A Melhor Direção
Escrevo estas linhas apenas dez minutos antes do início da cerimônia de entrega do Oscar, o prêmio da Academia de Artes e Ciências de Hollywood ao qual tanta gente adora desprezar. O fato é que a indústria cinematográfica estadunidense é a mais importante do mundo (e ela merece minha admiração por assumir seu papel de indústria, produzindo filmes para as massas, de puro entretenimento, que permitem a realização de filmes menores, mas preciosos, ao contrário do que ainda vivemos no cinema brasileiro, que parece ter vergonha de divertir seu público) e o prêmio mais cobiçado daqueles grandes estúdios é, inevitavelmente, o mais importante do panorama cinematográfico mundial, abrindo portas para profissionais competentes de várias nacionalidades e revelando talentos. Decerto os jornais da semana trarão as contestações de sempre, apontando injustiçados e denegrindo a cerimônia como algo “cafona” e “longo” - mas muitos irão assistir, mesmo assim, nem que seja apenas para criticar. Tornou-se moda no Brasil desdenhar o Oscar, o cinema americano e, enfim, tudo o que venha dos Estados Unidos da América e não seja os documentários desairosos ao “American-way-of-life” ou os discursos não-lingüísticos de Noam Chomsky…
Faltando agora cinco minutos para o início da cerimônia, tomarei a liberdade de fazer uma única referência à possível injustiça que assistiremos na entrega do Oscar deste ano. Posso estar enganado, mas creio que o ano de “Brokeback Mountain” vai se encarregar de tirar das mãos de um dos melhores diretores de cinema de todos os tempos mais um merecido prêmio. Falo de Steven Spileberg e de seu filme mais corajoso e bem dirigido, “Munique”, um grande drama daqueles que prendem os olhos do espectador à tela do início ao fim. O argumento do filme é conhecido, tanto quanto aquelas famosas imagens, para os nascidos nas décadas anteriores a 1970, que Spielberg reproduz sem exageros, quanto pela grande divulgação que antecedeu o lançamento do filme: nas Olimpíadas de 1972, um grupo de palestinos de um comando terrorista auto-intitulado “Setembro Negro”, invadiu e fez reféns um grupo de atletas israelenses, pedindo a libertação de trezentos árabes de diversas nacionalidades, acusados de envolvimnto em atos terroristas, em troca dos esportistas; o desfecho trágico do seqüestro leva o governo israelense a promover uma operação secreta de caçada aos organizadores e mandantes do atentado à vila olímpica de Munique. Mas Steven Spielberg, o gênio de filmes escapistas como “E.T. - O Extraterrestre” e de dramas profundíssimos como “A Cor Púrpura”, aborda em seu filme não os acontecimentos de Munique, mas o desenrolar das operações levadas à cabo por um grupo de ex-agentes do Mossad, trabalhando desvinculados àquele órgão de Inteligência israelense - e é nessa escolha arriscada que o diretor estadunidense de origem judia acerta o tom de sua direção.
“Munique”, um filme sobre contra-terrorismo realizado tão pouco tempo depois do fatídico 11 de setembro de 2001 e lançado em meio aos pavorosos protestos islâmicos contra as charges dinamarquesas ironizando Maomé, tem o mérito maior de ser um filme absolutamente imparcial sobre a insana caçada aos promotores do igualmente insano atentado dos Jogos Olímpicos de 1972. Spielberg dirige com maestria (a partir do roteiro adaptado do livro “Vengeance: The True Story of an Israeli Counter-Terrorist Team”, do jornalista canadense George Jonas) as atuações repletas de nuances de Eric Bana (que faz o papel de ‘Avner’, o jovem chefe do grupo de agentes israelenses) e Daniel Craig (como o confuso e beligerante agente ‘Steve’) e mostra gente operacional (de ambos os lados) em situações de extrema tensão, mas nem sempre seguras do valor das ações para as quais eles foram designados, corroídos por vezes por sentimentos conflitantes de remorso e de amor incondicional à pátria. Há tristeza e dor entre palestinos e israelenses nas cenas iniciais, quando noticiários televisivos situam o espectador brevemente no evento desencadeador das ações posteriores, cerne do filme. E há medo e desequilíbrio nos olhos dos agentes israelenses e dos terroristas palestinos que eles encontram no decorrer das ações. É impossível não traçar paralelos com os episódios mais recentes do conflito entre Israel e Palestina, Estados Unidos e Iraque, Al-Qaeda e governo Bush. Em verdade, ”Munique” é uma mensagem clara de Spielberg, ele mesmo um descendente de judeus que teria imensa liberdade para tomar partido de Israel em um filme como este, de que a vingança jamais leva à paz, de que o ódio é incapaz de construir e de que os eventos primeiros que acirraram esta guerra do terror levaram-nos ao que vivemos hoje em todo o mundo - uma mensagem à qual o diretor dá um ponto final simbólico na derradeira imagem do filme, e que por si só já vale o preço de ver por quase três horas até onde vai o limite da insensatez dos governantes - e dos homens que eles governam. Parece-nos que o filme de Spielberg deixa em nós a incômoda sensação de que não estamos mesmo a seguir a melhor direção rumo a tempos de paz e conciliação.
Se houver justiça, ao menos na Academia de Artes e Ciências de Hollywood, Steven Spielberg ganhará este prêmio de melhor diretor, por sua coragem e pelo belo filme que nos ofereceu depois de míseros três meses de filmagem.