Perguntas que não querem calar
Assistir aos noticiários e trasmissões ao vivo de eventos diversos - de concertos de rock a desfiles de escolas de samba - na televisão aberta dá ao expectador uma curiosa medida da forma como nossas faculdades de jornalismo devem estar a ensinar (ou, ao menos, falhando ao corrigir) seus alunos: as perguntas dos repórteres, seus ex-alunos.
Se a notícia é sobre uma tragédia com desabrigados - seja ela uma terrível inundação, um edifício que desabou ou um incêndio em uma favela -, é quase certo que um repórter irá entrevistar um dos atingidos, perguntando-lhe: “Como você irá fazer agora que a sua casa foi destruída?”
Se o entrevistado é uma celebridade que acabou de atravessar a Passarela do Samba, depois de um desfile de escolas de samba, a pergunta é, invariavelmente, esta: “E aí, [nome da celebridade], muita emoção?” Contudo, se a celebridade por alguma razão demonstrar cansaço extremo ou exibir algum ferimento - digamos, um talho sangrando no pé ou arranhões decorrentes da fantasia mal construída, a pergunta pode variar para “E aí, [nome da celebridade], vale tudo pela sua escola?”, uma pergunta que é aparentada com aquela que se dirige, sempre, aos fãs que aguardam horas e horas na fila de um estádio para comprar os ingressos do concerto de sua banda preferida: “E aí, vale tudo para ver seu ídolo de perto?”
Se o evento é uma partida de futebol, seja final de campeonato ou um jogo qualquer do início da tabela, o repórter esportivo, este personagem de inúmeras frases feitas, irá inquirir do vencedor sobre como foi que ele fez aquele gol da vitória - como se alguém que correu por noventa minutos atrás de uma bola fosse lembrar dos detalhes de um específico evento da partida - ou das razões que dá o derrotado para aquele fracasso inesperado ou, se o entrevistado for o goleiro perdedor. para que aquele frango indesejado tenha acontecido.
Pior mesmo são os repórteres que fazem a cobertura dos velórios de personalidades de qualquer sorte - ou, quando a pergunta é ainda mais cruel, de parentes e amigos de vítimas da violência urbana, pois eles parecem não poupar ninguém em seus momentos de dor e desespero, invariavelmente fazendo aos que choram seus mortos a terrível pergunta: “O que você está sentindo?”
Quando ouço essas e outras perguntas tolas ou torpes, que se repetem ad nauseam em nossa televisão aberta - sinal de que muitos profissionais do jornalismo televisivo parecem se limitar à imitação dos que o precederam, sem nenhum sinal de que percebem a tolice de suas indagações aos seus tantos entrevistados - lembro-me de uma famosa entrevista do poeta Mário Quintana a uma conhecida apresentadora de televisão. Eram os anos 1980 e havia uma mania curiosa de os entrevistadores perguntarem a um famoso, em terceira pessoa, sobre eles mesmos. O entrevistado, esperava-se, começaria então a discorrer sobre si mesmo como se falassem de alguém ausente - algo como “O [nome do entrevistado] é uma pessoa comum, etc, etc”… E a repórter começou sua conversa com o poeta perguntando-lhe, de chofre: “Quem é Mário Quintana?” Ele olhou assustado para a moça, que continuava com seu ensaiado sorriso para o porto-alegrense de coração, e respondeu-lhe, no maior dos espantos: “Mário Quintana sou eu, minha filha!”
Resta-nos saber quando os nossos repórteres irão calar essas perguntas que nada acrescentam à necessidade de conhecer de nenhum de nós, telespectadores.
Assistir aos noticiários e trasmissões ao vivo de eventos diversos (…) na televisão aberta dá ao expectador uma curiosa medida da forma como nossas faculdades de jornalismo devem estar a ensinar (ou, ao menos, falhando ao corrigir) seus alunos: as perguntas dos repórteres, seus ex-alunos.
Se a notícia é sobre uma tragédia com desabrigados (…), é quase certo que um repórter irá entrevistar um dos atingidos, perguntando-lhe: “Como você irá fazer agora que a sua casa foi destruída?”
Se o entrevistado é uma celebridade que acabou de atravessar a Passarela do Samba, (…)a pergunta é, invariavelmente, esta: “E aí, [nome da celebridade], muita emoção?” Contudo, se a celebridade por alguma razão demonstrar cansaço extremo (…), a pergunta pode variar para “E aí, [nome da celebridade], vale tudo pela sua escola?”, uma pergunta que é aparentada com aquela que se dirige, sempre, aos fãs que aguardam horas e horas na fila de um estádio para comprar os ingressos do concerto de sua banda preferida: “E aí, vale tudo para ver seu ídolo de perto?”
Se o evento é uma partida de futebol, (…)o repórter esportivo, este personagem de inúmeras frases feitas, irá inquirir do vencedor sobre como foi que ele fez aquele gol da vitória - como se alguém que correu por noventa minutos atrás de uma bola fosse lembrar dos detalhes de um específico evento da partida (…)
Pior mesmo são os repórteres que fazem a cobertura dos velórios de personalidades de qualquer sorte - ou, quando a pergunta é ainda mais cruel, de parentes e amigos de vítimas da violência urbana, pois eles parecem não poupar ninguém em seus momentos de dor e desespero, invariavelmente fazendo aos que choram seus mortos a terrível pergunta: “O que você está sentindo?”
Quando ouço essas e outras perguntas tolas ou torpes,(…)lembro-me de uma famosa entrevista do poeta Mário Quintana a uma conhecida apresentadora de televisão. Eram os anos 1980 e havia uma mania curiosa de os entrevistadores perguntarem a um famoso, em terceira pessoa, sobre eles mesmos. O entrevistado, esperava-se, começaria então a discorrer sobre si mesmo como se falassem de alguém ausente - algo como “O [nome do entrevistado] é uma pessoa comum, etc, etc”… E a repórter começou sua conversa com o poeta perguntando-lhe, de chofre: “Quem é Mário Quintana?” Ele olhou assustado para a moça, que continuava com seu ensaiado sorriso para o porto-alegrense de coração, e respondeu-lhe, no maior dos espantos: “Mário Quintana sou eu, minha filha!”
Resta-nos saber quando os nossos repórteres irão calar essas perguntas que nada acrescentam à necessidade de conhecer de nenhum de nós, telespectadores.
[LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO]