Thursday, April 6, 2006

Paixão Segundo Meus Olhos

As rugas desenham em meu rosto
as vicissitudes do tempo.
Tenho sede. É chegada a hora.
Ecoam meus passos cansados
a caminho do calvário.
Tiram sorte de minhas vestes:
não está tão bem cotado
o corpo de um poeta…
Deitam-me sobre minha cruz.
Fincam-me as mãos, e de minhas chagas
escorre um sangue rubro
como nunca imaginei
que o tivesse assim tão belo.
Sinto dores, mas não sofro.
Bebo fel, que nunca teve
gosto tão adocicado.
Oh, deuses de meu destino,
porque me glorificais?
Tenho sede. É chegado o instante
da derradeira poesia.
A cabeça pende, os olhos cerram-se,
o rosto toma o caráter
da derradeira angústia.
Quebram-me as pernas, mas não as asas.
Pai, em tuas piedosas mãos
entrego meu pobre espírito!

Da obra

(1996)
(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 17:18:33 | Permalink | Comments (2)