os alunos da Univerdiade de Banja Luka protestaram, em fevereiro de 2006, contra a decisão da direção da faculdade de Economia de instalar câmeras de segurança nas salas de aula no intuito de vigiar os alunos durante a realização das provas. A justificativa dos líderes do protesto? Para eles, “colar nas provas é parte da mentalidade dos Bálcãs e seriam necessários muitos anos para que os alunos mudassem de atitude.”
Aqui no Brasil, Vicente Martins, professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral, Ceará, declarou na edição da Revista Espaço Acadêmico de junho de 2004, que vê “a cola como liberdade de aprender, (…)não como fraude ou ato clandestino do aluno, mas como manifestação ou recurso de liberdade de aprender do aluno e estratégia de recuperação dos alunos de baixo rendimento”. Para ele, a cola é uma solução para o baixo rendimento escolar dos alunos e para os altos índices de reprovação; em sua questionável visão de educação, Martins vê no “procedimento da cola um instrumento para assegurar, na verificação do rendimento escolar, um princípio de ensino como preconiza a Constituição Federal, no seu inciso II, do artigo 206, que enumera, entre os princípios de ensino, a liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber”. Em sua defesa da cola como expressão da indignação dos alunos diante de um sistema escolar opressor, “o poder reconhecido aos alunos, pelos estabelecimentos de ensino, de só aprenderem aquilo que quiserem e como quiserem”, Martins esboça um pequeno código de direitos dos colantes, abaixo reproduzido em sua totalidade:
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O direito de não competir na avaliação escolar, ao longo ou ao final do curso, para garantir a promoção de uma série a outra. O direito de legitimar sua liberdade de aprender O direito de não executar os prodígios de memória O direito de colar diante de matéria inadequada à maneira de ver, às experiência e aos objetivos do aprendiz-colante ou do colante-aprendiz. O direito de colar através de conversas colaborativas antes e durante a aplicação de provas, exercícios, tarefas ou outros meios de observação que tem por fim a verificação de desempenho da aprendizagem, em situações de atribuição de notas. O direito de colar para enfrentar a pressão dos professores e dos gestores dos estabelecimentos de ensino O direito de colar para evitar atraso escolar, repetência e evasão escolar. O direito de colar para desenvolver a capacidade de aprender, mediante leitura compensatória e compartilhada. O direito de colar por considerar que a escola não é um palco de guerra, mas um processo institucional construtivo de amor, paz, conhecimento e amizade. |
Desses três episódios, há que se tirar alguma tendência de nossos tempos atuais. A primeira delas diz respeito à nossa era dos direitos sem deveres, que está a criar toda uma geração a quem tudo é concedido, tudo é permitido e que não pode ser exposta a nenhuma contrariedade, nenhuma decepção, nenhum trauma - como se a vida real, o mercado de trabalho, a sociedade como um todo, fosse um mar de rosas capaz de atender aos direitos idiossincráticos de todos e de cada um em particular.
A segunda tendência parece ser a do atavismo, a qual parece até mesmo um paradoxo com um tempo que se diz voltado ao futuro: quando as mudanças mais profundas são propostas, a resposta social é a da manutenção do status quo, sobretudo se este tem sido um subterfúgio de longa data para burlar a lei e o estado de direito. A terceira forte tendência que se pode identificar dessas três histórias é a de que a educação parece estar perdendo todas as suas razões de ser - por mais distintas que sejam as visões educacionais de onde emanem tais razões: a escola está a perder seu poder de situar o ser humano em seu mundo e em seu tempo, de dar a este aluno as ferramentas necessárias para sobreviver em sociedade e construir seu próprio futuro; a escola está a negligenciar suas tarefas mais simples, quer sejam a de criar leitores, a de despertar nos alunos o prazer do saber e a de mostrar a importância do conhecimento e de um olhar crítico sobre o mundo; a escola está a se perder em seus objetivos de despertar talentos e alimentá-los com a vontade de conhecer a fundo os temas que lhe interessam - e tal incapacidade segue até mesmo aos centros de formação profissional, às universidades e aos centros de pesquisa.
Não raro o que vemos nas escolas particulares é a mercantilização da economia, que leva aquelas instituições à uma formatação de seus currículos para atender às demandas do vestibular, à comodidade dos alunos ou às exigências dos pais, sem que nenhuma dessas coisas tenha relação direta com objetivos didático-pedagógicos maiores. Nas escolas públicas brasileiras, o fenômeno é o inverso: cada governo faz do ambiente escolar um laboratório para suas teorias pedagógicas, sem qualquer rendição a um plano maior de educação, algo que fosse suprapartidário e de previsão que abrangesse um projeto de décadas para o reerguimento do ensino no país; vê-se, sim, muitas ações demagógicas, como o fim da reprovação nas escolas e o conseqüente aumento no número de vagas e de crianças atendidas, sem que haja qualquer contrapartida em termos de qualidade de ensino; o resultado é o enorme número de analfabetos funcionais do Brasil, gente que passou pela escola mas nada aprendeu dos conteúdos mais básicos que se esperaria levar de uma escola ao término de quatro a oito anos de escolaridade: ler, escrever, compreender o que foi lido e escrito. Mas nossas crianças estão na escola, nossa rede pública aboliu o fantasma da reprovação e nossos votos retornarão nas eleições seguintes: isso é o que parece importar aos nossos governantes.
Que esperar de uma geração que vê o plágio como um direito de privacidade a ser preservado, de um corpo discente que toma a cola como um traço de nacionalidade a ser defendido ou de um professor universitário que proclama a cola como uma “manifestação de liberdade de aprender do aluno”? O contraponto aos que combatem idéias como estas é sempre o mesmo e primário “quem nunca colou na escola?” - mas estamos a falar de situações institucionais, de pronunciamentos oficiais de instituições, entidades e seus representantes que estão envolvidos plenamente com atividades de formação em nível superior, e não de uma discussão pueril sobre quem colou ou não colou no ginasial. E não se pode conceber a cola, a fraude, o plágio, a contratação de terceiros para escrever monografias e dissertações, o download de resumos e resenhas de livros na rede mundial de computadores como pesquisa científica ou acadêmica. Ou será reacionário e antidemocrático demais pensar que a cola, o plágio e as diversas fraudes ofertadas em jornais e na Internet são práticas a serem combatidas no ambiente escolar?