Thursday, March 2, 2006

A Natureza da Poesia

Segismundo Spina, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), estudioso de filologia e autor de algumas das obras mais importantes publicadas no país sobre a poética clássica e medieval, criador de uma disciplina dedicada inteiramente ao estudo da obra de Luís de Camões na USP e dono de uma biblioteca raríssima de volumes raros sobre história da literatura, gramáticas da língua portuguesa e poética, jamais leu literatura moderna.  Ao menos, não como ele considera que seja ler um autor - e não é difícil imaginar o que Spina considera ler um autor, ele cuja coleção de obras reunidas ao longo de sessenta e cinco anos de estudos hoje forma um acervo com seu nome, adquirido em 2001 pelo então Centro universitário Fieo, de Osasco, São Paulo, sob a condição do professor de que sua biblioteca jamais fosse desmembrada.  Por isso, Segismundo Spina diz sempre que não fala sobre literatura moderna.

Sua coragem intelectual, contudo, surpreende mais que sua vasta coleção de obras meticulosamente catalogadas e garimpadas em sebos e colecionadores em todo o mundo lusófono - afinal, é lançar-se aos leões, no Brasil, dizer-se avesso à poesia de Carlos Drummond de Andrade, à prosa de Guimarães Rosa ou às experimentações contemporâneas da poesia concreta, da poesia engajada e de outras que tais.  Mas o filólogo tem lá suas razões - e isso parece enfurecer ainda mais os modernosos.  Spina diz que poesia contemporânea ele “não [lê] de jeito nenhum”, porque não considera poesia textos que fogem à “natureza da poesia”, segundo o estudioso.  O professor, cuja tese de doutorado foi um profundo estudo antropológico das formas primitivas da poesia (posteriormente publicado na forma de ensaio com o título “Na Madrugada das Formas Poéticas”), relembra que a poesia “nasceu nos povos iletrados, nas tribos primitivas, até o fim da Idade Média, quando ela começa a se tornar uma poesia de valor e de objetivo estético”.  A música e a poesia, diz Spina, “nasceram juntas, a letra e a melodia (…) Depois que cada uma adquiriu sua liberdade estética, a música passou a ser música e a poesia a ser poesia”. 

Por isso o autor de “A Cultura Literária Medieval” e “A Lírica Trovadoresca” considera que “esses poetas modernos atuais (…) não são poetas”.  Para ele, a verdadeira poesia é a que conserva as características iniciais do que sempre foi defendido na poética de todas as épocas, desde seu surgimento como objeto de estudo: o ritmo, a cadência, o jogo de imagens e metáforas, a expressão do sonho, do inefável, “daquilo que está na periferia da realidade, e não na realidade”.  A negação do sonho, reduzido pelos realistas a uma fuga da crueldade que é o mundo - sim, pois para os realistas o mundo parece ser resumido a dresgaças em sucessão contínua e eterna -, fez com que o poeta contemporâneo, de fato, estancasse em um estado de alma, refletido em seu vocabulário e em sua temática, que ora reside na sátira, ora na pornografia - quase sempre em um tom inegável de pessimismo em relação à vida e ao outro. 

Em relação à forma, a opinião de Spina é igualmente categórica: ”eles não têm capacidade de criar em poesia”; para o professor de filologia portuguesa, os poetas modernos limitaram-se a aproveitar “o desdobramento da atividade poética” - que, para Spina, “morreu mais ou menos durante o romantismo” - e “fizeram um desdobramento entre poesia quadrada, poesia oblíqua, concreta, cúbica…uma demonstração de incapacidade” na arte de escrever poesia.  “A literatura evolui”, reconhece Spina, ”mas a poesia não evoluiu, ela se desdobrou em formas que eu detesto(…) pois não conserva o ritmo, o jogo das imagens, das metáforas, não conserva aquele halo milagroso e inefável que para mim é a essência da poesia”.     

Decerto a visão de Segismundo Spina é desprezada por boa parte dos escritores contemporâneos que, talvez involuntariamente, compactuam com a idéia vigente em boa parte da intelectualidade brasileira de que “o que é antigo, não merece ser estudado” ou ainda que “o objetivo da arte é a contestação”, tão alimentados pelos anos todos de repressão ideológica que vivemos na história recente de nosso país.  Mas retratar Spina como um “reacionário antidemocrático” seria, no mínimo, uma absurda falta de visão.  O professor emérito da USP, hoje aposentado depois de mais de sessenta e cinco anos de vida acadêmica, não renega os contemporâneos e modernos meramente por questões cronológicas (uma de suas poetisas favoritas é Cecília Meirelles, talvez nosso maior expoente da poesia de todos os tempos e gêneros, e contemporânea de autores cuja “obra poética” Spina faz questão de ignorar), muito menos por este ou aquele alinhamento político incorporado à poesia ou à biografia deste ou daquele escritor.  Ele repudia o afã insaciável que parecem ter os “poetas” modernosos de sempre quebrar um novo paradigma, de sempre propor uma inovação estética ou uma forma nova de fazer poesia, quando, em verdade, boa parte deles parece mesmo não dominar a arte poética e fazem, quando muito, obras mais próximas das artes plásticas - este um ramo artístico praticamente destruído pela febre contemporânea do “é proibido probir”.  Infelizmente, o que se vê hoje no panorama da poesia brasileira são algumas vertentes questionáveis em seu valor, mas facilmente identificáveis em sua produção: a que faz poemas que são prosa espalhada no papel; a que faz poesia como se escrevesse textos para publicidade e propaganda; a que distorce o texto ao ponto de torná-lo de difícil identificação; a vertente que escolhe palavras difíceis e, o que é pior, desconexas, que parecem colidir umas com as outras, associando poesia a um hermetismo de confraria, no qual os poetas alimentam-se de si mesmos.  São os “poemas do óbvio”, os “poemas-nota de jornal”, os “poemas-engraçadinhos” que povoam as coletâneas literárias e mesmo as obras dos poucos poetas que podemos considerar “consagrados” no atual panorama literário brasileiro.  Fenômeno ainda mais curioso, contudo, talvez gerado justamente pela falta de nomes que cativem o leitor para a poesia nos dias de hoje, é o da tendência de se resgatar as letras de canções brasileiras como obra poética - como se aqueles textos pudessem sobreviver sem o aporte da música com que foram gerados -, o que é possível em apenas algumas letras de certas canções de um número limitado de compositores populares do Brasil. 

Mas não, nada disso é poesia em sua essência - onde estão o ritmo, a escolha vocabular, o viajar seguro pelos campos metafóricos, os jogos de imagem que nos ajudam a romper as limitações do racional e buscar respostas em uma metafísica do texto?  Para os contemporâneos, cujo materialismo e pessimismo fazem negar a existência de qualquer transcendência, poesia é o que desejamos chamar de poesia, enfim.  E a sobrevivência da poesia entre nós, o renascimento do interesse das novas gerações pela arte poética talvez resida justamente em um resgate do que há de mágico, de espiritual e de sobre-humano na drummoniana - e Drummond teve seus momentos de mágico e de transcendente - “luta mais vã” de “lutar com as palavras”.  

Posted by Frizero at 05:06:55 | Permalink | Comments (2)