Onde você guarda o seu preconceito?
Há alguns dias li, algo incomodado, as declarações da autora do conto “Brokeback Mountain”, que deu origem ao filme homônimo, sobre as razões pelas quais a Academia de Artes e Ciências e Hollywood deu a Crash, e não a Brokeback Mountain - grande favorito da noite - o Oscar de Melhor Filme de 2005. Annie Prouxl, a escritora de setenta anos e vencedora do prêmio Pulitzer, na manhã seguinte à premiação, perdeu a elegância chamando de Trash (em inglês, “lixo”) o concorrente do filme baseado em seu texto, e acusou a Academia, ou seja, seus membros votantes, por terem escolhido um “filme controverso mais fácil de engolir”, atribuindo a derrota do excelente filme de Ang Lee a um provincianismo de Hollywood que “remete aos shows de talento das cidadezinhas do interior de onde a maioria das estrelas hollywoodianas vieram um dia”. Como não havia assistido ainda a Crash, limitei-me a armazenar na memória a manifestação algo revoltada de Prouxl e esperar pela oportunidade de ver o filme vencedor do Oscar para, então, tirar minhas conclusões.
Ontem assistimos, eu e minha esposa, ao filme do diretor canadense Paul Haggis e a verdade é que esta produção, Crash, é um filme bem mais ousado e corajoso que Brokeback Mountain - o qual, é preciso reconhecer, tornou-se um marco por atingir tamanho público mundialmente e obter tanta visibilidade para uma história de amor entre dois homens, algo jamais visto na história do cinema. A maior ousadia de Crash, um filme independente cujos custos foram levantados entre alguns de seus atores e o próprio diretor, é abordar o tema dos ódios raciais existentes nos Estados Unidos da América - e, por que não dizer, em todo o mundo, em menor ou maior grau - sem o filtro perverso do politicamente correto. Não há, no filme, qualquer medo do diretor e roteirista de ir até os limites das conseqüências funestas dessa rede de rancores e esteriótipos nem sempre tão fáceis de reconhecer.
O filme conta a multifacetada história de um grupo de pessoas de diferentes etnias convivendo em uma Los Angeles de todos os povos e de ninguém; o enredo abrange um dia na vida daquelas pessoas, no qual suas histórias se entrecuzam e vão tomando forma ao longo do filme, construído no formato de “colcha de retalhos” tão ao gosto de outro oscarizado de 2005, Robert Altman, ganhador do prêmio honorário pelo conjunto de sua obra. Mas a grande diferença do trabalho de Haggis para outros similares - De Prêt-à-Porter a Pulp Fiction, de Traffic a Magnólia - é que as situações mostradas em cada excerto são tão reais, tão passíveis de encontrar similares em nossas próprias vidas, que o envolvimento do público é completo e o filme prende a atenção até o último minuto, com direito a diversos momentos de clímax ao longo da trama.
Também não há no roteiro do próprio Paul Haggis, escrito em apenas duas semanas, nenhum limite para o que se diz; transpôs-se para a tela a verdade dos diálogos que presenciamos na vida real, quando o nosso racismo oculto brota nos momentos de crise ou medo, ou quando o escondemos a bem das aparências, ainda que pouco se consiga oclusar de tais preconceitos contra as minorias.
O filme, que não tem papéis de destaque, reuniu um elenco de famosos dentre os quais Sandra Bullock (em um diminuto papel), Don Cheadle (do ótimo “Hotel Ruanda”), Matt Dillon, Brendan Fraser, Thandie Newman e Jennifer Esposito. Estrelas de filmes de sucesso em Hollywood, eles foram essenciais para o bom andamento do filme, segundo o diretor, por aceitarem papéis pequenos mas que traziam cenas capazes de “macular uma carreira” ou “revirar o estômago” (não, não há cenas escatológicas no filme; apenas o diretor compartilha da minha crença de que ainda há pessoas bastante no mundo que se enojam diante do preconceito e do racismo).
Em uma entrevista dada à época do lançamento do filme no Festival de Toronto, Jennifer Esposito disse que o roteiro a atraiu por ser “muito humano” e alertar-nos para o fato de que “você nunca sabe de onde as pessoas vêm ou para onde elas vão; precisamos ter mais tolerância para com as outras pessoas”. Seu comentário chamou-me a atenção por retratar bem uma das melhores facetas de Crash: não há heróis ou bandidos, pessoas que são sempre boas ou sempre más naquela história; o mesmo policial que abusa libidinosamente de uma cidadã em uma batida policial irá mostrar-se um herói em cenas seguintes; seu colega, que pede para deixar de ser seu parceiro após presenciar aquela cena de abuso e racismo, mostra-se também detentor de preconceitos que o levam a cometer um ato impensado e doloroso; há vários outros personagens que assim também se apresentam, e a impressão que fica é a de que o diretor está a nos conduzir por uma experiência semelhante àquelas que vivemos na vida real, quando julgamos as pessoas pela aparência e dali deduzimos todo um mundo de suposições errôneas, de preconceitos sem justificação.
O filme mostra, enfim, que todos nós guardamos nossas idéias pré-concebidas sobre nossos semelhantes. Como sugeria uma campanha publicitária recente sobre o tema, já não cabe em nosso tempo a pergunta sobre se somos racistas ou não, mas sim onde guardamos o nosso racismo, o nosso preconceito. Ele existe, sempre, em menor ou maior grau, com potencialidade menor ou maior de causar transtornos, dor, danos irreparáveis até. Segundo o diretor, Crash não tem a intenção de ser ”um filme inteligente”, mas, isto sim, de mostrar que “você pensa que sabe quem você é, você tem uma idéia de quem é até que é levado a viver um momento de crise; o modo como você se comporta em uma situação como esta é o que dita quem realmente você é”.
O mais curioso é que, diante de toda a rica “colcha de retalhos” mostrada no filme, na qual todas as minorias estavam representadas com seus preconceitos e reservas em relação às demais (e nenhuma é popuada), ainda há pessoas que conseguem sair do filme sem nada aprender… Ouvi de uma jovem espectadora, logo atrás de nós, no momento em que nos levantávamos para sair ao final da sessão, o seguinte comentário dirigido ao seu acompanhante:
- Nossa, você viu como os negros lá são preconceituosos?
Concordo que os negros são sim vitimas de grande preconceito, mas o filme em si mostra não só o preconceito, mostra também o ser humano no auge de seu limite, ou seja, do que somos capazes. Ele mostra muito mais do que o preconceito racial, o abuso de autoridada entre outros.
Tenta passar ao espectador a chance de esperimentar levar em conta o que se passa por tras de algumas atitudes tomadas em nosso dia a dia. Embora eu concorde com a moça sentada logo atras de você. O preconceito já tomou conta sim da mente não só dos negros mais também de uma grande maioria que se encaixam na exclusão social por motivos de religião, situação econômica…
atenciosamente.