O Segredo do Futuro
Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo
como se estivesse por vir com toda a certeza,
nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais.
(Epicuro, em sua “Carta sobre a Felicidade”,
tradução de Álvaro Lorencini e Enzo del Carratone)
Não há porque tentar encontrar uma resposta, tampouco há porque desistir de compreender este enigma dos enigmas na vida de todos os homens do mundo: o sentido da vida. Por decifrá-lo, conduzimos nossa existência entre inúmeros percalços, erramos os erros mais pueris e lutamos pelas causas menos nobres, mas quase tudo o que malfazemos em nome dessa busca parece-me, ao final da jornada, ser válido e educativo, tanto o mal quanto o bem, o amor - mesmo o mais leviano - e o ódio - sempre insensato e inexplicável pela razão mais pura.
Também sofro, erro e luto por causas passageiras nessa procura por respostas que, enfim, talvez sejam as que satisfariam a outros, mas que não me servem a mim.
Pergunto-me se não estaríamos cometendo o mesmo deslize que nos leva à incompreensão da palavra futuro. Como tão bem expressou o filósofo grego Epicuro de Samos, cujo desterro de seus pais daquela ilha faria com que o jovem deixasse a Atenas dos filósofos mais renomados e conhecesse seu mentor Nausífanes, de quem herdaria o prazer das coisas simples, o futuro precisa ser visto com os olhos de quem nele não deposita esperanças ou temores. O tempo futuro é, enfim, uma conseqüência natural do que vivemos no presente, este momento na linha dos acontecimentos que jamais, de fato, conseguiremos definir, volátil e instantâneo, a fugir de qualquer explanação metafísica. Que são, então, passado, presente e futuro senão pequenas ficções que criamos na tentativa vã de mensurar nossas existências?
Epicuro, que repelia com veemência qualquer pensamento fatalista ou determinista, pregador que era da soberania da vontade humana e da liberdade individual sobre as ocorrências do mundo material. E para o filósofo que influenciaria nomes como Sêneca e Cícero, a crença no valor da consciência moral dos homens a sobrepujar o destino é que faz com que vejamos a morte, “o mais terrível de todos os males, [como] um nada”, já que “quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos”. Reconhecer a morte como este nada que nos amedronta e, por vezes e para alguns, fascina, é tirar de nossos ombros metafísicos o peso de males que não existem.
Talvez nisto resida o grande mistério da existência: buscar uma aceitação da vida como a vitória sobre a morte, da qual alguns fogem “como se fosse o maior dos males” e outros “desejam como descanso dos males da vida”. E a vida vence a morte justamente quando conseguimos conduzir nossos atos sem que as ações remetam a um momento futuro no qual nada mais existirá, onde somente as impossibilidades existam - enquanto deixamos passar por nós todo um mundo de múltiplas, infinitas possibilidades.
E o que é o futuro senão o portal dessas possibilidades todas que ainda hemos de construir?