Fastio, apetite e vontade
Este texto é dedicado, no dia de seu aniversário,
à minha amada esposa, a melhor professora que conheço
e que tanto me ensinou sobre o prazer de ensinar, o dom de perdoar
e a alegria de servir, de amar e de ser amado com sinceridade.
Há os que façam uma interessante analogia entre a mágica alquimia das cozinheiras e a tarefa de ensinar. Para eles, a arte de misturar tão distintos ingredientes de modo a preparar um prato que seja convidativo aos olhos e delicioso ao paladar aproxima-se da tarefa de um professor em sala de aula, qualquer que seja o tipo de disciplina e o nível de escolaridade dos alunos a quem deva servir. Pelos anos de experiência e, o que é mais importante, pelos diversos experimentos que estiveram a fazer ao longo de sua prática culinária, errando e acertando e desenvolvendo novos pratos, é que as cozinheiras constroem sua capacidade de sedução e de gerar em nós novos prazeres sensoriais. Assim também seriam, crêem alguns, os professores.
Sendo um cozinheiro bissexto, e um professor que ainda tem muito o que aprender em seu ofício de ensinar, confesso que a analogia com aquelas mestras do sabor é inspiradora, mas me parece algo distante de atingir. Sei o quanto ainda tenho a praticar para alcançar a confecção de pratos mais sofisticados e atrativos; assim também me sinto em relação à minha atuação como professor. Por isso, gostaria de compartilhar uma pequena confidência para, a partir dela, buscar uma nova analogia que seja mais confortável para mim e, creio eu, para outros colegas que começam na tarefa nobre de transmitir conhecimentos.
Gosto muito de agradar meus amigos e as pessoas que mais amo preparando os poucos pratos que tenho em meu repertório de chef amador - e já descobri até mesmo algumas especialidades. Mas nem sempre a correria da vida me permite cozinhar para os amigos, e quando chegam de última hora, ou sem um aviso com muita antecedência, algumas visitas, já ocorreu a mim e à minha amada esposa recorrermos a um estratagema simples, mas eficiente: vamos até uma padaria próxima de nossa casa e compramos um bonito bolo para servir às visitas.
Para mim, a tarefa de ensinar assemelha-se a servir um “bolo de padaria”.
Imaginemos que este “bolo” é uma junção dos conteúdos que nos dispomos a transmitir aos alunos e de nosso conhecimento prévio, sobretudo o que nasceu de nossa prática nos estudos e atuação direta naquele tema. Entenda-se que a idéia de usar a imagem do “bolo de padaria” não significa que a educação é algo que está pronto e é aplicável a todos; antes, a intenção é mostrar que o conteúdo e o conhecimento nosso sobre o que será aos alunos transmitido são elementos pré-existentes ao processo ensino-aprendizagem e ao momento pedagógico de sala de aula e, portanto, um “bolo” que já nos chega preparado anteriormente por mãos mais habilidosas que as nossas: as dos pesquisadores, teóricos e mestres que nos antecederam na construção daquele saber específico.
Mas, como tornar este “bolo de padaria” algo atraente? Retomando minha pequena confidência, eu e minha esposa costumamos “melhorar” o bolo com o que estiver ao nosso alcance: molhá-lo com um pouco de suco de laranja ou cobri-lo com uma calda de chocolate, enfeitá-lo com uns confeitos ou banhá-lo com grãos de açúcar… Podemos, decerto, servir o bolo do jeito que ele vem da padaria, mas para alguns a visão pode não ser das mais apetitosas e nós, lá em casa, preferimos fazer alguma coisa a mais para que a nossa oferta de um pedaço daquele bolo, agora confeitado com capricho, seja irresistível.
Em sala de aula não é diferente. Podemos oferecer o “bolo de padaria” dos conteúdos daquela específica disciplina do jeito que os recebemos - secos, sem esforço algum para cativar os olhos e a “gula” dos alunos por aquela fatia do saber. E será tolice imaginar que nenhum aluno irá querer um pedaço desse bolo sem confeitos: há sempre os que têm fome, e que comerão o que oferecermos, qualquer que seja a forma que lhes for apresentado o alimento: são os alunos que já trazem para a sala de aula tamanha motivação por aprender aquele conteúdo, que o pouco que lhes é oferecido será sempre o suficiente - e não será espantoso se alguns ainda buscarem mais daquele saber para se alimentar, mesmo que nada tenhamos colocado no “bolo” para enobrecê-lo. Mas há os alunos que precisam ser convencidos de que aquele “alimento” merece ser degustado, e para esses não adianta dizer que “bolo é nutritivo”, que aquele conhecimento é importante para ele: é preciso convencê-los disso, despertar-lhes o “apetite” para o saber que se oferece. “Calda”, “confeitos”, “cobertura” - que podemos entender nesta metáfora como sendo as técnicas de ensino, a metodologia, a empatia com os alunos, a motivação pessoal, os objetivos claros de cada ação pedagógica e a atualização constante -, tudo é válido para atiçar o paladar desses alunos mais exigentes.
Há, ainda, os alunos que estão “enfastiados” e recusam-se sequer a experimentar daquele “bolo confeitado” que lhes é oferecido - e que você, professor, preparou com tanto carinho e cuidado. O que fazer? Minha experiência como anfitrião fez-me ver que é melhor não forçar o pedaço de bolo goela abaixo de seus convivas; deixe que eles vejam os outros colegas servindo-se com gosto da iguaria que você está a servir e, quem sabe, o apetite - ou mesmo a curiosidade - crescerá neles ao ponto de eles pedirem para “provar só um pedacinho”…
A culinária e a educação são ofícios-irmãos na arte de abrir os sentidos alheios a novas experiências, a novos mundos de sabor e saber. E cabe a nós, professores, caso ainda não dominemos a alquimia dos grandes cozinheiros, elaborar a melhor maneira de apresentar o conhecimento que em nossas mãos foi depositado um dia de forma a deixar nossos alunos com”água na boca” para seguir aprendendo mais e mais.