Thursday, April 27, 2006

As mulheres e o voto

Em que pese o fato de as primeiras feministas terem encontrado nos ideais democráticos de inspiração iluminista – igualdade e liberdade, representados mais diretamente pelo direito à participação na vida política e por leis que promovam uma justiça mais equânime – o campo propício para suas reivindicações, o cerne das referências filosóficas que embasam os ideais democráticos – representadas por pensadores como John Locke, Jean-Jacques Rousseau e Jeremy Bentham – estava já impregnado de conceitos que excluíam a mulher de uma participação mais ativa na condução da sociedade.  Um forte exemplo disso é o direito ao voto, que já na Grécia clássica, em pleno nascedouro da democracia ateniense, era vetado para as mulheres.

A luta pelo voto feminino foi sempre o primeiro passo a ser alcançado no horizonte das feministas da era pós-Revolução Industrial.  As suffragettes (em português, sufragistas), primeiras ativistas do feminismo no século XIX, eram assim conhecidas justamente por terem iniciado um movimento no Reino Unido a favor da concessão às mulheres do direito ao voto.  Seu início deu-se em 1897, com a fundação da União Nacional pelo Sufrágio Feminino por Millicent Fawcett (1847-1929), uma educadora britânica.  O movimento das sufragistas, que inicialmente era pacífico, questionava o fato de as mulheres do final daquele século serem consideradas capazes de assumir postos de importância na sociedade inglesa como, por exemplo, o corpo diretivo das escolas e o trabalho de educadoras em geral, mas serem vistas com desconfiança como possíveis eleitoras.  As leis do Reino Unido eram, afinal, aplicáveis às mulheres, mas elas não eram consultadas ou convidadas a participar de seu processo de elaboração. 

Ainda que obtendo um limitado sucesso em sua empreitada - a conversão de alguns membros do então embrionário Partido Trabalhista Britânico para a causa dos direitos das mulheres é um exemplo -, a maioria dos parlamentares daquele país acreditavam, ainda respaldados nas idéias de filósofos britânicos como John Locke e David Hume, que as mulheres eram incapazes de compreender o funcionamento do Parlamento Britânico e, por conseguinte, não podiam tomar parte no processo eleitoral.  O movimento feminino ganhou, então, as ruas e suas ativistas passaram então a ser conhecidas pela sociedade em geral pelo (à época, ofensivo) epíteto de sufragistas, sobretudo aquelas vinculadas à União Social e Política das Mulheres, fundado por Emmeline Pankhurst (1858-1928).  Ela foi uma militante que imprimiu um estilo mais enérgico ao movimento, o qual culminou com situações de confronto entre sufragistas e policiais e, finalmente, com a morte de uma manifestante, Emily Wilding Davison (1872-1913), que se atirou à frente do cavalo do rei da Inglaterra no célebre Derby de 1913, tornando-se a primeira mártir do movimento.

Mesmo que tenha causado grande comoção o movimento pelo voto feminino na Inglaterra da década de 1910, as ações de protesto empreendidas pelas sufragistas, contudo, apenas vieram a obter um parcial sucesso com a aprovação do Representation of the People Act de 1918, o qual estabeleceu o voto feminino no Reino Unido – em grande parte, dizem alguns historiadores, motivado pela atuação do movimento das sufragistas na Primeira Grande Guerra, já que as sufragistas deixaram as ruas e assumiram importante papel nos esforços de guerra.

A lei britânica de 1918 deu forças a mulheres de diversos outros países para que buscassem seus direitos ao voto, que as primeiras feministas consideravam de importância maior que outras questões referentes à situação feminina justamente por acreditarem que pelo voto as mulheres seriam capazes de solucionar problemas causados por leis injustas que lhes vetavam o acesso ao trabalho e à propriedade, por exemplo.  Habilitando-se ao sufrágio, as mulheres passariam a ser também elegíveis e assim, pensavam as feministas, poderiam concorrer de igual para igual com os homens por cargos eletivos.

Cento e nove anos depois da fundação da União Nacional Pelo Sufrágio Feminino, na Inglaterra, é possível ver que muita coisa mudou na situação das mulheres na sociedade.  Por mais que a opressão feminina seja ainda uma cruel realidade em alguns países, as mulheres têm direito ao voto e à participação política ampla na maioria dos países do mundo (embora em países como o Kuwait, por exemplo, haja ainda movimentos que reproduzem as mesmas lutas das sufragistas do século XIX, na tentativa de forçar o governo daquele país a mudar sua legislação eleitoral e adotar o voto universal em pleno século XXI).  Mas por que o efeito desejado pelas primeiras sufragistas, o de que o voto feminino levasse mais mulheres ao poder, em número equivalente ao de homens, ainda não aconteceu?  A resposta talvez seja mais simples que qualquer análise mais detalhada poderia sugerir: esta é mais uma conseqüência da paradoxal situação de liberdade de voto que vivemos nós, eleitores em sistemas democráticos - temos a liberdade de votar e escolher nossos representantes nos poderes legislativo e judiciário, mas tal liberdade é algo ilusória, pois de fato votamos naqueles que os partidos políticos incluem em suas listagens de candidatos.  E se as mulheres hoje têm amplo direito de exercer seu papel na vida pública, a proporcionalidade populacional entre homens e mulheres não é refletida nas listagens de candidatos oferecidas pelas forças políticas de nosso país.  Em outras palavras, temos milhões e milhões de eleitoras, mais até que eleitores do sexo masculino, mas o número de candidatas ainda é ínfimo diante dessa proporção de brasileiras em condições de exercer o voto. 

E a cada eleição retorna às nossas consciências a pergunta de sempre: será que uma mulher no poder faria a diferença que necessitamos para que as coisas mudem para melhor?  Talvez tenhamos ainda um longo caminho pela frente, no que diz respeito aos espaços femininos por conquistar em nossa sociedade, para que tenhamos uma participação mais expressiva e igualitária de mulheres na política brasileira.

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Corrigir ou não corrigir?

O professor de língua estrangeira deve ou não corrigir o aluno por ocasião de sua produção oral na língua estudada?  Recentemente realizei uma pesquisa que, além dos interessantes resultados por seu intermédio obtidos, serviu de curiosa experiência para meus estudos sobre a própria realização de pesquisas qualitativas em ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras. 

O tema da pesquisa era o tratamento e a correção do erro em produção oral nas salas de aula de língua estrangeira, estudados a partir dos dados processados a partir da distribuição de questionários para diversos voluntários, dos quais vinte e cinco deles mostraram-se dentro do perfil desejado de participante para os objetivos daquela pesquisa.  O resultado consolidado da apuração dos dados obtidos por tal instrumento e uma breve revisão da literatura existente sobre o tema estão condensados em um artigo de minha autoria intitulado Memórias sobre a Correção e o tratamento de Erros no Ensio de Língua Estrangeira no Brasil: o que Dizem os Ex-alunos.

A peculiariedade da pesquisa foi a forma pela qual os voluntários foram arregimentados e os dados, coletados: contatos pela Internet, envio e recebimento de questionários por e-mail, confirmação de algumas informações por meio de ferramentas de bate-papo na Rede Mundial de Computadores.  Em que pesem as limitações da ferramenta aplicada para esta pesquisa - o questionário de perguntas objetivas - o uso da Internet mostrou-se bastante propício para uma pesquisa que tinha por objetivo analisar as opiniões de adultos - acima dos 21 anos de idade - que tivessem vivido uma longa experiência como alunos de língua estrangeira (e o universo de entrevistados abrangeu pessoas que haviam estudado os mais diferentes idiomas), seja em cursos regulares ou livres, em aulas particulares ou em cursos de formação de professores.

E o que pensam os ex-alunos?  A pesquisa revelou que as recordações dos alunos diante da correção e do tratamento do erro nas salas de aula de língua estrangeira pelas quais passaram parece ser bem menos traumática do que nós, professores de idiomas, costumamos imaginar:  a produção oral e escrita são, como em geral se pode constatar nas salas de aula, as habilidades lingüísticas de maior grau de dificuldade para eles; contudo, todos conceituaram o erro em produção oral nas aulas de língua estrangeira como sendo parte natural do processo de ensino e aprendizagem.  Os participantes dessa pesquisa disseram sempre aceitar a correção do erro em produção oral, mas os critérios passíveis de serem corrigidos em tais situações apontados pela maioria foram os erros de pronúncia, de pragmática e de semântica; a correção da produção oral foi vista como um momento propício para a correção de erros de gramática e de vocabulário para poucos ex-alunos. 

Ainda que aceitando a correção, um terço dos entrevistados revelaram sentir constrangimento ou frustração quando corrigidos.  Mas a maioria absoluta dos entrevistados considerou que o momento da correção do erro na produção oral não pode se distanciar da ocorrência do erro, seja a correção feita logo em seguida ou mesmo durante a fala do aluno.  Os ex-alunos disseram, também, que preferem quando o professor corrige o aluno alertando-o de que há um problema em sua produção oral, mas dando a ele tempo para que possa reformular a enunciação de forma correta (o que em termos técnicos chamamos de elucidação); outro significativo grupo disse gostar que o professor repita a frase dita erroneamente, mas desta vez enfatizando a forma correta (um tipo de correção tecnicamente conhecido como recast).  A maioria deles afirmou, ainda, que aceitam a correção feita pelos colegas de turma, mas quando esta ocorre em atividades de grupo ou em duplas; o professor ainda é visto como fonte primeira de correção, ao ponto de um quarto dos pesquisados terem declarado que jamais corrigem seus colegas em sala de aula.

A correção e o tratamento corretivo, que na literatura especializada são alvos de aprofudados estudos - bem mais significativos em termos estatísticos que os dados que pude coletar para meu artigo nesse meio inovador para a pesquisa na área das Ciências Humanas que é a Internet -, estão longe de ser vistos por todo o universo de professores de igual forma.  Há, em verdade, em cada professor, duas memórias que lutam permanentemente: a memória do aluno que ele foi um dia (e segue sendo, pois não há bom professor de idiomas que deixe um dia de estudar aquela língua à qual se dedica como educador) e a do estudioso, pesquisador e instrutor formado pelos bancos acadêmicos.  Nesta luta mental, há as experiências positivas e negativas que ele sofreu ao longo de seu aprendizado, e as que coletou de sua prática docente.  Mas ao fundo desse digladiar constante de idéias, nas quais há o medo de que a correção gere traumas no aluno que o prejudiquem em seu progresso como falante de uma língua estrangeira, há também as expectativas dos alunos em relação ao professor, ao processo de aprendizado e ao que eles esperam daqueles poucos momentos dentro de uma sala de aula nos quais se busca o momento mágico - e por vezes tão fugidio - da construção do conhecimento.   

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Tuesday, April 25, 2006

Gado voador

Não há limites para o péssimo, já dizia, em outras palavras menos canhestas, o filósofo alemão Schopenhauer.  E os seres humanos já encontraram várias maneiras de tornar a vida de seus semelhantes um pouco mais degradantes, um pouco mais insuportáveis.  Mas agora estão a inventar uma nova forma, paga a peso de ouro, para que as pessoas vivam situações de desagradável incômodo - desta vez em suas viagens aéreas. 

A indústria de aviação Airbus, cujo principal produto são aviões comerciais de grande porte, está a oferecer a diversas companhias aéreas da Ásia um projeto de rearranjo interno de poltronas de modo a possibilitar, em um futuro próximo, que passageiros possam viajar de pé em suas aeronaves.  Segundo os executivos da companhia, o objetivo é aumentar a capacidade dos aviões para cerca de oitocentas e cinqüenta pessoas, algo em torno de setenta por cento a mais do que a atual lotação de quinhentos passageiros.  E há, acreditem, companhias interessadas. 

O único senão para o lançamento definitivo desse tipo de aeronave está sendo a exigência das companhias de que sejam criados espaços especiais acolchoados, que permitam ao passageiro viajar de forma confortável e segura.  O outro porém ao início da fabricação desses aviões com assentos especiais é justamente este: chamar tais cabines, cujo espaço disponível seria de apenas sessenta e cinco centímetros, de assentos seria considerado, na maioria dos países asiáticos, propaganda enganosa aos clientes, o que colocaria as empresas aéreas em choque com a Justiça local.

Dizem os fabricantes que o projeto é viável por aumentar a capacidade das aeronaves, barateando os custos para as companhias aéreas e o valor das passagens para os clientes.  Além disso, a recomendação da Airbus é de que tais aviões sejam usados apenas para vôos de curta duração.  Mas, há como acreditar que tais limitações serão respeitadas pelas companhias aéreas em todo o mundo?  E uma vez implementados tais assentos, quais as garantias de que seu uso não causará transtornos, incômodos e problemas futuros aos passageiros que, com o perdão da má figura, estarão finalmente a viajar como gado pelos ares, último refúgio de conforto dos meios de transporte contemporâneos.

Relembrando um fato pitoresco recentemente acontecido aqui no Brasil, pode-se dizer que a única certeza que se pode ter, caso esse sistema seja implementado em nosso país, é que nenhum Comandante do Exército usará de suas prerrogativas de ministro para fazer retornar uma aeronave ao portão de embarque e retirar dois passageiros da classe de pé para que ele e sua esposa sejam acomodados no vôo.  Creio que nesses casos as boas (espaçosas) e velhas poltronas da primeira classe ainda será a mais digna para uma autoridade e seus eméritos familiares - e os passageiros de pé, em suas acolchoadas cabines de sessenta e tantos centímetros, terão ali a primeira visão das vantagens dos assentos verticais sobre as demais acomodações da aeronave…   

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Monday, April 24, 2006

Rompimentos

Os noticiários dos últimos dias, em sua coluna policial, giraram em torno do caso ocorrido em um bairro nobre da cidade de São Paulo, no qual um adolescente de dezessete anos assassinou sua mãe, de trinta e três anos, por estrangulamento após, diz ele, ter sido ameaçado por ela com uma faca.  O motivo da briga não poderia ser mais comum entre pais e filhos: ele estava de castigo, sob ordem da mãe de não deixar a casa, mas a desrespeitou.

O rapaz, que vivia com a mãe e dois meio-irmãos, após cometer o crime fugiu para a casa do ex-padrasto, separado da mulher há cinco anos, onde reportou o fato para a mãe deste, que então acionou o filho.  Este, ex-namorado da mulher, foi até a casa do adolescente e já encontrou a mulher sem vida.

A imprensa tratou o caso dentro dos poucos detalhes que a família e a polícia puderam fornecer da história, que ainda carece de maiores explicações para todos.  Dos dados que foram revelados, sabe-se que no local da briga havia, realmente, uma faca.  Nada mais se sabe.

Da história de vida dos envolvidos em crime tão chocante para a sociedade, sabe-se que a mãe teve este primeiro filho quando tinha apenas dezesseis anos, e que a relação com o pai do menino não foi duradoura ao ponto de fazer com que o pai fosse mais presente na vida desse jovem.  Amigos do rapaz dizem também que ele tinha “problemas de relacionamento” com a mãe, uma informação vaga que pode significar tudo e, ao mesmo tempo, pouca coisa de revelador.

Trabalhando de perto com educação e observando adolescentes da mesma idade que este precoce assassino, o que se nota é que atitudes extremas como esta, ainda que difíceis de serem explicadas, podem ser ao menos vistas com olhos mais atentos por pais e familiares que vivem ao redor desses jovens, para que sirvam de alerta.  Parece-me que boa parte dos adolescentes e crianças de hoje estão sendo criadas em um sistema no qual não são expostas jamais a frustrações e, quando isso ocorre, já que a vida é feita de altos e baixos, sucessos e fracassos, os pais são os primeiros a formar uma couraça protetora para os filhos, nem que para isso precisem lutar contra a escola, os professores ou qualquer um que seja, aos olhos desses pais, os culpados pelas frustrações de seus filhos.

À guisa de exemplo, conto-lhes que acompanhei muito de perto uma situação em que uma colega do mesmo curso livre de idiomas no qual leciono recebeu ameaças de violência do pai de uma adolescente que foi reprovada em um semestre, mesmo depois de a professora ter avisado continuamente à família e à aluna da necessidade de mais empenho nos estudos e do eventual agendamento de aulas extras.  Este pai, em defesa de sua filha, chegou a mentir diante do coordenador da escola e da professora, dizendo que jamais havia falado com ela ao telefone, mesmo depois de ela ter mostrado a conta telefônica de sua casa indicando que havia uma ligação da professora para a casa da tal aluna de quarenta minutos de duração!

Há toda uma geração de pais e mães que, pressionados pelo mercado que lhes exige cada vez mais e mais empenho - e, no caso das mulheres, pela sociedade que exige que elas tenham uma carreira e uma vida exemplar de mãe e dona-de-casa ao mesmo tempo -, acabam carregando um profundo sentimento de culpa em relação aos filhos, quer seja pelo pouco tempo que com eles passam durante o dia, quer seja pela falta de atenção que podem a eles oferecer em conseqüencia de todo esse quadro de ausência forçada por suas vidas profissionais.  Esse sentimento de culpa, em minha humilde opinião, é que tem levado os pais a atitudes de superproteção, de compensação financeira de sua ausência para com os filhos, de tentativas de construção de couraças para que os filhos jamais se sintam frustrados, tristes, derrotados.

Um outro exemplo disso?  Uma professora de língua inglesa de minhas relações teve que, recentemente, corrigir a caderneta de um aluno, na qual havia escrito que ele “estava a tomar atitudes violentas em sala de aula”.  O pedido de correção veio do pai da criança, via coordenação pedagógica da escola, posto que o pai, doutorando em psiquiatria, considerou o termo “atitude violenta” inadequado para o seu filho - mesmo depois que a professora reportou que o motivo para tal lançamento na caderneta do aluno fora o fato de que o menino havia aplicado três socos, de punho fechado, no rosto de um colega de classe.  

Qual a conseqüência de ações desse tipo por parte dos pais?  Parece-me que estamos a criar uma geração de futuros adultos com dificuldades enormes de resistir às frustrações, em primeiro lugar.  Se o adolescente nunca sentiu verdadeiras perdas ou frustrações em sua vida, se nunca teve que reconstruir sua vida interior depois de um insucesso, como podemos esperar desse mesmo jovem que consiga dizer não a coisas como drogas, sexo sem segurança, atitudes auto-destrutivas diversas, ações de desrespeito aos direitos dos outros - se a eles jamais foram mostrados deveres, mas sim direitos e direitos em um mundo que lhes prometia uma total ausência de negativas? 

Tal questão torna-se ainda mais grave quando consideramos que há uma fase natural do crescimento do jovem na qual ele precisa romper os laços com a família, no intuito de construir sua própria identidade como adulto.  A maioria de nós consegue fazer isso em termos simbólicos - seja o nosso rompimento expresso em atos de rebeldia (cabelos coloridos, piercings, tatuagens sem autorização, namoros e companhias que desagradam os pais ou até mesmo a clássica “batida de porta” do quarto na cara do pai ou da mãe) ou, em situações mais extremas, em afastamento físico - quando alguns resolvem sair de casa e ganhar seu próprio dinheiro, dividir apartamento com amigos, mudar de cidade com o pretexto de fazer faculdade em outro lugar, enfim.  Mas, se não se consegue “matar” pai e mãe de forma simbólica, qual será o caminho para tais jovens? 

E pensar que aquele rapaz paulistano tem apenas dezessete anos, que sua mãe, por ele assassinada, tinha apenas trinta e três anos e que o motivo da briga dos dois foi apenas um tolo castigo desrespeitado apenas torna a história por si só hedionda em algo ainda mais preocupante e assustador.

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Saturday, April 22, 2006

Das Amizades Silentes

 

 

 

Sei que distante, sou não mais que sombra
a voejar por essa alma tua…
Mas seja eu sombra leve que flutua
e não o espectro morto que te assombra.

(Robertson Frizero Barros)

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Thursday, April 20, 2006

Mozarteum

Há cerca de vinte anos, um filme vencedor do Oscar trouxe ao conhecimento do grande público a figura e um pouco da obra de um dos maiores mestres da música universal: Wolfgang Amadeus Mozart.  em que pese sua beleza plástica e seu bem urdido roteiro, adaptação para o cinema de uma peça teatral feita por seu próprio autor, peter Schaeffer, o filme “Amadeus” foi também o culpado por uma série de mitos estranhos em relação à figura do músico austríaco, retratado nas telas por um Tom Hulce estreante, mas magnífico, contudo personificando um personagem histriônico, exageradamente boêmio e com laivos de loucura e soberba que causaram estranheza e protestos em alguns de seus estudiosos mais renomados à época do lançamento do filme.  Ao público em geral, por exemplo, escapou-lhe o fato de que o filme, antes de ser uma biografia do compositor de Salzburgo, era uma visão fantasiosa do que teria sido sua vida aos olhos de um outro compositor célebre à época, Antonio Salieri, que o filme coloca como um dos responsáveis pela morte de Mozart, além de ter conspirado nos bastidores da corte austríaca para que o compositor tivesse algum fracasso em suas empreitadas e morresse na miséria e indigência - dados que a história em grande parte desmente e que também motivaram reclamações e comentários dos biógrafos de ambos os compositores.

O ano de 2006, contudo, é o mais propício para que se conheça o verdadeiro homem por trás do mito.  Na Áustria em especial, mas também nos vários centros musicais espalhados pelo mundo, a obra de Mozart será relembrada com freqüência e diversas montagens de suas óperas já são anunciadas.  Salzburgo, em especial, está inteiramente voltada para a celebração dos 250 anos de nascimento de Mozart, e apresenta aos visitantes desde uma vasta programação cultural em torno da obra do músico até uma explosão de souvenires que vão do chocolate às perucas comemorativas (sic!), além de aulas de minueto, fotos com roupas do século XVIII e outras extravagâncias para atrair turistas.  Exageros à parte, a intenção dos organizadores do “Ano Mozart” na Áustria é nobre e as oportunidades para os que querem, efetivamente, se aprofundar na vida e obra de Wolfgang Amadeus Mozart são imensas.

Em Viena, por exemplo, há visitas guiadas nas quais o turista pode conehcer mais de cinqüenta lugares relacionados a Mozart, com direito a verdadeiras aulas de história ministradas pelos próprios guias.  Além disso, duas gigantescas exposições contam a vida do compositor que um dia a corte vienense tentou enquadrar em seus cânones musicais e, por que não dizer, comportamentais.  Mas há quem critique todo este aparato, questionando se ele não irá uma vez mais, a exemplo do que aconteceu quando do lançamento mundial do filme “Amadeus”, criar um cisma entre o culto à imagem de Mozart - cuja iconografia enfeita embalagens de licor e chocolate - e a música do mestre. 

O fato é que Mozart é um símbolo forte de rebeldia - ainda que seja uma rebeldia à século XVIII, repleta de limitações próprias do rigor da época - e os organizadores do evento não estão a tentar esconder este lado de sua biografia.  talvez seja este o viés pelo qual música e homem unam-se em Mozart, pois sua obra é bastante revolucionária se imaginarmos que ele rompeu com cânones e formalismos que o próprio Beethoven, que lhe sucede algumas décadas depois, ainda teria restrições de romper.  E a isso soma-se a produção extraordinária de Mozart, em termos numéricos e artísticos, além de sua tão conhecida precocidade de menino-prodígio cujo labor paterno garantiu sua perpetuação como exemplo de criança talentosa e de espantosos dons até hoje. 

A música de Mozart sobrevive até hoje, seja nas programações dos grandes teatros ou nos toques de celular que ouvimos nas ruas.  É uma pena que, para alguns, a imagem de Mozart ainda vá ficar por muito tempo associada apenas a um jovem estranho de perucas coloridas e risada estridente, como lhes foi mostrado no (maravilhoso) filme de Milos Forman.

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Monday, April 17, 2006

Caingangues, não

Há um costume dessa época de Páscoa que acabamos de viver e que, como carioca, eu vim a conhecer mais de perto aqui no Rio Grande do Sul: o de montar cestas de Páscoa para as crianças, esconder ovos de Páscoa pela casa ou pelo jardim, montar ninhos para o mítico Coelhinho da Páscoa. Alguns devem conhecer tais costumes de outras partes do país mas, por ser eu urbano e de uma família de moderadas posses, jamais tive essa experiência das cestinhas de Páscoa em minha infância.

Tal costume gerou, no Rio Grande do Sul, todo um comércio peculiar relacionado a essa festa em particular, com a venda de cestas de palha e vime, ovos de chocolate e doces diversos, palha para forrar as cestas e papéis especiais para embrulhá-la, enfim, toda uma gama de itens que são bastante procurados pela população. E no afã de ganhar algum dinheiro com essa procura tão sazonal por cestas, os índios caingangues, cujo artesanato tradicional envolve a confecção de cestas artesanais, deixam suas reservas localizadas em cidades como Nonoai e Ronda Alta e vêm para a capital do estado, instalando-se em lugares públicos de grande afluência de pessoas, como os parques Farroupilha e Moinhos de Vento e, com maior presença, a Praça da Alfândega, tradicional ponto de afluência de transeuntes no centro de Porto Alegre, a qual é cortada pela mais movimentada das ruas do bairro, a Rua dos Andradas.

A presença dos índios caingangues na Praça da Alfândega às vésperas da Páscoa já se tornou algo comum e que pouco transtorno causa aos transeuntes - até porque é pequeno seu período de permanência por alí. Contudo, este ano, a Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio (SMIC) de Porto Alegre resolveu coibir sua permanência naquele ponto turístico da cidade porque os índios, “como não requisitaram autorização”, passaram a ser considerados como irregulares e a partir de quarta-feira começaram a ser pressionados a suspender suas vendas. Uma autoridade da SMIC, o diretor de fiscalização cujo sugestivo nome é Léo Bulling, chegou a declarar que a fiscalização seria “intensificada para coibir a permanência deles na praça” e que a SMIC não permitiria “que os produtos [cestas] sejam espalhados pelo chão”.

Em uma primeira vista d’olhos, sobretudo aos que não conhecem Porto Alegre, a Rua dos Andradas e a Praça da Alfândega, parece justo que a SMIC exerça seu poder de fiscalização para impedir qualquer comércio ilegal, doa a quem doer, seja o infrator índio ou homem branco. Contudo, o que causa espanto é que aquele órgão municipal venha a público declarar guerra a um grupo de índios de notória carência social enquanto dezenas e dezenas de outros ambulantes, vendendo produtos bem menos inocentes que as cestas de palha dos caingangues, invadem todos os dias, após as seis da tarde, e todos os fins-de-semana, depois do meio-dia de sábado, o calçadão da mesma Rua dos Andradas a ponto de impedirem o trânsito tranqüilo dos transeuntes. Seus produtos - que vão dos CDs e DVDs piratas (incluindo filmes pornográficos cujas capas ficam expostas a quem quer que por ali passe) às roupas de grifes pirateadas, de produtos eletrônicos contrabandeados a livros novos de origem questionável - ficam expostos em todo e qualquer lugar - na frente das lojas ainda abertas, no chão, na entrada e saída das ruas laterais ao calçadão, no meio e nos cantos da Rua dos Andradas - sem que haja qualquer ação coercitiva da fiscalização da SMIC ou da própria Brigada Militar. E isso ocorre durante todo o ano, intensificando-se horrivelmente em épocas festivas - posso até imaginar o que será aquilo às vésperas da Copa do Mundo de Futebol, um período que é o paraíso para os camelôs de todo o país.

Mas a SMIC estava preocupada com a cestaria caingangue. E por que? A concorrência para aquele produto só era encontrada nas barracas de artesanato legalizadas pela SMIC, que as conta em número de treze apenas; mas quem por ali transita ou, como eu, reside nas proximidades da Praça da Alfândega sabe que é bem mais que este o número de expositores regulares por ali, e bem mais que simples artesanato o que eles expõem - com destaque negativo para os objetos e as camisetas com estampas de apologia às drogas ilícitas -, já estando bastante desvirtuada a proposta original daquelas barracas. Mas como os índios não têm quem os defenda, enfim…

Oxalá seja exagero de minha parte na crítica à atuação do órgão fiscalizatório da Prefeitura de Porto Alegre… quem sabe essa ação descabida contra os índios caingangues seja o prenúncio de uma ação mais enérgica que eles irão aplicar a partir de agora em todos os ambulantes irregulares, limpando de uma vez por todas a Rua dos Andradas para os transeuntes? Cabe-nos esperar para ver o que acontecerá nos próximos dias. Ao lembrar que estamos em ano eleitoral e que em quase dois anos de nova gestão a Prefeitura nada fez de efetivo para dirimir o problema, não espero por grandes surpresas de minha parte: tudo permanecerá como antes - apenas sem os índios fazedores de cestas.

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Friday, April 14, 2006

Um Novo Holocausto?

Há uma religião, surgida em meados do século XIX, que parece apresentar na atualidade uma forte ameaça para certos governantes do mundo.  Ela prega a unidade da humanidade, a igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres, a importância da educação como meio de crescimento pessoal e a eliminação de todas as formas de preconceito e discriminação.  Espalhados em todo o mundo, seus seguidores têm encontrado liberdade para professar sua fé e viver em harmonia com a comunidade local - mesmo em regiões com fortes traços regionais, como as comunidades Bahá’í existentes em regiões de grande tradição indígena na Bolívia e no Peru, por exemplo.  Mas, em que pese seu caráter universalista e sua mensagem de paz, essa religião tem sofrido perseguições que, colocadas em sua proporcional perspectiva, parecem ser um prenúncio das mesmas ocorrências que levaram à existência do Holocausto judeu na Segunda Guerra Mundial - sobretudo pelo fato de que o mundo parece ignorar tais sinais.

Ainda que seja pouco conhecida no Brasil ,o Bahá’í é uma das religiões que, segundo a Organização das Nações Unidas, mais cresce em todo o mundo, tendo hoje aproximadamente cinco milhões de seguidores.  No Irã, país onde surgiu a religião, eles somam mais de trezentos mil, sendo a maior das religiões minoritárias em território iraniano.  Há alguns aspectos da vida dos seguidores do Bahá’í no Irã, contudo, que diferencia o tratamento que tal religião recebe naquele país do clima de harmonia e tranqüilidade em que eles vivem no resto do mundo - e que, efetivamente, lembram os primeiros momentos da perseguição dos judeus pela Alemanha hitlerista.  Os que professam tal religião precisam ser cadastrados em órgãos do governo e tem registrada sua condição de crente daquela fé - a exemplo do que ocorria com os espíritas no Brasil nas décadas de 1930 a 1950 e aos judeus na Alemanha do entre-guerras. 

O terrível destino de tal religião começou a ser traçado já em seu nascimento, pois ela foi fundada em 1844 em Teerã, capital e principal cidade da então Pérsia, por um homem de nome Mirzá Husayn’Ali, depois denominado Bahá’u'lláh, filho de um vizir da corte persa.  Naquele ano, aquele que se tornaria o profeta do Bahá’í começou sua jornada messiânica de divulgação das idéias que formam o corpo doutrinário dessa religião, o que lhe levou à prisão pelas mãos do clero muçulmano que já à época influenciava as decisões de governo.  Nos anos seguintes, houve várias perseguições aos seguidores do Bahá’í, dentre as quais um célebre massacre nas ruas de Teerã cujas narrativas fazem-nos, ocidentais, recordar o banho de sangue do Massacre da Noite de São Bartolomeu, quando católicos franceses assassinaram centenas de protestantes nas vias públicas de Paris por ocasião das núpcias de  Marguerite de Valois e Henri de Navarra.  Ainda que perseguidos pelo regime do Xá Reza Pahlevi, foi a Revolução Islâmica de 1979 que fez recrudescer ainda mais o cerco contra os Bahá’í.  Em junho de 1983, por exemplo, dez mulheres e crianças foram presas durante uma aula do que poderia ser chamado de Escola Dominical dos Bahá’í; levadas à prisão e torturadas, foram executadas em público por não terem abjurado sua fé, para que servissem de exemplo aos demais.  Outros casos de prisões, abusos, torturas e execuções somam-se em um relatório entregue em 20 de março de 2006 à ONU por uma observadora que trabalha naquele país.  As suspeitas de Asma Jahangir, autora do relatório, é de que haja uma política estabelecida pelo governo central do Irã para o extermínio daquela religião. 

O relatório de Jahangir é um apelo para que a comunidade internacional não ignore os riscos que correm essas pessoas, ameaçadas de morte pelo simples fato de verem o transcendente de uma forma diferente daquela adotada pelo regime teocrático iraniano.  Fechar os olhos para tal situação, manter um silêncio distante, ignorar o que lá ocorre por questões meramente políticas de boa vizinhança - tudo isso é ser conivente com o preconceito e o radicalismo.

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Monday, April 10, 2006

Everybody goes to Bollywood

Porto Alegre está sendo presenteada, desde o início de abril, com uma mostra de cinema atípica para nós, brasileiros: Bollywood Super Hits, patrocinada pelo Consulado Geral da Índia em São Paulo, traz aos portoalegrenses, com entrada franca, alguns dos mais significativos filmes da gigantesca produção cinematográfica indiana, a maior do mundo em número de películas produzidas anualmente nos mais diversos idiomas. A mostra inclui filmes produzidos desde os últimos anos da década de 1970 até os sucessos mais recentes, como os ótimos Lagaan, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2001, e Devdas, sucesso mundial e destaque no Festival de Veneza de 2003.

O cinema indiano tem inúmeras lições a ensinar ao cinema brasileiro. Talvez a mais importante delas seja o fato de que aquela rica cinematografia não passou, jamais, por uma crise de desvinculação com seu público. Em que pesem as críticas desmedidas de alguns ocidentais aos filmes indianos, que são em geral taxados de “exagerados” e “caricaturais”, a verdade é que o cinema indiano é reconhecido por seu público, que comparece às salas de exibição e mantém uma indústria cinematográfica que jamais dependeu de subvenção estatal ou aprovação da crítica internacional para sobreviver. Os indianos vêem-se em seus filmes e reconhecem neles seu modo de ser; as salas de exibição da Índia passam, também, os blockbusters norte-americanos, mas isso não parece ser uma influência perceptível na filmografia indiana: os filmes de Bollywood - nome que homenageia a Meca do cinema da Índia, a cidade de Bombaim - mantém suas fortes origens culturais indianas, servindo como um forte veículo de identificação cultural; neles, todos os gêneros transitam sem maiores pudores, do drama à comédia, do musical ao romance (ainda que sem beijos ousados ou cenas de nudez), sempre com referências religiosas e culturais que fazem do cinema indiano algo tão único e, não é exagerado dizer, tão maravilhoso aos olhos. Os indianos, enfim, parecem não ter esquecido que cinema é entretenimento e que depende de seu público para sobreviver.

O sucesso de Bollywood, o fato de ser uma indústria que gera dinheiro, e aos borbotões, faz com que haja espaço para todos os tipos de filmes, inclusive para aqueles de temática social ou política mais complexos e incisivos. Nem tudo em Bollywood é glamour e música; de lá, da mesma Índia dos longos musicais de amor, vieram também alguns dos mais significativos filmes asiáticos das últimas décadas.

Mas Bollywood não é apenas escapismo. Mesmo os filmes que seguem a tal fórmula bollywoodiana romance-música-cultura local o fazem sem esquecer os problemas sociais que trespassam a vida indiana contemporânea. Em Devdas (adaptação de um romance de imenso sucesso na Índia, escrito por Sarat Chandra Chattopadhye e várias vezes adaptado para o cinema), por exemplo, a história de um amor que rompe diversos obstáculos sociais é permeada de imagens belíssimas - a começar pela magnética atuação de Aishwarya Rai, ex-Miss Universo, como Paro (veja as fotos!), cuja beleza rouba a cena e é sempre muito bem explorada pelo diretor Sanjay Leela Bhansal -, providas tanto pelos cenários quanto pela cuidadosa direção de arte, e por números de dança aos quais não há como ficar indiferente. Contudo, o filme também aborda questões delicadas como o alcoolismo, a prostituição, as relações conflituosas entre pai e filho, o rígido sistema de castas, a dominação inglesa, o preconceito e a opressão feminina, sem deixar de ser uma bela história de amor e, o que é mais significativo, entretenimento. A expressividade dos atores, que em Bollywood também precisam ser exímios bailarinos, é outro traço peculiar do cinema indiano - algo talvez herdado da rica dança indiana, na qual corpo, gestos e expressões faciais formam um todo harmonioso de raríssima beleza.

Oxalá o cinema indiano, que é autosustentável, possa cada vez mais adentrar nossas salas de exibição com suas mais belas produções como o vistoso e sensível Devdas e o divertido Lagaan. E quem sabe, no futuro, Bollywood possa ensinar aos cineastas brasileiros como fazer as pazes com seu público.

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Friday, April 7, 2006

Cola e Escola

Em março de 2006, um grupo de estudantes da Mount Saint Vincent University em Bedford, Nova Scotia, Canadá, convenceram a reitoria da instituição a proibir que os professores usem qualquer auxílio informatizado anti-plágio. O pretexto da solicitação dos alunos? Para o líder do diretório acadêmico da Mount San Vincent, o esforço dos docentes em desvendar casos de trabalhos copiados de outros textos disponíveis na rede mundial de computadores “cria na universidade uma cultura da desconfiança”.

Na Bósnia, os alunos da Univerdiade de Banja Luka protestaram, em fevereiro de 2006, contra a decisão da direção da faculdade de Economia de instalar câmeras de segurança nas salas de aula no intuito de vigiar os alunos durante a realização das provas. A justificativa dos líderes do protesto? Para eles, “colar nas provas é parte da mentalidade dos Bálcãs e seriam necessários muitos anos para que os alunos mudassem de atitude.”

Aqui no Brasil, Vicente Martins, professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral, Ceará, declarou na edição da Revista Espaço Acadêmico de junho de 2004, que vê “a cola como liberdade de aprender, (…)não como fraude ou ato clandestino do aluno, mas como manifestação ou recurso de liberdade de aprender do aluno e estratégia de recuperação dos alunos de baixo rendimento”. Para ele, a cola é uma solução para o baixo rendimento escolar dos alunos e para os altos índices de reprovação; em sua questionável visão de educação, Martins vê no “procedimento da cola um instrumento para assegurar, na verificação do rendimento escolar, um princípio de ensino como preconiza a Constituição Federal, no seu inciso II, do artigo 206, que enumera, entre os princípios de ensino, a liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber”. Em sua defesa da cola como expressão da indignação dos alunos diante de um sistema escolar opressor, “o poder reconhecido aos alunos, pelos estabelecimentos de ensino, de só aprenderem aquilo que quiserem e como quiserem”, Martins esboça um pequeno código de direitos dos colantes, abaixo reproduzido em sua totalidade:

 

O direito de não aceitar as estratégias de coerção e de controle dos professores.

O direito de não competir na avaliação escolar, ao longo ou ao final do curso, para garantir a promoção de uma série a outra.

O direito de legitimar sua liberdade de aprender

O direito de não executar os prodígios de memória

O direito de colar diante de matéria inadequada à maneira de ver, às experiência e aos objetivos do aprendiz-colante ou do colante-aprendiz.

O direito de colar através de conversas colaborativas antes e durante a aplicação de provas, exercícios, tarefas ou outros meios de observação que tem por fim a verificação de desempenho da aprendizagem, em situações de atribuição de notas.

O direito de colar para enfrentar a pressão dos professores e dos gestores dos estabelecimentos de ensino

O direito de colar para evitar atraso escolar, repetência e evasão escolar.

O direito de colar para desenvolver a capacidade de aprender, mediante leitura compensatória e compartilhada.

O direito de colar por considerar que a escola não é um palco de guerra, mas um processo institucional construtivo de amor, paz, conhecimento e amizade.

Desses três episódios, há que se tirar alguma tendência de nossos tempos atuais. A primeira delas diz respeito à nossa era dos direitos sem deveres, que está a criar toda uma geração a quem tudo é concedido, tudo é permitido e que não pode ser exposta a nenhuma contrariedade, nenhuma decepção, nenhum trauma - como se a vida real, o mercado de trabalho, a sociedade como um todo, fosse um mar de rosas capaz de atender aos direitos idiossincráticos de todos e de cada um em particular.

A segunda tendência parece ser a do atavismo, a qual parece até mesmo um paradoxo com um tempo que se diz voltado ao futuro: quando as mudanças mais profundas são propostas, a resposta social é a da manutenção do status quo, sobretudo se este tem sido um subterfúgio de longa data para burlar a lei e o estado de direito. A terceira forte tendência que se pode identificar dessas três histórias é a de que a educação parece estar perdendo todas as suas razões de ser - por mais distintas que sejam as visões educacionais de onde emanem tais razões: a escola está a perder seu poder de situar o ser humano em seu mundo e em seu tempo, de dar a este aluno as ferramentas necessárias para sobreviver em sociedade e construir seu próprio futuro; a escola está a negligenciar suas tarefas mais simples, quer sejam a de criar leitores, a de despertar nos alunos o prazer do saber e a de mostrar a importância do conhecimento e de um olhar crítico sobre o mundo; a escola está a se perder em seus objetivos de despertar talentos e alimentá-los com a vontade de conhecer a fundo os temas que lhe interessam - e tal incapacidade segue até mesmo aos centros de formação profissional, às universidades e aos centros de pesquisa.

Não raro o que vemos nas escolas particulares é a mercantilização da economia, que leva aquelas instituições à uma formatação de seus currículos para atender às demandas do vestibular, à comodidade dos alunos ou às exigências dos pais, sem que nenhuma dessas coisas tenha relação direta com objetivos didático-pedagógicos maiores. Nas escolas públicas brasileiras, o fenômeno é o inverso: cada governo faz do ambiente escolar um laboratório para suas teorias pedagógicas, sem qualquer rendição a um plano maior de educação, algo que fosse suprapartidário e de previsão que abrangesse um projeto de décadas para o reerguimento do ensino no país; vê-se, sim, muitas ações demagógicas, como o fim da reprovação nas escolas e o conseqüente aumento no número de vagas e de crianças atendidas, sem que haja qualquer contrapartida em termos de qualidade de ensino; o resultado é o enorme número de analfabetos funcionais do Brasil, gente que passou pela escola mas nada aprendeu dos conteúdos mais básicos que se esperaria levar de uma escola ao término de quatro a oito anos de escolaridade: ler, escrever, compreender o que foi lido e escrito. Mas nossas crianças estão na escola, nossa rede pública aboliu o fantasma da reprovação e nossos votos retornarão nas eleições seguintes: isso é o que parece importar aos nossos governantes.

Que esperar de uma geração que vê o plágio como um direito de privacidade a ser preservado, de um corpo discente que toma a cola como um traço de nacionalidade a ser defendido ou de um professor universitário que proclama a cola como uma “manifestação de liberdade de aprender do aluno”? O contraponto aos que combatem idéias como estas é sempre o mesmo e primário “quem nunca colou na escola?” - mas estamos a falar de situações institucionais, de pronunciamentos oficiais de instituições, entidades e seus representantes que estão envolvidos plenamente com atividades de formação em nível superior, e não de uma discussão pueril sobre quem colou ou não colou no ginasial. E não se pode conceber a cola, a fraude, o plágio, a contratação de terceiros para escrever monografias e dissertações, o download de resumos e resenhas de livros na rede mundial de computadores como pesquisa científica ou acadêmica. Ou será reacionário e antidemocrático demais pensar que a cola, o plágio e as diversas fraudes ofertadas em jornais e na Internet são práticas a serem combatidas no ambiente escolar?

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