Wednesday, April 5, 2006

Para o alto e…avante?

Confesso que não consigo ver o episódio da primeira viagem espacial de um astronauta brasileiro com os olhos patriótico-ufanistas com que a imprensa em geral tem tratado o tema.

Não se trata, aqui, de tirar os méritos de Marcos Pontes, tampouco de tecer críticas à sua pessoa.  Creio que sua escolha para a honraria de ser o primeiro cosmonauta do Brasil foi inteiramente baseada em critérios técnicos - algo que, em se tratando do serviço público brasileiro, em que tantos viajam pelo país e pelo exterior por conta de tantos outros fatores que não de seu talento, beira à exceção.  Seu exaustivo treinamento é coisa para poucos; chego a pensar que se a aventura espacial consistisse apenas em algumas reuniões no exterior, à custa de diárias em dólar estadunidense e com ampla possibilidade turística para o escolhido, talvez não tivesse sido ele o escolhido e, sim, algum protegido de alguma autoridade da cúpula da Aeronáutica ou do Ministério da Ciência e Tecnologia.  Mas sua preparação envolveu um esforço de meses e meses e era preciso escolher, de fato, alguém com competência e capacidade física e mental para o desafio da viagem espacial.  Imagino o quanto esta viagem está sendo importante para ele, Marcos Pontes, que entrou assim para a história.  Mas há outros fatores, dos pragmáticos aos mais ridículos, que me impedem de comemorar esta “vitória” do programa espacial brasileiro. 

Várias autoridades brasileiras foram unânimes em dizer que a viagem de Marcos Pontes à Estação Espacial Internacional (ISS) tem por propósito “divulgar o programa espacial brasileiro e desenvolver nos jovens o interesse pela ciência e tecnologia”.  Sérgio Gaudenzi, presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), chegou a afirmar que o evento “ajudará a desenvolver o setor”, que nos últimos anos viveu seus altos e baixos, sendo o mais notório deles o terrível acidente ocorrido em Alcântara, Maranhão, quando da explosão de um foguete por ocasião de seu lançamento, o qual representou perdas materiais e, o que é pior, perdas humanas irreparáveis.  Gaudenzi vê na viagem espacial uma possibilidade de que o Programa Espacial Brasileiro deixe de ser um projeto de governos para ser um projeto de estado - algo sinceramente muito utópico em um país no qual educação, economia e saúde, apenas para citar algumas áreas mais visíveis da ação governamental, jamais foram “projetos de estado”, mudando suas diretivas a cada governo que entra.

E daí chegamos à questão orçamentária.  A viagem de Marcos Pontes à ISS, e apenas a viagem, custará aos cofres públicos a quantia de US$ 10.000.000,00 (dez milhões de dólares estadunidenses).  O orçamento do Programa Espacial Brasileiro em 2005 foi de aproximadamente R$ 100.000.000,00 (cem milhões de reais), o que faz com que a aventura espacial, que alguns cientistas chamaram de “uma carona em uma nave espacial russa”, custe o equivalente a vinte por cento do orçamento anual da AEB.  Comparando com outros dados de orçamento do programa, cabe ressaltar que o investimento brasileiro na ISS, a partir de um acordo firmado com a NASA em 1997, é de US$ 10.000.000,00 (dez milhões de dólares estadunidenses) por ano, o equivalente a uma única viagem de alguns dias à estação espacial, e de um único astronauta.

Mas a viagem de Pontes, dizem as autoridades governamentais, trará “visibilidade ao programa espacial brasileiro”.  A missão, que foi batizada de “Centenário” em homenagem aos 100 anos do primeiro vôo do “14 Bis”, de Alberto Santos-Dumont, tem, de fato, gerado factóides na imprensa brasileira.  Marcos Pontes tem aparecido diariamente nos noticiários televisivos, ora erguendo a bandeira brasileira para as câmeras, ora ostentando o chapéu e o lenço de Santos-Dumont.  Mas o carismático astronauta brasileiro, cujo sorriso tem sido comparado pela imprensa russa ao do herói-cosmonauta soviético Yuri Gagarin, não pode ser culpado por essa publicidade envolta na primeira viagem espacial de um brasileiro.  Há fatos que parecem inequivocamente uma programação de marketing da atual gestão do governo brasileiro, como, por exemplo, os experimentos de plantio de feijão, originados em uma escola de periferia de São Bernardo do Campo - cidade-símbolo da subida do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao poder -, que Pontes levou para a ISS.  “Então estamos indo ao espaço, ao custo astronômico que é, para plantar feijões em algodão?”, é a pergunta que ouvi dia desses de um passageiro do ônibus no qual eu regressava de minha universidade pública, “Mas quanto não poderiam fazer pela educação primária com esse dinheiro todo?!”.  Com a palavra, o governo brasileiro.

O astronauta diz que quer servir de símbolo para os jovens brasileiros.  Pergunto-me quantos dos meninos e meninas que hoje o vêem na televisão poderão ver seus sonhos de se tornar um cosmonauta brasileiro realizados ao custo de US$ 10.000.000,00 (dez milhões de dólares estadunidenses) por viagem - sem contar os gastos de treinamento, viagem, hospedagem, diárias…  E não custa lembrar que estamos a falar de um país de analfabetos funcionais, que investe valores pífios por aluno das classes iniciais, que não forma leitores e não se preocupa com o produto final do processo escolar; um país que não tem um projeto unificado de crescimento por meio da educação aos moldes de uma Finlândia ou de uma Coréia do Sul, exemplos de países que em vinte anos deram um salto tecnológico - e de qualidade de vida para seus nacionais; um país que pouco investe - e que muitas vezes investe mal e sem proteção ao conhecimento que prodz - em pesquisa e desenvolvimento.  Falamos, enfim, de um país como o Brasil, onde não se consegue planejar nada para um futuro de décadas adiante e onde o dinheiro público é tratado como fonte inesgotável de recursos ou como dinheiro de ninguém

Mas chegamos ao espaço, e para alguns mais otimistas parece ser isso que importa.  Se ganharmos o hexacampeonato mundial de futebol em 2006, então, aí é que o Brasil estará mesmo além da Via Láctea…

Posted by Frizero at 13:37:25 | Permalink | Comments (3)