O melhor e o pior de Marisa Monte
Marisa Monte iniciou seu mais novo álbum, Infinito Particular, com um verso ousado, quase uma provocação aos que sempre a criticaram por diversas razões - das musicais às mais prosaicas:
Eis o melhor e o pior de mim é a primeira frase que a voz sempre perfeita da cantora entoa na faixa-título, “Infinito Particular”. Está ali o melhor e o pior - o que a fez um sucesso de público e de boa parte da crítica e também motivo de repúdio de outra grande fatia da nada complacente crítica musical brasileira.
A cantora carioca sempre foi a dona de sua carreira tão particular, indo contra quase todos os esquemas que rondam a indústria fonográfica: não aparece em programas de televisão, não usa sua vida particular para angariar espaço na mídia ou promoção para sua música, só concede entrevistas sobre sua música e seus discos (e, mesmo assim, como parte dos trabalhos de divulgação de seus álbuns), não se rende aos modismos de ocasião na escolha de seu repertório e, o que é mais incomum, não se esforça por gravar um álbum por ano sob o temor de ser esquecida por seu público. Ainda assim, as críticas sempre a cercaram, mesmo que indo na contramão das vendagens sempre positivas e dos espetáculos sempre lotados. Seus discos, aliás, são de sua inteira responsabilidade, da capa à escolha dos músicos, e sequer sobre os originais a gravadora tem direito; há, isto sim, uma concessão de distribuição que vale por um determinado período de tempo, algo raríssimo no mercado fonográfico brasileiro, em que os artistas são, em geral, explorados por suas gravadoras e pressionados, muitas vezes, a buscar o sucesso fácil que lhes traga retornos financeiros mais garantidos. Ainda assim, Marisa Monte sempre foi alvo de críticas diversas.
Recordo-me que quando do lançamento de sua carreira, no longínqüo ano de 1988, Marisa Monte foi acusada de ser um produto da griffe Nelson Motta, produtor musical que descobriu a cantora na Itália e alavancou seu início de carreira, produzindo um espetáculo no JazzMania do Rio de Janeiro intitulado Tudo Veludo. Diziam os críticos de então que Marisa Monte não resistiria muito tempo, já que seu álbum era totalmente formado por regravações, um experiente usado, segundo eles, pelos “novas vozes femininas da MPB” que surgiam então. Logo em seguida, a imprensa carioca engendrou uma suposta disputa entre Marisa Monte e uma nova cantora gaúcha que despontava no cenário musical do Rio de Janeiro, Adriana Calcanhoto - que também sofreu as mesmas insinuações de estar se ancorando em um “repertório de regravações”…
Daí veio “Mais”, o segundo álbum de Marisa Monte, no qual foram registradas algumas das primeiras experiências dela como compositora, e as críticas foram inúmeras às suas canções algo inovadoras - mas logo se calaram ante a evidência vinda do estrangeiro: Mais era incluído em importantes publicações de música nos Estados Unidos da América como um dos cem melhores álbuns de jazz e MPB da história. Três bem sucedidos álbuns-solo depois - Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão, Barulhinho Bom e Memórias, Crônicas e Declarações de Amor -, veio o estrondoso êxito de seu trabalho de estúdio ao lado de Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes - o álbum Tribalistas -, um projeto que não teve o apoio costumeiro das turnês e entrevistas, e que foi criticado por alguns jornalistas como sendo “hermético” e “desconexo”, mas se tornou um dos grandes momentos da música popular brasileira recente, com grande aceitação popular.
E então Marisa Monte, depois de mais de cinco anos sem lançar um álbum-solo, decide presentear o público com duas preciosidades: “Infinito Particular”, um disco extremamente autoral, no qual todas as faixas são composições suas em parceria com nomes conhecidos de nossa MPB; e “Universo ao Meu Redor”, inteiramente dedicado à atmosfera do samba carioca, reunindo composições próprias e algumas pérolas de nomes como Paulinho da Viola, Dona Ivone Lara, Jayme Silva, Argemiro Patrocínio, Casemiro Vieira e até mesmo um samba esquecido dos Novos Baianos, que não teria entrado no repertório final de seu antológico álbum “Acabou Chorare”, de 1969. O primeiro álbum é intimista, pacífico, com sonoridades e versos que remetem ao momento presente da vida da cantora - que engravidou e deu à luz um menino no decorrer das gravações e lançamento do álbum Tribalistas;
o segundo álbum é uma bela homenagem da cantora ao universo do samba carioca, quase um resgate histórico de uma certa sonoridade do ritmo essencialmente brasileiro que andou sendo abandonada por toda uma geração de pagodeiros e sambistas bissextos…
É bem verdade que Infinito Particular não é um disco empolgante, no sentido de não motivar mais que um sentimento contemplativo no ouvinte - não há ali, por exemplo, o entusiasmo de “Já Sei Namorar” -, mas a todo momento parece que este é o exato estado de alma ao qual a cantora deseja levar seu público - e isso ela consegue com maestria. Universo ao Meu Redor é uma deliciosa mistura de sambas clássicos com novas composições, todas dentro de uma proposta sonora que é bem própria de Marisa Monte e, por isso, beirando à perfeição ao fazer uso dos talentos de alguns dos melhores músicos em suas especialidades - de Paulinho da Viola a Marçal, de Jacques Morelembaum a Cézar Mendes. Talvez aí resida o melhor de Marisa Monte: sua autenticidade, seu respeito às tradições e sua capacidade de reinventá-las sem destruir sua essência - quer seja em suas canções pop de forte raiz brasileira, quer seja nestes sambas de maravilha que sempre pontuaram sua carreira, em seus diversos momentos (quem não se lembra de sua regravação de “Preciso me Encontrar”, de Candeia, já no primeiro álbum, de “Ensaboa”, de Cartola, no álbum Mais ou da magníica “Dança da Solidão”, de Paulinho da Viola, em Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão?).
A crítica - a mesma que no início de sua carreira quis desenhar um confronto entre Marisa Monte e Adriana Calcanhoto, que hoje assina duas composições nos álbuns da cantora carioca, uma delas em parceria com a própria Marisa - deve se esforçar por tecer mil comparações distintas entre este e aquele álbum, comentando suas posições no ranking de vendas e depreciando este ou aquele modo tão particular de Marisa Monte fazer música popular brasileira de qualidade, inovadora e moderna sem ser um sem-sentido de frases soltas ou de agressividade gratuita…
O pior de Marisa Monte? Creio que é ter que esperar para vê-la ao vivo, quando todo o encantamento de seus álbuns de estúdio ganha novos e esplendorosos sentidos.