Friday, March 17, 2006

A cada um o que é seu

Justitia est constans et perpetua voluntas jus suum cuique tribuendi.
“A justiça consiste em dar a cada um o que é seu.”
(Domiciano Ulpiano, jurista romano, 150-228DC)

O movimento estudantil de 1968, as lutas de resistência aos abusos da ditadura militar dos anos 1970 e as manifestações pró-diretas e pró-impeachment das décadas de 1980 e 1990 deixaram no Brasil como herança um estranho amor ao enfrentamento. Para uma parte considerável de nossos intelectuais - ainda existirão no país? -, jornalistas e pensadores em geral, parece existir uma desconfiança atávica em relação à democracia representativa e às instituições da República, um sentimento que encontra justificativa nos anos difíceis que viveram no passado, quando a liberdade de expressão e de defesa de suas idéias era um direito pouco respeitado e as instituições públicas pareciam apenas corroborar com a injustiça vigente.

Contudo, os tempos são outros, a liberdade voltou a ser um valor essencial em nossas instituições e a justiça, em que pesem nossa legislação retrógrada e desatualizada, é um estado de coisas passível de ser alcançado pelas vias da lei. Mas a desconfiança parece persistir e muitos desses homens estudados e cultos caminharam, em contrapartida, pelas veredas do apoio intelectual à “luta popular”. Para eles, a vontade do povo nasce não das urnas, mas de confrontos diretos como os capitaneados por movimentos sociais como o Movimento dos Sem-terra (MST) e outros tantos do mesmo viés ideológico.

Como alerta Bolívar Lamounier em um artigo intitulado Eles, que odeiam tanto a política (publicado na revista Primeira Leitura, edição de fevereiro de 2006), o meio acadêmico brasileiro começa a difundir com maior freqüência idéias como a de “refundação da democracia” ou de “radicalização das causas sociais”, que se fundem com a noção de que a democracia representativa seria “morosa e incapaz de concentrar esforços” em prol do bem comum. Se antes o “impedimento principal [era] o eleitor”, visto como incapaz de votar corretamente, ultimamente “o ceticismo voltou-se contra os partidos políticos e o Legislativo”, diz Lamounier. Tenta-se até mesmo, a cada eleição, levantar suspeitas contra a urna eletrônica - e isso tudo em um país com eleições organizadas, ordenadas e honestas como são as nossas, exemplo já seguido - e copiado - por vários países do mundo.

Há quem pregue inclusive o fim do Poder Legislativo, que passaria a ser exercido pelo povo de forma direta, por meio de plebiscitos, referendos e iniciativas populares - uma idéia que, para seus ideários, viria juntamente com um governo central fortalecido e formado por elites técnicas e capazes de efetuar e consolidar planejamentos a longo prazo para o país. A contar do recente plebiscito realizado no Brasil, há que se perguntar se tal ferramenta é mesmo capaz de substituir o papel do Poder Legislativo - ainda que os brasileiros em geral questionem tantos aspectos do funcionamento do atual parlamento.

Mas que futuro poderíamos esperar de um país governado pelo confronto aberto entre o povo e seu governo? Uma pequena amostra já é observada no Brasil há tempos, por meio das ações do supracitado MST. Fazendas são invadidas, construções e maquinário em seu interior são destruídos, animais são abatidos para alimentar os invasores e nada é feito pelas autoridades policiais ou políticas para que tais práticas sejam contidas ou coibidas. Há, sim, todo um teatrinho de negociações entre os governos e tal grupo que deliberadamente não tem sequer existência jurídica, para evitar responsabilizações futuras pelos crimes que cometem; e o resultado tem sido sempre o mesmo: o movimento, cuja representatividade da classe que dizem defender é questionável, sempre recebe algum benefício, seja em financiamentos, novas terras ou mesmo espaço na mídia, que em geral defende o MST abertamente. A adoção de tal “democracia direta” talvez motivasse também os produtores rurais a organizar ações de invasão, digamos, a acampamentos dos sem-terra, mas qual seria então o resultado? A cada um o que é seu, diz um princípio basilar da justiça. Mas como se pode definir qual o melhor, o mais justo, o mais meritório dos lados de uma contenda deflagrada por grupos populares antagônicos?

A participação popular direta parece impensável em um país de dimensões enormes como o nosso. Pior ainda é imaginar que há os que pregam que o melhor caminho para a prevalência da vontade popular é o do confronto, da luta ideológica e da radicalização.

Posted by Frizero at 02:56:38
Comments

3 Responses to “A cada um o que é seu”

  1. Luca Fragozo says:

    Prezado companheiro Frizero,
    Parabéns pelos seus artigos bem escritos, com uma temática interessante e uma abordagem precisa.
    Entrarás para a minha lista dos “colunistas” que merecem ser lidos freqüentemente.
    Quanto ao MST, há muito tempo deixou de ser movimento social para ser um movimento organizado de posseiros, aproveitadores e covardes. Utilizam massas de miseráveis para legitimar suas ações , cobrando dízimo pelas ações bem sucedidas e utilizando uma ideologia ultrapassada como pano de fundo político. Por que não se educam esses mesmos miseráveis, profissionalizando-os (com as novas tecnologias do campo), apresentando-os a métodos de planejamento familiar e controle de natalidade, enfim (já que o pano de fundo é vermelho…), fazer como pregava MAÓ-TSÉ ” ensinar a pescar….”
    Um abraço,
    Fragozo.

  2. Lang says:

    O MST, é uma quadrilha, nos moldes previstos pelo código penal brasileiro. Grupo de três ou mais pessoas que se reunem para cometer crimes. Quadrilhas não têm personalidade jurídica, não têm CNPJ e mesmo assim são combatidas pela justiça. Logo vemos que a tolerância com o MST é uma escolha, que demonstra o desinteresse, despreparo e cumplicidade dos nossos governantes e por tabela, do nosso povo. Em resumo nós merecemos o MST pois votamos mal no dia 3 de outubro e somos covardes nos outros 364 dias…

  3. Frizero says:

    Confesso que antes de escrever este texto não havia tomado conhecimento por completo dos acontecimentos no laboratório da Aracruz no Dia Internacional da Mulher - a destruição do laboratório e das lavouras, que um repórter da televisão local mostrou, em uma reportagem investigativa, terem sido planejados em outubro de 2005 em reuniões internacionais da Via Campesina. Foram vinte anos de pesquisas que foram arruinados em nome de uma causa que, ainda que para alguns seja legítima, é revestida pelo descaso à ordem legal do nosso país. Para os que levaram à cabo tal manifestação e para seus defensores, trata-se tão-somente de uma “questão simbólica”. No Rio Grande do Sul, palco desta “manifestação”, já ocorreram outros ataques “simbólicos”, sendo o mais famoso a destruição de lavouras destinadas à pesquisa de transgênicos pela empresa Monsanto. O curioso é que o mesmo movimento, que reclama das faltas de pesquisa sobre o efeito dos transgênicos e dos eucaliptos no meio ambiente, destrói laboratórios e exemplares que poderiam ser usados para responder tais reivindicações - de efetuar pesquisas sobre o tema.

    Mas, enfim, nas palavras de Rafael Alegria (que nome irônico!), hondurenho coordenador da Via Campesina, o povo do Rio Grande do Sul precisa “compreender que [a Via Campesina] está defendendo a terra, a água e o ambiente” e que “a violência gerada pela exclusão social é muito maior” - ou seja, o fato de vivermos em países com enorme exclusão social é justificativa para desrespeitar a lei, a propriedade, o direito à ciência que pode beneficiar tantas pessoas. Para Dom Orlando Botti, bispo católico ligado à Pastoral da Terra, a ação na Aracruz precisa ser analisada sobre diversos aspectos, “e o último deles é o dos prejuízos materiais”. Usando as palavras do bispo e do líder da Via Campesina, poderemos amanhã estar defendendo a invasão de supermercados e a destruição de universidades que promovam cursos que apóiem o “neoliberalismo”, por exemplo…

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