Soy loco por ti, Petróleo
(…)O resultado dos desfiles das escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro é combustível para polêmica cá e lá, no Brasil e nos demais países da América Latina, e não sem motivos que justifiquem as críticas e as desconfianças (…).
Para os que não acompanharam de perto os bastidores daquela competição (…), a campeã do ano de 2006 foi a escola de samba Unidos de Vila Isabel que, em que pese sua condição de uma das agremiações carnavalescas mais tradicionais do Rio de Janeiro, havia ganho apenas um campeonato em toda a sua existência. O enredo por a levado à Avenida Marquês de Sapucaí, onde se localiza o Sambódromo do Rio de Janeiro, foi Soy Loco por Ti, América - A Vila Canta a Sua Latinidade, uma algo confusa homenagem aos povos e à história da América Latina que misturou, em fantasias e alegorias luxuosas, povos indígenas pré-colombianos e mariachis, figuras lendárias e outras históricas, algumas de um passado bem próximo (e de importância cultural questionável), como Che Guevara e Eva Perón. A razão maior da polêmica, contudo, gira em torno de um fato algo comum no carnaval carioca dos mais recentes tempos, mas inusitado pelo seu caráter internacional: grande parte do desfile da Unidos de Vila Isabel foi patrocinado por uma empresa estrangeira de petróleo, no caso a estatal venezuelana PDVSA, a qual teria doado à escola de samba da zona norte carioca cerca de R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais) - valor que representou mais de um terço do montante total gasto na preparação do carnaval daquela agremiação para 2006.
Os detratores de Hugo Chávez, presidente da Venezuela e articulador do referido patrocínio de sua menina dos olhos e grande financiadora de suas ações paternalistas, a PDVSA, criticam o fato de um montante como este ser aplicado no patrocínio do desfile de uma agremiação carnavalesca em um país estrangeiro, o Brasil, enquanto o povo venezuelano ainda enfrenta inúmeros problemas sociais que poderiam, em parte, ser dirimidos com esse dinheiro. Mesmo se o governo de Chávez quisesse aplicar este dinheiro em uma festa popular, porque não o fez em sua capital, cujos gastos totais com seu carnaval seriam menores que o milhão de reais gasto com a Vila Isabel e sua apresentação de pouco mais de uma hora de desfile?
Não há que se apagar os méritos da agremiação carnavalesca, nascida no berço do samba carioca e certamente uma das mais respeitadas do cenário do carnaval carioca. A pergunta maior, no entanto, por trás de toda esta inusitada história, é questionar as razões do patrocínio. (…)O que pretendia então a PDVSA com o patrocínio dado a um desfile que não falava de petróleo, tampouco da Venezuela, seu país de origem?
A resposta parece ser óbvia demais: propaganda ideológica. Quem tem dúvidas ainda sobre isso, que leia o site oficial da PDVSA, no qual a estatal afirma “promover, de forma sistemática, a integração entre os povos da América Latina (…)” e que isso se dá “também pelo resgate da memória histórica de cada um dos países e de suas lutas econômicas e sociais contra o imperalismo”, ou seja: o “carnaval de Simon Bolívar”, como alguns colunistas já apelidaram o desfile da Vila Isabel, funcionou para a estatal como elemento de propaganda da ideologia “bolivarianista” do presidente venezuelano. Hugo Chávez parece reforçar, a cada gesto, seus sonhos de uma hegemonia latino-americana à sombra do grande personagem histórico, mas por ele comandada - e no carnaval carioca não foi diferente. (…)A idéia do carro alegórico no qual um Simon Bolívar de quatorze metros de altura encerrou o desfile foi inspiração do presidente venezuelano - e o sonho do carnavalesco era, aliás, que o próprio Chávez viesse de destaque naquela alegoria. O presidente da Vila Isabel agradeceu publicamente ao presidente Hugo Chávez pelo patrocínio, dizendo que sem esse apoio a escola não conseguiria trazer para o desfile fantasias luxuosas e alegorias do porte das que foram apresentadas. Julio Garcia Montoya, embaixador da Venezuela no Brasil, corrobora a suspeita de que a idéia por trás do enredo era política: “[a vitória da Vila Isabel] foi o triunfo de uma idéia cada vez mais vigente em nosso continente, a idéia da integração”. (…)
O que se espera, de todo este imbroglio, é que a Liga Independente das Escolas de Samba, a entidade privada que transformou o carnaval do Rio de Janeiro em um evento profissional e rentável, repense suas regras sobre o patrocínio dos desfiles para as escolas, sob o risco de transformarmos a Sapucaí em palanque político. Mas é de se perguntar se um patrocínio do governo estadunidense seria tão celebrado pela imprensa brasileira quanto está sendo esta ajudinha dada à Vila Isabel pelos petrodólares de Hugo Chávez…
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Uma analista política do Rio Grande do Sul declarou que as críticas eram oriundas de “pessoas que detestam ser latino-americanas” e não compreendem “o grande movimento de unificação do continente” que estaria, segundo ela, a caminho. Outros tantos jornalistas encontraram inúmeras razões para criticar o fato, motivados ou não pela “ojeriza latino-americana” da qual são acusados por aquela jornalista gaúcha. Mas o fato é que o resultado dos desfiles das escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro é combustível para polêmica cá e lá, no Brasil e nos demais países da América Latina, e não sem motivos que justifiquem as críticas e as desconfianças - se não sobre a lisura da votação, ao menos sobre as questões éticas que ficaram guardadas nas coxias do espetáculo daquela noite de domingo de carnaval.
Para os que não acompanharam de perto os bastidores daquela competição - um dos símbolos máximos da cultura brasileira, há que se dar o devido valor, justamente por ter surgido como fenômeno espontâneo do carnaval carioca -, a campeã do ano de 2006 foi a escola de samba Unidos de Vila Isabel que, em que pese sua condição de uma das agremiações carnavalescas mais tradicionais do Rio de Janeiro, havia ganho apenas um campeonato em toda a sua existência. O enredo por a levado à Avenida Marquês de Sapucaí, onde se localiza o Sambódromo do Rio de Janeiro, foi Soy Loco por Ti, América - A Vila Canta a Sua Latinidade, uma algo confusa homenagem aos povos e à história da América Latina que misturou, em fantasias e alegorias luxuosas, povos indígenas pré-colombianos e mariachis, figuras lendárias e outras históricas, algumas de um passado bem próximo (e de importância cultural questionável), como Che Guevara e Eva Perón. A razão maior da polêmica, contudo, gira em torno de um fato algo comum no carnaval carioca dos mais recentes tempos, mas inusitado pelo seu caráter internacional: grande parte do desfile da Unidos de Vila Isabel foi patrocinado por uma empresa estrangeira de petróleo, no caso a estatal venezuelana PDVSA, a qual teria doado à escola de samba da zona norte carioca cerca de R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais) - valor que representou mais de um terço do montante total gasto na preparação do carnaval daquela agremiação para 2006.
Os detratores de Hugo Chávez, presidente da Venezuela e articulador do referido patrocínio de sua menina dos olhos e grande financiadora de suas ações paternalistas, a PDVSA, criticam o fato de um montante como este ser aplicado no patrocínio do desfile de uma agremiação carnavalesca em um país estrangeiro, o Brasil, enquanto o povo venezuelano ainda enfrenta inúmeros problemas sociais que poderiam, em parte, ser dirimidos com esse dinheiro. Mesmo se o governo de Chávez quisesse aplicar este dinheiro em uma festa popular, porque não o fez em sua capital, cujos gastos totais com seu carnaval seriam menores que o milhão de reais gasto com a Vila Isabel e sua apresentação de pouco mais de uma hora de desfile?
Não há que se apagar os méritos da agremiação carnavalesca, nascida no berço do samba carioca e certamente uma das mais respeitadas do cenário do carnaval carioca. A pergunta maior, no entanto, por trás de toda esta inusitada história, é questionar as razões do patrocínio. Afinal, a PDVSA é uma empresa estatal estrangeira, sem grandes investimentos no Brasil e pouco conhecida por nossa população. Outras empresas e governos no país já doaram recursos para desfiles na Sapucaí; em 2006, a Prefeitura Municipal de Poços de Caldas, a fábrica de chocolates Garoto e o Governo do Ceará também teriam contribuído com outras agremiações. Mas nenhum desses patrocínios teve um valor tão alto, tampouco algo que representasse uma fração tão significativa no orçamento do desfile das respectivas escolas. E uma empresa que patrocina um evento cultural, quer algo em troca - quer seja a exposição de sua marca ou imagem, coisa que é abertamente proibida pelo regulamento dos desfiles, quer seja pela fixação na mente dos espectadores de um produto - o chocolate, por exemplo - ou de uma localidade - o estado do Espírito Santo ou a cidade de Poços de Caldas, em Minas Gerais, destinos turísticos famosos no país. Mas, o que pretendia então a PDVSA com o patrocínio dado a um desfile que não falava de petróleo, tampouco da Venezuela, seu país de origem?
A resposta parece ser óbvia demais: propaganda ideológica. Quem tem dúvidas ainda sobre isso, que leia o site oficial da PDVSA, no qual a estatal afirma “promover, de forma sistemática, a integração entre os povos da América Latina (…)” e que isso se dá “também pelo resgate da memória histórica de cada um dos países e de suas lutas econômicas e sociais contra o imperalismo”, ou seja: o “carnaval de Simon Bolívar”, como alguns colunistas já apelidaram o desfile da Vila Isabel, funcionou para a estatal como elemento de propaganda da ideologia “bolivarianista” do presidente venezuelano. Hugo Chávez parece reforçar, a cada gesto, seus sonhos de uma hegemonia latino-americana à sombra do grande personagem histórico, mas por ele comandada - e no carnaval carioca não foi diferente. O carnavalesco da escola, a qual em 2005 conquistou um apagado décimo lugar, afirmou, em uma entrevista, que a idéia do carro alegórico no qual um Simon Bolívar de quatorze metros de altura encerrou o desfile foi inspiração do presidente venezuelano - e o sonho do carnavalesco era, aliás, que o próprio Chávez viesse de destaque naquela alegoria. O presidente da Vila Isabel agradeceu publicamente ao presidente Hugo Chávez pelo patrocínio, dizendo que sem esse apoio a escola não conseguiria trazer para o desfile fantasias luxuosas e alegorias do porte das que foram apresentadas. Julio Garcia Montoya, embaixador da Venezuela no Brasil, corrobora a suspeita de que a idéia por trás do enredo era política: “[a vitória da Vila Isabel] foi o triunfo de uma idéia cada vez mais vigente em nosso continente, a idéia da integração”.
Os investimentos da PDVSA no carnaval carioca foram mais além. A empresa estatal de petróleo da Venezuela adquiriu um camarote inteiro na Passarela do Samba para seus funcionários e convidados. Ainda há, na imprensa venezuelana, a denúncia de que pelo menos quinhentas pessoas teriam vindo da Venezuela para desfilar na Vila Isabel, todas com passagem e hospedagem pagas pela PDVSA. Para aguçar as críticas dos venezuelanos - digo, dos venezuelanos não-bolivaristas -, a PDVSA está, no momento, envolvida em uma grave crise de corrupção a la Mensalão. Mas pouco disso chega à imprensa brasileira, em grande parte por conta do policiamento existente em alguns de nossos meios de comunicação contra os que ousam falar mal de qualquer líder da esquerda latino-americana.
O que se espera, de todo este imbroglio, é que a Liga Independente das Escolas de Samba, a entidade privada que transformou o carnaval do Rio de Janeiro em um evento profissional e rentável, repense suas regras sobre o patrocínio dos desfiles para as escolas, sob o risco de transformarmos a Sapucaí em palanque político. Mas é de se perguntar se um patrocínio do governo estadunidense seria tão celebrado pela imprensa brasileira quanto está sendo esta ajudinha dada à Vila Isabel pelos petrodólares de Hugo Chávez…