Wednesday, March 15, 2006

Os Senhores da Guerra

 

“Lá fora estão os Senhores da Guerra,
cantam já hinos de vitória.
Já não há memória
de paz na terra.”

(Os Senhores da Guerra,
canção do grupo português Madredeus.)

Há que existir uma razão maior para que o governo de George W. Bush, atual presidente dos Estados Unidos da América, use a guerra como carro-chefe de sua gestão. O filho de George Bush, que quando presidente, em 1990, deflagrou a chamada “Guerra do Golfo” em defesa do invadido Kwait, parece não saber governar sem a fumaça escura de uma nova ameaça de guerra a surgir no horizonte.

Desta feita, o governo estadunidense está a lançar uma campanha financeira, diplomática e política com o intuito de desestabilizar os líderes políticos e religiosos iranianos alinhados com a nova gestão de Mahmoud Ahmadinejad, o descontrolado presidente daquele país, que já em seu discurso de posse teceu ameaças e provocações aos Estados Unidos e a outros países ao falar do desejo do Irã de retomar seu programa nuclear e construir armas de destruição em massa. Os EUA, além de pressionarem o Conselho de Segurança da ONU para que tome medidas coercitivas contra o Irã de Ahmadinejad, falam também em fortalecer a presença diplomática dos EUA nos países vizinhos ao país que um dia foi berço do Império Persa. Contudo, a intenção não é pacífica: os EUA usariam esta nova situação para fortalecer e financiar a oposição e a sociedade civil iraniana, ações que seu governo não considera questionáveis, já que, nas palavras do próprio presidente Bush em discurso feito no início de março de 2006, “o Irã é um dos países que promove o terrorismo no mundo”; na ocasião, ele acusou o exército daquele país de fornecer explosivos usados no Iraque em atentados contra tropas norte-americanas. E contra o terror tudo é justificável aos olhos do chamado “Patriot Act”, a lei norte-americana anti-terrorismo - até mesmo interferir na política interna alheia.

Em que pese o desejo de boa parte do mundo ocidental de que os regimes teocráticos - caso do Irã - se pacifiquem (ou pereçam de uma vez por todas, dando lugar a salutares regimes seculares e com total liberdade de culto), as medidas anunciadas pela imprensa estadunidense enchem-nos de medo, pois parecem roteiro de um antigo filme muitas vezes já visto naquela região. Afinal, Saddan Hussein chegou à presidência por meio de estratagema semelhante feito pelo governo dos EUA na década de 1980, com o mesmo intuito, o de derrubar o regime vigente no Irã. Anos mais tarde, o mesmo Hussein, tornado ditador pelo poder militar emprestado pelos EUA, viria a causar problemas com seus sonhos de expansão territorial e sua sede de poder. Desta feita, os EUA já teriam aprovado cerca de US$ 75.000.000,00 (setenta e cinco milhões de dólares) que gentilmente serão cedidos a ONGs, partidos de oposição e rádios iraquianas no exílio para diversas ações anti-governo no Irã.

Para os que observam tais movimentos de um ponto distante do tabuleiro de xadrez das relações internacionais, parece que Bush tenta reavivar seus índices internos de aprovação (em fevereiro de 2006, foram inferiores a quarenta por cento), algo minados com o insucesso da invasão iraquiana em restabelecer a paz na região - ainda que seja exagerado falar na existência de uma “guerra de resistência do povo iraquiano” à ocupação estadunidense. Em verdade, quanto mais nos afastamos na memória do famigerado onze de setembro, mais a população estadunidense está a se perguntar sobre o verdadeiro sentido de uma guerra mantida a peso de ouro no território de um país que ela mal sabe onde se localiza no mapa-múndi.

E, no entanto, os Estados Unidos planejam, novamente, derrubar um governo através do financiamento de supostos “rebeldes”. Não percebem tais autoridades que o problema daquela região reside em questões religiosas e étnicas que não serão solucionadas, infelizmente, à boca da urna. Sunitas seguirão votando em sunitas, xiitas em xiitas, curdos seguirão sendo oprimidos por ambas as correntes religiosas e políticas.

Enquanto isso, os Senhores da Guerra começam a se articular para obter do Conselho de Segurança da ONU o que os EUA não puderam obter por ocasião da invasão do Iraque: permissão para uso da força militar caso o Irã se recuse a interromper seu programa de enriquecimento de urânio. Autorizados pela ONU, os EUA poderão, com mais propriedade, solicitar a cooperação militar dos demais países da organização e operar sob o confortável manto da “ocupação permitida” em “defesa da democracia no mundo”.

É difícil julgar méritos em uma questão como esta, na qual se contrapõem dois presidentes, Ahmadinejad e Bush, que usam o palanque presidencial como plataforma eleitoreira estendida, defendendo (e executando, eventualmente) suas teses radicais na tentativa de angariar simpatias dos seus seguidores e eleitores. Ambos têm razão e guardam razão nenhuma. Resta apenas a certeza de que entre os Senhores da Guerra não há perdedores: os que mais perdem somos sempre nós, que aguardamos à distância o destino do mundo ser traçado pelas vaidades e pela cegueira de ambos os lados dessa estúpida contenda.

Posted by Frizero at 01:53:23 | Permalink | Comments (2)