Tuesday, March 28, 2006

O Mito da Tolerância Islâmica

Os acontecimentos do fatídico onze de setembro de 2001 nos Estados Unidos da América forneceram razões suficientes para que o mundo criasse uma verdadeira paranóia anti-islâmica - e qualquer conceito que se crie sobre outras pessoas baseado apenas no temor de suas ações futuras contra nós jamais é preciso, tampouco correto ou passível de servir de um bom prisma para que vejamos o mundo que nos cerca. 

O movimento contrário a este foi instantâneo por parte dos politicamente corretos, e não sem razão: na tentativa de evitar a construção de um movimento de intolerância religiosa contra os muçulmanos - em um primeiro momento acusados de serem todos, sem exceção, artífices ou colaboradores dos movimentos terroristas de inspiração islâmica -, propagou-se a idéia de um Islã de paz e tolerância religiosa, uma religião que, ao contrário das outras grandes religiões monoteístas do mundo, jamais teria reprimido a prática de outros credos ou tratado de forma desigual os que professassem outras religiões.  O mesmo medo da radicalização ocidental contra o Islamismo foi também motivadora das leis européias de proteção à liberdade de culto, que entre seus reflexos benéficos promoveram, também, absurdos como a proibição, nas escolas francesas, de todo e qualquer sinal exterior de culto, retirando das salas de aula e dos cordões pendurados nos pescoços de seus alunos os crucifixos - ainda que a França siga sendo um país de maioria cristã -, bem como os quipás dos alunos judeus e o hijab das alunas muçulmanas; a Inglaterra, até o momento, foi o país que mais mostrou coerência, dando ganho de causa, por exemplo, a uma escola que proibiu uma aluna de entrar em aula usando roupas tradicionais islâmicas ao invés do uniforme obrigatório da instituição, aplicável a todos os alunos - mas não por uma interferência incisiva (e inaceitável) no direito de escolha individual dos alunos, como na França, e sim por uma questão de seguir as normas estabelecidas naquela instituição de ensino.

O mito da tolerância islâmica, contudo, esbarra não só em alguns exemplos históricos difíceis de contestar, mas na própria realidade contemporânea dos países ditos islâmicos - nos quais a religião, a lei e o poder político confundem-se.  Pois os jornais de 27 de março noticiaram um caso que é emblemático neste debate: Abdul Rahman, um ex-enfermeiro de quarenta e um anos, foi preso e condenado por “rejeição ao Islã”, após a polícia do Afeganistão ter encontrado em sua casa uma Bíblia, após denúncia de sua própria família, motivada por uma disputa envolvendo a guarda de suas duas filhas.  Rahman, que há dezesseis anos trabalhou no Paquistão junto a um grupo cristão de ajuda a refugiados afegãos - cabe lembrar que, à época, o país já começava a viver os horrores do governo dos talibãs, radicais islâmicos que reduziram o Afeganistão a um regime de terror em nome de Deus -, confessou ter se convertido ao Cristianismo naquela época, por ter encontrado junto aos cristãos “o bem que não encontrava mais nos homens de Deus de seu país”.

Na tentativa de acalmar os protestos tanto dos clérigos islâmicos mais conservadores, que se fiam na própria constituição do país (a qual, aliás, é inteiramente baseada nas Sharia ou Lei Islâmica) para condenar Abdul Rahman, quanto dos países ocidentais que lutam por sua sobrevivência, o Governo do Afeganistão tem alegado que o condenado é doente mental e não estaria em seu juízo perfeito, portanto inimputável por seus atos.  Outra medida tentada pelos promotores de Justiça afegãos foi a reconversão ao Islã de Rahman, mas ele se negou a aceitar.  Diante de tal quadro, os clérigos afegãos têm incitado a população a “fazer justiça em nome de Alá” caso Abdul Rahman seja libertado, já que “abandonar o Islamismo é insultar Alá e [os muçulmanos do Afeganistão] não permitiremos que Ele seja humilhado”.  Para tal, a sentença dos religiosos é única: “Rahmal deve morrer”.

Estima-se que no Afeganistão existam 99% (noventa e nove por cento) de islâmicos e 1% (um por cento) de hindus, estes últimos mais localizados em regiões de fronteira com outros países.  Há, na clandestinidade, um pequeno número de cristãos, que freqüentam cultos secretos nas igrejas que funcionam em algumas representações diplomáticas em Cabul; mas, segundo declarou um funcionário de um grupo humanitário, ele também um cristão, “poucos admitem sua fé em público, com medo de represálias”.

Algumas vozes no meio acadêmico estadunidense vêm sendo erguidas para derrubar o que chamam de “mito da tolerância islâmica”.  Surpreendentemente, não são apenas estudiosos ocidentais, mas também muitos pesquisadores e pensadores de origem árabe, que estão a reunir dados que comprovam o fato de que a tolerância religiosa nunca foi uma marca dos países nos quais a religião islâmica e o poder temporal andaram unidos.  Tal movimento seria uma resposta à tendência das universidades daquele país de tecer contrastes entre o que chamam de “história das relações do Cristianismo em relação às minorias religiosas”, sobretudo aos judeus e muçulmanos, e a história de judeus e cristãos que viveram em regimes dominados pelo islã.  Nessa última escola de pensamento, dominada pela idéia do “politicamente correto”, os cristãos são sempre retratados como “brutais e intolerantes”, enquanto os muçulmanos são vistos, em geral, como “benevolentes” em relação aos outros povos e religiões - exceto quando agindo em “legítima defesa”, como no caso das Cruzadas ou nas ações do colonialismo do século XIX.

Uma das mais veementes críticas da visão “atenuada” da relação do Islã com as demais religiões é uma estudiosa judia, nascida no Egito, que por questões de segurança precisou ocultar-se sob o pseudônimo de Bat Ye’or (algo como “filha do Nilo”).   Autora de livros como “O Declínio do Cristianismo Oriental sob o Islã” (“The Decline of Eastern Christianity Under Islam: From Jihad to Dhimmitude“), ela afirma que o mito da tolerância religiosa do Islamismo é uma construção moderna, nascida de interesses que remetem aos primeiros acordos entre os poderes coloniais ocidentais e os estados islâmicos.  A pensadora egípcia resgata também em seus textos o termo dhimmi - usado para se referir aos judeus, cristãos e seguidores de outras religiões sob regimes islâmicos - e mostra que eles, quando eram autorizados a praticar sua religião, assim podiam fazer apenas em seus lares, sem qualquer manifestação externa de suas crenças.  Bat Ye’or é também uma das escritoras cujos textos foram reunidos por Robert Spencer em um volume intitulado justamente “O Mito da Tolerância Islâmica”, no qual vários pensadores, muitos dos quais autoridades no estudo da história social do mundo islâmico, analisam a história das relações entre o Islã e as outras religiões e mostram que o cenário é bem diverso do oásis de tolerância que a própria Organização das Nações Unidas (ONU) hoje insiste em construir no imaginário mundial.

Os artigos, que abordam as ações da face política do Islã em três continentes, mostram que os regimes mais tolerantes de inspiração islâmica cobravam altos tributos dos não-islâmicos em troca da propagada liberdade de culto, mas limitavam o acesso dos não-muçulmanos aos direitos plenos daquelas sociedades. Nos países mais radicais, diz Spencer em um dos artigos por ele assinados, o que resta aos não-muçulmanos é “um escândalo contínuo de desrespeitos aos direitos humanos que raramente é recebe qualquer menção, seja no meio acadêmico, seja na imprensa ocidental”.

Não é aceitável que, após o Onze de Setembro, os muçulmanos como uma coletividade sejam lançados a um mesmo lugar-comum que os classifique, a todos, como “terroristas” e “inimigos”, como certamente boa parte da própria população estadunidense fez.  Contudo, há que se ter cuidado com as idéias que compramos em um mundo tão torpemente lançado em um anti-americanismo que também não tem quaisquer bases racionais; os extremos levam à intolerância, a intolerância leva à violência e a violência, à destruição mútua.  Por isso é difícil compreender as relações pueris que alguns aqui no Brasil fazem entre ”ser anti-Bush” e “ser pró-Laden”, ”ser anti-EUA” e ”ser pró-Jihad”.  Tais posturas não são dois lados da mesma moeda, e os que defendem a liberdade que crêem ver ameaçada pelo governo de George W. Bush certamente não iriam reconhecer nos governos de inspiração islâmica a sua utopia de felicidade. 

Ou será que eles também crêem que converter-se ao cristianismo, ter em casa uma Bíblia, trabalhar no World Trade Center ou tomar um avião de Boston para a Califórnia são crimes dignos de morte?

 

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Monday, March 27, 2006

Onde você guarda o seu preconceito?

Há alguns dias li, algo incomodado, as declarações da autora do conto “Brokeback Mountain”, que deu origem ao filme homônimo, sobre as razões pelas quais a Academia de Artes e Ciências e Hollywood deu a Crash, e não a Brokeback Mountain - grande favorito da noite - o Oscar de Melhor Filme de 2005.  Annie Prouxl, a escritora de setenta anos e vencedora do prêmio Pulitzer, na manhã seguinte à premiação, perdeu a elegância chamando de Trash (em inglês, “lixo”) o concorrente do filme baseado em seu texto, e acusou a Academia, ou seja, seus membros votantes, por terem escolhido um “filme controverso mais fácil de engolir”, atribuindo a derrota do excelente filme de Ang Lee a um provincianismo de Hollywood que “remete aos shows de talento das cidadezinhas do interior de onde a maioria das estrelas hollywoodianas vieram um dia”.  Como não havia assistido ainda a Crash, limitei-me a armazenar na memória a manifestação algo revoltada de Prouxl e esperar pela oportunidade de ver o filme vencedor do Oscar para, então, tirar minhas conclusões.   

Ontem assistimos, eu e minha esposa, ao filme do diretor canadense Paul Haggis e a verdade é que esta produção, Crash, é um filme bem mais ousado e corajoso que Brokeback Mountain - o qual, é preciso reconhecer, tornou-se um marco por atingir tamanho público mundialmente e obter tanta visibilidade para uma história de amor entre dois homens, algo jamais visto na história do cinema.  A maior ousadia de Crash, um filme independente cujos custos foram levantados entre alguns de seus atores e o próprio diretor, é abordar o tema dos ódios raciais existentes nos Estados Unidos da América - e, por que não dizer, em todo o mundo, em menor ou maior grau - sem o filtro perverso do politicamente correto.  Não há, no filme, qualquer medo do diretor e roteirista de ir até os limites das conseqüências funestas dessa rede de rancores e esteriótipos nem sempre tão fáceis de reconhecer.

O filme conta a multifacetada história de um grupo de pessoas de diferentes etnias convivendo em uma Los Angeles de todos os povos e de ninguém; o enredo abrange um dia na vida daquelas pessoas, no qual suas histórias se entrecuzam e vão tomando forma ao longo do filme, construído no formato de “colcha de retalhos” tão ao gosto de outro oscarizado de 2005, Robert Altman, ganhador do prêmio honorário pelo conjunto de sua obra.  Mas a grande diferença do trabalho de Haggis para outros similares - De Prêt-à-Porter a Pulp Fiction, de Traffic a Magnólia - é que as situações mostradas em cada excerto são tão reais, tão passíveis de encontrar similares em nossas próprias vidas, que o envolvimento do público é completo e o filme prende a atenção até o último minuto, com direito a diversos momentos de clímax ao longo da trama.

Também não há no roteiro do próprio Paul Haggis, escrito em apenas duas semanas, nenhum limite para o que se diz; transpôs-se para a tela a verdade dos diálogos que presenciamos na vida real, quando o nosso racismo oculto brota nos momentos de crise ou medo, ou quando o escondemos a bem das aparências, ainda que pouco se consiga oclusar de tais preconceitos contra as minorias.

O filme, que não tem papéis de destaque, reuniu um elenco de famosos dentre os quais Sandra Bullock (em um diminuto papel), Don Cheadle (do ótimo “Hotel Ruanda”), Matt Dillon, Brendan Fraser, Thandie Newman e Jennifer Esposito.  Estrelas de filmes de sucesso em Hollywood, eles foram essenciais para o bom andamento do filme, segundo o diretor, por aceitarem papéis pequenos mas que traziam cenas capazes de “macular uma carreira” ou “revirar o estômago” (não, não há cenas escatológicas no filme; apenas o diretor compartilha da minha crença de que ainda há pessoas bastante no mundo que se enojam diante do preconceito e do racismo). 

Em uma entrevista dada à época do lançamento do filme no Festival de Toronto, Jennifer Esposito disse que o roteiro a atraiu por ser “muito humano” e alertar-nos para o fato de que “você nunca sabe de onde as pessoas vêm ou para onde elas vão; precisamos ter mais tolerância para com as outras pessoas”.  Seu comentário chamou-me a atenção por retratar bem uma das melhores facetas de Crash: não há heróis ou bandidos, pessoas que são sempre boas ou sempre más naquela história; o mesmo policial que abusa libidinosamente de uma cidadã em uma batida policial irá mostrar-se um herói em cenas seguintes; seu colega, que pede para deixar de ser seu parceiro após presenciar aquela cena de abuso e racismo, mostra-se também detentor de preconceitos que o levam a cometer um ato impensado e doloroso; há vários outros personagens que assim também se apresentam, e a impressão que fica é a de que o diretor está a nos conduzir por uma experiência semelhante àquelas que vivemos na vida real, quando julgamos as pessoas pela aparência e dali deduzimos todo um mundo de suposições errôneas, de preconceitos sem justificação.

O filme mostra, enfim, que todos nós guardamos nossas idéias pré-concebidas sobre nossos semelhantes.  Como sugeria uma campanha publicitária recente sobre o tema, já não cabe em nosso tempo a pergunta sobre se somos racistas ou não, mas sim onde guardamos o nosso racismo, o nosso preconceito.  Ele existe, sempre, em menor ou maior grau, com potencialidade menor ou maior de causar transtornos, dor, danos irreparáveis até.  Segundo o diretor, Crash não tem a intenção de ser ”um filme inteligente”, mas, isto sim, de mostrar que “você pensa que sabe quem você é, você tem uma idéia de quem é até que é levado a viver um momento de crise; o modo como você se comporta em uma situação como esta é o que dita quem realmente você é”.

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Sunday, March 26, 2006

[Fecho meus olhos, e em meus dedos tenho]

 

 

Fecho meus olhos, e em meus dedos tenho
a exata forma de teu corpo inteiro.
Já decorei-te as formas, e me enleio
de, enceguecido, poder ainda retê-las…
Se homens descobriram mundos novos
e submeteram, sob força, outros povos,
seguindo a estranha linha das estrelas
a desfilar no céu em estranho corso -
prefiro ter tuas curvas em meus beijos
e guio-me mais pela luz de teus olhos
e voluptuosas linhas de teu dorso!

 

Poema nono da obra

dedicada à minha esposa, Tatiana

(2000)
(Robertson Frizero Barros)

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Friday, March 24, 2006

Inversões hediondas

Há uma lógica perversa que envolve o hediondo crime de estupro e o de atentado violento ao pudor.

O primeiro aspecto desta lógica cruel é de ordem psicológica: ainda que o crime seja caracterizado pela violência sexual, estudos psicológicos afirmam que o fator motivador primeiro do estuprador é a sensação de poder, e não o impulso libidinoso; há diversos relatos nos quais o estuprador usa tal crime - o de forçar alguém a praticar sexo sem o seu explícito consentimento - como forma de sobrepor-se a alguém, de vingar-se (mesmo que tal vendetta seja direcionada a entidades abstratas, como a sociedade que não lhe dá espaço ou a classe dominante que o oprime, ou, o que é ainda mais terrível, como arma de guerra ou de limpeza étnica. Infelizmente aqui se encaixam os estupros que são socialmente aceitos ou sobre os quais a Justiça faz vistas grossas, como aqueles praticados em prisões e que são comumente vistos como uma espécie de vingança bem aplicada contra os que cometeram algum crime contra a sociedade (os efeitos psicológicos e morais de tal prática é abordada com profundidade no excelente livro No Escape: Male Rape in U.S. Prisons, da advogada estadunidense Joanne Mariner, sobre a prática, infelizmente tão comum, do estupro masculino nos presídios norte-americanos - e, ao contrário do que a mítica popular consagrou, a pesquisa de Mariner mostra que o estupro masculino nos presídios não é praticado apenas contra os condenados por crimes de estupro contra mulheres e crianças, mas é antes uma prática de subjugação dos presos mais antigos sobre os mais novos e menos fortes).

O segundo aspecto, de ordem cultural, é talvez o mais assustador: há uma tendência social de incriminação da vítima, ou seja, de buscar nela as razões para que tal crime tenha ocorrido; não raros são os casos em que são justificados - pelos criminosos ou mesmo pela sociedade - tais atos criminosos pelo fato de que a vítima andava de forma provocante, tinha um comportamento que indicava desejo sexual ou mesmo usava roupas que incitavam o estupro.

Pois é justamente um exemplo deste segundo e abjeto aspecto da lógica perversa que ronda os crimes de estupro e atentado violento ao pudor que surge nos jornais brasileiros neste 24 de março de 2006. Em abril de 2005, um jovem de vinte e cinco anos de idade, soldado do Exército Brasileiro,  que trabalhava como auxiliar de cozinheiro em sua unidade militar, entrou com um processo na Justiça contra aquela força armada após ter visto sua denúncia de violência sexual ignorada por seus superiores. Ele acusou um outro soldado, de vinte anos de idade, de tê-lo dominado fisicamente e forçado a praticar sexo anal em seu local de trabalho, em uma noite na qual o auxiliar de cozinha adiantava as tarefas do café da manhã do dia seguinte. Levado o caso à Justiça Militar Federal, a sentença foi inesperada: o jovem estuprador foi condenado a seis meses de cadeia e a vítima, a dez meses e vinte dias de prisão.

Uma análise de outros aspectos do caso auxiliam na compreensão da lógica perversa dos magistrados militares - cabe ressaltar que se tratava de um grupo formado por uma juíza auditora e quatro oficiais do Exército Brasileiro: o jovem de vinte e cinco anos tinha, segundo contam os jornais, “trejeitos efeminados e era discriminado em seu quartel por conta disso pelos demais soldados”; o jovem de vinte anos, acusado de cometer o crime, “não aparentava traços externos de homossexualidade” (se é que tal coisa existe) e admitiu em juízo o ocorrido, mas disse que a relação fora consentida. Na mente dos juízes militares, que parece funcionar no mesmo caminho da mente dos militares que discriminavam a vítima do estupro, tudo parece estar muito claro: o acusador, presumidamente homossexual, deve ter de alguma forma provocado o agressor, quiçá até seduzido o jovem de vinte anos; por ser supostamente homossexual, é também esperado por eles, em suas mentes curtas, que o jovem de vinte e cinco anos esteja sempre pronto e desejoso para manter relações sexuais com outros homens, algo parecido com a idéia de que uma prostituta jamais pode acusar um cliente de estupro, ou uma esposa jamais pode acusar seu marido pelo mesmo crime. Desta forma, o “ato sexual ocorrido entre o soldado de vinte anos, ativo na relação, e o de vinte e cinco anos, passivo” e vítima do abuso sexual, só poderia ser enquadrado na legislação militar, para aqueles magistrados, como “ato de pederastia ou libidinagem”, pelo qual foram os dois condenados, tendo a vítima recebido punição maior que a do agressor - e ainda que tal ato não tenha sido testemunhado por ninguém mais no tal quartel, que só tomou conhecimento do ocorrido por conta da denúncia do soldado seviciado à força.

Em nenhum momento passou pela cabeça dos juízes militares que nenhum homem, seja qual for sua orientação sexual, irá em sã consciência denunciar um crime de estupro do qual foi vítima se o fato não houver realmente acontecido, e se a ação não tiver depositado nele marcas - morais, psicológicas ou mesmo físicas - difíceis de suportar. A exposição, em uma situação como esta, bem como o risco de ser incompreendido e humilhado no processo acusatório, pode deixar também marcas eternas na vida de um homem - talvez tão complicadas de curar quanto aquelas feitas pelo crime cometido contra ele. Creio que apenas as vítimas de crimes da mesma natureza são capazes de compreender os sentimentos que restam de uma tal agressão, e somente elas podem entender as forças que uma vítima precisa reunir em seu interior para tomar coragem e denunciar os abusos sofridos. Para um homem, em uma sociedade sexista como a brasileira e em um meio ainda mais machista como é a caserna, levar até o fim uma acusação de estupro contra um colega de farda é algo que só se compreende a partir da suposição de que o tal crime realmente aconteceu.

O estupro masculino, talvez o crime mais oculto de todos - já que dificilmente suas vítimas conseguem levar seus agressores ao banco dos réus - ganha, assim, no Brasil, uma perigosa jurisprudência. Protegidos pelo medo que os agredidos guardam diante da revelação do crime de que foram vítimas - medo de serem rechaçados pela família, medo de serem rotulados pelos amigos e pela sociedade, medo de serem apontados como causadores da ignomínia de que foram alvo -, os estupradores e seviciadores contam também com a absolvição prévia dos tribunais brasileiros, ao menos dos tribunais militares.

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Thursday, March 23, 2006

O Segredo do Futuro

Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo
como se estivesse por vir com toda a certeza,
nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais.
(Epicuro, em sua “Carta sobre a Felicidade”,
tradução de Álvaro Lorencini e Enzo del Carratone)

 

Não há porque tentar encontrar uma resposta, tampouco há porque desistir de compreender este enigma dos enigmas na vida de todos os homens do mundo: o sentido da vida.  Por decifrá-lo, conduzimos nossa existência entre inúmeros percalços, erramos os erros mais pueris e lutamos pelas causas menos nobres, mas quase tudo o que malfazemos em nome dessa busca parece-me, ao final da jornada, ser válido e educativo, tanto o mal quanto o bem, o amor - mesmo o mais leviano - e o ódio - sempre insensato e inexplicável pela razão mais pura. 

Também sofro, erro e luto por causas passageiras nessa procura por respostas que, enfim, talvez sejam as que satisfariam a outros, mas que não me servem a mim.

Pergunto-me se não estaríamos cometendo o mesmo deslize que nos leva à incompreensão da palavra futuro.  Como tão bem expressou o filósofo grego Epicuro de Samos, cujo desterro de seus pais daquela ilha faria com que o jovem deixasse a Atenas dos filósofos mais renomados e conhecesse seu mentor Nausífanes, de quem herdaria o prazer das coisas simples, o futuro precisa ser visto com os olhos de quem nele não deposita esperanças ou temores.  O tempo futuro é, enfim, uma conseqüência natural do que vivemos no presente, este momento na linha dos acontecimentos que jamais, de fato, conseguiremos definir, volátil e instantâneo, a fugir de qualquer explanação metafísica.  Que são, então, passado, presente e futuro senão pequenas ficções que criamos na tentativa vã de mensurar nossas existências?

Epicuro, que repelia com veemência qualquer pensamento fatalista ou determinista, pregador que era da soberania da vontade humana e da liberdade individual sobre as ocorrências do mundo material.  E para o filósofo que influenciaria nomes como Sêneca e Cícero, a crença no valor da consciência moral dos homens a sobrepujar o destino é que faz com que vejamos a morte, “o mais terrível de todos os males, [como] um nada”, já que “quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos”.  Reconhecer a morte como este nada que nos amedronta e, por vezes e para alguns, fascina, é tirar de nossos ombros metafísicos o peso de males que não existem. 

Talvez nisto resida o grande mistério da existência: buscar uma aceitação da vida como a vitória sobre a morte, da qual alguns fogem “como se fosse o maior dos males” e outros “desejam como descanso dos males da vida”.  E a vida vence a morte justamente quando conseguimos conduzir nossos atos sem que as ações remetam a um momento futuro no qual nada mais existirá, onde somente as impossibilidades existam - enquanto deixamos passar por nós todo um mundo de múltiplas, infinitas possibilidades. 

E o que é o futuro senão o portal dessas possibilidades todas que ainda hemos de construir?

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Monday, March 20, 2006

O melhor e o pior de Marisa Monte

Marisa Monte iniciou seu mais novo álbum, Infinito Particular, com um verso ousado, quase uma provocação aos que sempre a criticaram por diversas razões - das musicais às mais prosaicas: Eis o melhor e o pior de mim é a primeira frase que a voz sempre perfeita da cantora entoa na faixa-título, “Infinito Particular”.  Está ali o melhor e o pior - o que a fez um sucesso de público e de boa parte da crítica e também motivo de repúdio de outra grande fatia da nada complacente crítica musical brasileira. 

A cantora carioca sempre foi a dona de sua carreira tão particular, indo contra quase todos os esquemas que rondam a indústria fonográfica: não aparece em programas de televisão, não usa sua vida particular para angariar espaço na mídia ou promoção para sua música, só concede entrevistas sobre sua música e seus discos (e, mesmo assim, como parte dos trabalhos de divulgação de seus álbuns), não se rende aos modismos de ocasião na escolha de seu repertório e, o que é mais incomum, não se esforça por gravar um álbum por ano sob o temor de ser esquecida por seu público. Ainda assim, as críticas sempre a cercaram, mesmo que indo na contramão das vendagens sempre positivas e dos espetáculos sempre lotados.  Seus discos, aliás, são de sua inteira responsabilidade, da capa à escolha dos músicos, e sequer sobre os originais a gravadora tem direito; há, isto sim, uma concessão de distribuição que vale por um determinado período de tempo, algo raríssimo no mercado fonográfico brasileiro, em que os artistas são, em geral, explorados por suas gravadoras e pressionados, muitas vezes, a buscar o sucesso fácil que lhes traga retornos financeiros mais garantidos.  Ainda assim, Marisa Monte sempre foi alvo de críticas diversas. 

Recordo-me que quando do lançamento de sua carreira, no longínqüo ano de 1988, Marisa Monte foi acusada de ser um produto da griffe Nelson Motta, produtor musical que descobriu a cantora na Itália e alavancou seu início de carreira, produzindo um espetáculo no JazzMania do Rio de Janeiro intitulado Tudo Veludo. Diziam os críticos de então que Marisa Monte não resistiria muito tempo, já que seu álbum era totalmente formado por regravações, um experiente usado, segundo eles, pelos “novas vozes femininas da MPB” que surgiam então. Logo em seguida, a imprensa carioca engendrou uma suposta disputa entre Marisa Monte e uma nova cantora gaúcha que despontava no cenário musical do Rio de Janeiro, Adriana Calcanhoto - que também sofreu as mesmas insinuações de estar se ancorando em um “repertório de regravações”…

Daí veio “Mais”, o segundo álbum de Marisa Monte, no qual foram registradas algumas das primeiras experiências dela como compositora, e as críticas foram inúmeras às suas canções algo inovadoras - mas logo se calaram ante a evidência vinda do estrangeiro: Mais era incluído em importantes publicações de música nos Estados Unidos da América como um dos cem melhores álbuns de jazz e MPB da história. Três bem sucedidos álbuns-solo depois - Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão, Barulhinho Bom e Memórias, Crônicas e Declarações de Amor -, veio o estrondoso êxito de seu trabalho de estúdio ao lado de Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes - o álbum Tribalistas -, um projeto que não teve o apoio costumeiro das turnês e entrevistas, e que foi criticado por alguns jornalistas como sendo “hermético” e “desconexo”, mas se tornou um dos grandes momentos da música popular brasileira recente, com grande aceitação popular.

E então Marisa Monte, depois de mais de cinco anos sem lançar um álbum-solo, decide presentear o público com duas preciosidades: “Infinito Particular”, um disco extremamente autoral, no qual todas as faixas são composições suas em parceria com nomes conhecidos de nossa MPB; e “Universo ao Meu Redor”, inteiramente dedicado à atmosfera do samba carioca, reunindo composições próprias e algumas pérolas de nomes como Paulinho da Viola, Dona Ivone Lara, Jayme Silva, Argemiro Patrocínio, Casemiro Vieira e até mesmo um samba esquecido dos Novos Baianos, que não teria entrado no repertório final de seu antológico álbum “Acabou Chorare”, de 1969. O primeiro álbum é intimista, pacífico, com sonoridades e versos que remetem ao momento presente da vida da cantora - que engravidou e deu à luz um menino no decorrer das gravações e lançamento do álbum Tribalistas; o segundo álbum é uma bela homenagem da cantora ao universo do samba carioca, quase um resgate histórico de uma certa sonoridade do ritmo essencialmente brasileiro que andou sendo abandonada por toda uma geração de pagodeiros e sambistas bissextos

É bem verdade que Infinito Particular não é um disco empolgante, no sentido de não motivar mais que um sentimento contemplativo no ouvinte - não há ali, por exemplo, o entusiasmo de “Já Sei Namorar” -, mas a todo momento parece que este é o exato estado de alma ao qual a cantora deseja levar seu público - e isso ela consegue com maestria. Universo ao Meu Redor é uma deliciosa mistura de sambas clássicos com novas composições, todas dentro de uma proposta sonora que é bem própria de Marisa Monte e, por isso, beirando à perfeição ao fazer uso dos talentos de alguns dos melhores músicos em suas especialidades - de Paulinho da Viola a Marçal, de Jacques Morelembaum a Cézar Mendes. Talvez aí resida o melhor de Marisa Monte: sua autenticidade, seu respeito às tradições e sua capacidade de reinventá-las sem destruir sua essência - quer seja em suas canções pop de forte raiz brasileira, quer seja nestes sambas de maravilha que sempre pontuaram sua carreira, em seus diversos momentos (quem não se lembra de sua regravação de “Preciso me Encontrar”, de Candeia, já no primeiro álbum, de “Ensaboa”, de Cartola, no álbum Mais ou da magníica “Dança da Solidão”, de Paulinho da Viola, em Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão?).

A crítica - a mesma que no início de sua carreira quis desenhar um confronto entre Marisa Monte e Adriana Calcanhoto, que hoje assina duas composições nos álbuns da cantora carioca, uma delas em parceria com a própria Marisa - deve se esforçar por tecer mil comparações distintas entre este e aquele álbum, comentando suas posições no ranking de vendas e depreciando este ou aquele modo tão particular de Marisa Monte fazer música popular brasileira de qualidade, inovadora e moderna sem ser um sem-sentido de frases soltas ou de agressividade gratuita…

O pior de Marisa Monte? Creio que é ter que esperar para vê-la ao vivo, quando todo o encantamento de seus álbuns de estúdio ganha novos e esplendorosos sentidos.

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Friday, March 17, 2006

A cada um o que é seu

Justitia est constans et perpetua voluntas jus suum cuique tribuendi.
“A justiça consiste em dar a cada um o que é seu.”
(Domiciano Ulpiano, jurista romano, 150-228DC)

O movimento estudantil de 1968, as lutas de resistência aos abusos da ditadura militar dos anos 1970 e as manifestações pró-diretas e pró-impeachment das décadas de 1980 e 1990 deixaram no Brasil como herança um estranho amor ao enfrentamento. Para uma parte considerável de nossos intelectuais - ainda existirão no país? -, jornalistas e pensadores em geral, parece existir uma desconfiança atávica em relação à democracia representativa e às instituições da República, um sentimento que encontra justificativa nos anos difíceis que viveram no passado, quando a liberdade de expressão e de defesa de suas idéias era um direito pouco respeitado e as instituições públicas pareciam apenas corroborar com a injustiça vigente.

Contudo, os tempos são outros, a liberdade voltou a ser um valor essencial em nossas instituições e a justiça, em que pesem nossa legislação retrógrada e desatualizada, é um estado de coisas passível de ser alcançado pelas vias da lei. Mas a desconfiança parece persistir e muitos desses homens estudados e cultos caminharam, em contrapartida, pelas veredas do apoio intelectual à “luta popular”. Para eles, a vontade do povo nasce não das urnas, mas de confrontos diretos como os capitaneados por movimentos sociais como o Movimento dos Sem-terra (MST) e outros tantos do mesmo viés ideológico.

Como alerta Bolívar Lamounier em um artigo intitulado Eles, que odeiam tanto a política (publicado na revista Primeira Leitura, edição de fevereiro de 2006), o meio acadêmico brasileiro começa a difundir com maior freqüência idéias como a de “refundação da democracia” ou de “radicalização das causas sociais”, que se fundem com a noção de que a democracia representativa seria “morosa e incapaz de concentrar esforços” em prol do bem comum. Se antes o “impedimento principal [era] o eleitor”, visto como incapaz de votar corretamente, ultimamente “o ceticismo voltou-se contra os partidos políticos e o Legislativo”, diz Lamounier. Tenta-se até mesmo, a cada eleição, levantar suspeitas contra a urna eletrônica - e isso tudo em um país com eleições organizadas, ordenadas e honestas como são as nossas, exemplo já seguido - e copiado - por vários países do mundo.

Há quem pregue inclusive o fim do Poder Legislativo, que passaria a ser exercido pelo povo de forma direta, por meio de plebiscitos, referendos e iniciativas populares - uma idéia que, para seus ideários, viria juntamente com um governo central fortalecido e formado por elites técnicas e capazes de efetuar e consolidar planejamentos a longo prazo para o país. A contar do recente plebiscito realizado no Brasil, há que se perguntar se tal ferramenta é mesmo capaz de substituir o papel do Poder Legislativo - ainda que os brasileiros em geral questionem tantos aspectos do funcionamento do atual parlamento.

Mas que futuro poderíamos esperar de um país governado pelo confronto aberto entre o povo e seu governo? Uma pequena amostra já é observada no Brasil há tempos, por meio das ações do supracitado MST. Fazendas são invadidas, construções e maquinário em seu interior são destruídos, animais são abatidos para alimentar os invasores e nada é feito pelas autoridades policiais ou políticas para que tais práticas sejam contidas ou coibidas. Há, sim, todo um teatrinho de negociações entre os governos e tal grupo que deliberadamente não tem sequer existência jurídica, para evitar responsabilizações futuras pelos crimes que cometem; e o resultado tem sido sempre o mesmo: o movimento, cuja representatividade da classe que dizem defender é questionável, sempre recebe algum benefício, seja em financiamentos, novas terras ou mesmo espaço na mídia, que em geral defende o MST abertamente. A adoção de tal “democracia direta” talvez motivasse também os produtores rurais a organizar ações de invasão, digamos, a acampamentos dos sem-terra, mas qual seria então o resultado? A cada um o que é seu, diz um princípio basilar da justiça. Mas como se pode definir qual o melhor, o mais justo, o mais meritório dos lados de uma contenda deflagrada por grupos populares antagônicos?

A participação popular direta parece impensável em um país de dimensões enormes como o nosso. Pior ainda é imaginar que há os que pregam que o melhor caminho para a prevalência da vontade popular é o do confronto, da luta ideológica e da radicalização.

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Thursday, March 16, 2006

Militares nas favelas

Dados divulgados pelo Instituto Brasileio de Pesquisa Social (IBPS) sobre a recente operação realizada pelo Exército Brasileiro em diversas favelas cariocas revelou um fato que em nada surpreende, mas que em muito preocupa: cerca de setenta por cento (70%) dos moradores da cidade do Rio de Janeiro aprovaram a ocupação dos morros realizada pelos militares no início deste mês. 

Um dado significativo da pesquisa é o de que os índices de aprovação das operações do Exército foram mais altos entre os entrevistados de maior escolaridade (73,7%) e de renda mais alta (84,3%).  Um terço dos analfabetos entrevistados declarou que a operação não era “nem boa, nem ruim”.

Operações como esta geram imensa expectativa na população, isso é o que mostram tal pesquisa e a experiência de outras ocasiões em que o Exército Brasileiro foi policiar as ruas da capital fluminense.  Durante a RIO-92, a famosa conferência das Nações Unidas sobre meio ambiente realizada no Rio de Janeiro em 1992, as vias principais de acesso ao evento e os pontos turísticos da cidade foram controlados por soldados armados e a cidade rejubilou-se pelo clima de paz e pela diminuição da violência em diversos pontos da cidade.  Em outra ocasião, soldados da Polícia do Exército praticaram técnicas de policiamento por uma semana na Praça Saens Peña, conhecido ponto de comércio e lazer do tradicional bairro da Tijuca, naquela mesma cidade, e o resultado foi o apelo de comerciantes e moradores para que o Exército prolongasse seu exercício por mais tempo naquela região.  Contudo, o uso das Forças Armadas para operações como esta pode se tornar uma faca de dois gumes.  No caso presente, as ações do Exército mostraram que, sim, aquela força armada tem um poder maior de intimidação que as corporações policiais do Rio de Janeiro, que em parte já cairam no descrédito da população carioca.  Mas a operação do Exército também deixou claro que a presença de soldados nas ruas não representa uma mágica diminuição da violência, nem um automático silenciar das armas dos traficantes que dominam os morros cariocas - dois efeitos que jamais foram prometidos por aquela força armada como resultado de suas operações, aliás. Mas foram várias as situações de confronto aberto entre Exército e bandidos, com algumas vítimas entre a população alheia ao conflito, e a mídia brasileira adora criar notícias em torno dessas lamentáveis ocorrências, pontuando o acontecimento maior com as histórias particulares dos “civis feridos em combate”.  Além disso, a “demora” - segundo alguns meios de comunicação cariocas, que parecem ignorar o sem-número de casos sem solução por parte das corporações policiais daquele estado - em recuperar o armamento roubado, em que pese ser compreensível, também funciona como péssimo elemento de propaganda contrária ao uso das Forças Armadas em situações semelhantes.  E o Exército não precisa de tal exposição para mostrar seu valor, já consagrado para a maioria da população brasileira.

Não me coloco aqui do lado das Organizações Não-governamentais que, de uma forma romântica, vêem a favela como um “meio ambiente social” a ser preservado e quase colocam a questão da criminalidade como um detalhe a mais nesse panorama das “comunidades carentes”.  Creio que nenhum de seus moradores optaria ali morar se tivesse condições financeiras de viver em qualquer outro lugar, assim como não acredito que o caminho do crime abarque qualquer um apenas porque este viva em uma favela. 

Tampouco faço côro aos que louvam a operação do Exército nos morros cariocas como um “sucesso”.  Parece-me, isso sim, que a cada ação dos militares no papel de polícia urbana - uma situação que sempre deixa na população um sentimento de frustração - as Forças Armadas perdem um pouco de seu status de “última reserva moral e técnica”, nas palavras do cientista político Geraldo Tadeu Monteiro, presidente do IBPS.  Cabe recordar que elas foram eleitas em pesquisas recentes como as instituições de maior credibilidade no Brasil, acima até mesmo da Igreja e da Presidência da República. Mas confesso que minha maior surpresa em todo o ocorrido foi o espanto expresso por alguns jornalistas e pensadores em nossos maiores jornais sobre o poder operacional e a solução dada pelos militares ao caso do roubo de armamento em um de seus quartéis. Será que eles realmente duvidavam da capacidade de nossa maior força armada? Será necessária uma operação como esta para que eles acreditem que o Brasil tem corporações preparadas para confrontar situações nas quais o braço forte da lei seja requisitado?

Creio que o Rio de Janeiro, cidade minha natal, já não existe como o tenho aqui em minhas memórias.  A incompetência dos governantes que conheci desde que lá nasci, há mais de trinta e cinco anos, os quais nada fizeram para conter o crescimento desordenado da cidade em direção aos morros - um processo que, é preciso recordar, já existe desde os tempos de Pereira Passos, que destruiu os cortiços do Centro para construir as amplas avenidas que hoje conhecendo, mas lançando toda uma leva de pobres sem teto nas ruas do Rio.  Hoje, quando as favelas se tornaram pequenas cidades - algumas, como a Rocinha, já teriam atingido o patamar de cidades de médio porte em termos populacionais - sem a presença do Estado a garantir uma educação de qualidade e voltada à formação profissional, um apoio de saúde adequado, uma política de planejamento familiar e uma sensação permanente de proteção e segurança, parece-me difícil conceber uma solução para minha sofrida, pobre, distante cidade. 

As favelas estão nas mãos do crime organizado, um poder paralelo que assume funções dos poderes públicos ausentes, e isso não é mais novidade alguma.  A questão é saber até quando os governantes cariocas irão fingir que o problema é localizado, ou que não existe.  Em verdade, esses mesmos governantes deveriam refazer o mapa geopolítico do Rio de Janeiro, assinalando essas mesmas favelas como espaços em branco, nos quais as leis do país não são aplicáveis.  São governantes de um estado que há muito não é integral e soberano, e de uma capital que perde a cada dia seu encanto de “cidade maravilhosa”.

Por sorte ainda temos um Exército que nos proteje da rendição completa ao crime e à ilegalidade.

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Wednesday, March 15, 2006

Os Senhores da Guerra

 

“Lá fora estão os Senhores da Guerra,
cantam já hinos de vitória.
Já não há memória
de paz na terra.”

(Os Senhores da Guerra,
canção do grupo português Madredeus.)

Há que existir uma razão maior para que o governo de George W. Bush, atual presidente dos Estados Unidos da América, use a guerra como carro-chefe de sua gestão. O filho de George Bush, que quando presidente, em 1990, deflagrou a chamada “Guerra do Golfo” em defesa do invadido Kwait, parece não saber governar sem a fumaça escura de uma nova ameaça de guerra a surgir no horizonte.

Desta feita, o governo estadunidense está a lançar uma campanha financeira, diplomática e política com o intuito de desestabilizar os líderes políticos e religiosos iranianos alinhados com a nova gestão de Mahmoud Ahmadinejad, o descontrolado presidente daquele país, que já em seu discurso de posse teceu ameaças e provocações aos Estados Unidos e a outros países ao falar do desejo do Irã de retomar seu programa nuclear e construir armas de destruição em massa. Os EUA, além de pressionarem o Conselho de Segurança da ONU para que tome medidas coercitivas contra o Irã de Ahmadinejad, falam também em fortalecer a presença diplomática dos EUA nos países vizinhos ao país que um dia foi berço do Império Persa. Contudo, a intenção não é pacífica: os EUA usariam esta nova situação para fortalecer e financiar a oposição e a sociedade civil iraniana, ações que seu governo não considera questionáveis, já que, nas palavras do próprio presidente Bush em discurso feito no início de março de 2006, “o Irã é um dos países que promove o terrorismo no mundo”; na ocasião, ele acusou o exército daquele país de fornecer explosivos usados no Iraque em atentados contra tropas norte-americanas. E contra o terror tudo é justificável aos olhos do chamado “Patriot Act”, a lei norte-americana anti-terrorismo - até mesmo interferir na política interna alheia.

Em que pese o desejo de boa parte do mundo ocidental de que os regimes teocráticos - caso do Irã - se pacifiquem (ou pereçam de uma vez por todas, dando lugar a salutares regimes seculares e com total liberdade de culto), as medidas anunciadas pela imprensa estadunidense enchem-nos de medo, pois parecem roteiro de um antigo filme muitas vezes já visto naquela região. Afinal, Saddan Hussein chegou à presidência por meio de estratagema semelhante feito pelo governo dos EUA na década de 1980, com o mesmo intuito, o de derrubar o regime vigente no Irã. Anos mais tarde, o mesmo Hussein, tornado ditador pelo poder militar emprestado pelos EUA, viria a causar problemas com seus sonhos de expansão territorial e sua sede de poder. Desta feita, os EUA já teriam aprovado cerca de US$ 75.000.000,00 (setenta e cinco milhões de dólares) que gentilmente serão cedidos a ONGs, partidos de oposição e rádios iraquianas no exílio para diversas ações anti-governo no Irã.

Para os que observam tais movimentos de um ponto distante do tabuleiro de xadrez das relações internacionais, parece que Bush tenta reavivar seus índices internos de aprovação (em fevereiro de 2006, foram inferiores a quarenta por cento), algo minados com o insucesso da invasão iraquiana em restabelecer a paz na região - ainda que seja exagerado falar na existência de uma “guerra de resistência do povo iraquiano” à ocupação estadunidense. Em verdade, quanto mais nos afastamos na memória do famigerado onze de setembro, mais a população estadunidense está a se perguntar sobre o verdadeiro sentido de uma guerra mantida a peso de ouro no território de um país que ela mal sabe onde se localiza no mapa-múndi.

E, no entanto, os Estados Unidos planejam, novamente, derrubar um governo através do financiamento de supostos “rebeldes”. Não percebem tais autoridades que o problema daquela região reside em questões religiosas e étnicas que não serão solucionadas, infelizmente, à boca da urna. Sunitas seguirão votando em sunitas, xiitas em xiitas, curdos seguirão sendo oprimidos por ambas as correntes religiosas e políticas.

Enquanto isso, os Senhores da Guerra começam a se articular para obter do Conselho de Segurança da ONU o que os EUA não puderam obter por ocasião da invasão do Iraque: permissão para uso da força militar caso o Irã se recuse a interromper seu programa de enriquecimento de urânio. Autorizados pela ONU, os EUA poderão, com mais propriedade, solicitar a cooperação militar dos demais países da organização e operar sob o confortável manto da “ocupação permitida” em “defesa da democracia no mundo”.

É difícil julgar méritos em uma questão como esta, na qual se contrapõem dois presidentes, Ahmadinejad e Bush, que usam o palanque presidencial como plataforma eleitoreira estendida, defendendo (e executando, eventualmente) suas teses radicais na tentativa de angariar simpatias dos seus seguidores e eleitores. Ambos têm razão e guardam razão nenhuma. Resta apenas a certeza de que entre os Senhores da Guerra não há perdedores: os que mais perdem somos sempre nós, que aguardamos à distância o destino do mundo ser traçado pelas vaidades e pela cegueira de ambos os lados dessa estúpida contenda.

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Monday, March 13, 2006

Fastio, apetite e vontade

Este texto é dedicado, no dia de seu aniversário,
à minha amada esposa, a melhor professora que conheço
e que tanto me ensinou sobre o prazer de ensinar, o dom de perdoar
e a alegria de servir, de amar e de ser amado com sinceridade.

Há os que façam uma interessante analogia entre a mágica alquimia das cozinheiras e a tarefa de ensinar.  Para eles, a arte de misturar tão distintos ingredientes de modo a preparar um prato que seja convidativo aos olhos  e delicioso ao paladar aproxima-se da tarefa de um professor em sala de aula, qualquer que seja o tipo de disciplina e o nível de escolaridade dos alunos a quem deva servir.  Pelos anos de experiência e, o que é mais importante, pelos diversos experimentos que estiveram a fazer ao longo de sua prática culinária, errando e acertando e desenvolvendo novos pratos, é que as cozinheiras constroem sua capacidade de sedução e de gerar em nós novos prazeres sensoriais.  Assim também seriam, crêem alguns, os professores.

Sendo um cozinheiro bissexto, e um professor que ainda tem muito o que aprender em seu ofício de ensinar, confesso que a analogia com aquelas mestras do sabor é inspiradora, mas me parece algo distante de atingir.  Sei o quanto ainda tenho a praticar para alcançar a confecção de pratos mais sofisticados e atrativos; assim também me sinto em relação à minha atuação como professor.  Por isso, gostaria de compartilhar uma pequena confidência para, a partir dela, buscar uma nova analogia que seja mais confortável para mim e, creio eu, para outros colegas que começam na tarefa nobre de transmitir conhecimentos.

Gosto muito de agradar meus amigos e as pessoas que mais amo preparando os poucos pratos que tenho em meu repertório de chef amador - e já descobri até mesmo algumas especialidades.  Mas nem sempre a correria da vida me permite cozinhar para os amigos, e quando chegam de última hora, ou sem um aviso com muita antecedência, algumas visitas, já ocorreu a mim e à minha amada esposa recorrermos a um estratagema simples, mas eficiente: vamos até uma padaria próxima de nossa casa e compramos um bonito bolo para servir às visitas.

Para mim, a tarefa de ensinar assemelha-se a servir um “bolo de padaria”.

Imaginemos que este “bolo” é uma junção dos conteúdos que nos dispomos a transmitir aos alunos e de nosso conhecimento prévio, sobretudo o que nasceu de nossa prática nos estudos e atuação direta naquele tema.  Entenda-se que a idéia de usar a imagem do “bolo de padaria” não significa que a educação é algo que está pronto e é aplicável  a todos; antes, a intenção é mostrar que o conteúdo e o conhecimento nosso sobre o que será aos alunos transmitido são elementos pré-existentes ao processo ensino-aprendizagem e ao momento pedagógico de sala de aula e, portanto, um “bolo” que já nos chega preparado anteriormente por mãos mais habilidosas que as nossas: as dos pesquisadores, teóricos e mestres que nos antecederam na construção daquele saber específico.

Mas, como tornar este “bolo de padaria” algo atraente?  Retomando minha pequena confidência, eu e minha esposa costumamos “melhorar” o bolo com o que estiver ao nosso alcance: molhá-lo com um pouco de suco de laranja ou cobri-lo com uma calda de chocolate, enfeitá-lo com uns confeitos ou banhá-lo com grãos de açúcar…  Podemos, decerto, servir o bolo do jeito que ele vem da padaria, mas para alguns a visão pode não ser das mais apetitosas e nós, lá em casa, preferimos fazer alguma coisa a mais para que a nossa oferta de um pedaço daquele bolo, agora confeitado com capricho, seja irresistível.

Em sala de aula não é diferente.  Podemos oferecer o “bolo de padaria” dos conteúdos daquela específica disciplina do jeito que os recebemos - secos, sem esforço algum para cativar os olhos e a “gula” dos alunos por aquela fatia do saber.  E será tolice imaginar que nenhum aluno irá querer um pedaço desse bolo sem confeitos: há sempre os que  têm fome, e que comerão o que oferecermos, qualquer que seja a forma que lhes for apresentado o alimento: são os alunos que já trazem para a sala de aula tamanha motivação por aprender aquele conteúdo, que o pouco  que lhes é oferecido será sempre o suficiente - e não será espantoso se alguns ainda buscarem mais daquele saber para se alimentar, mesmo que nada tenhamos colocado no “bolo” para enobrecê-lo.  Mas há os alunos que precisam ser convencidos de que aquele “alimento” merece  ser degustado, e para esses não adianta dizer que “bolo é nutritivo”, que aquele conhecimento é importante para ele: é preciso convencê-los disso, despertar-lhes o “apetite” para o saber que se oferece.  “Calda”, “confeitos”, “cobertura” - que podemos entender nesta metáfora como sendo as técnicas de ensino, a metodologia, a empatia com os alunos, a motivação pessoal, os objetivos claros de cada ação pedagógica e a atualização constante -, tudo é válido para atiçar o paladar desses alunos mais exigentes.

Há, ainda, os alunos que estão “enfastiados” e recusam-se sequer a experimentar daquele “bolo confeitado” que lhes é oferecido - e que você, professor, preparou com tanto carinho e cuidado.  O que fazer?  Minha experiência como anfitrião fez-me ver que é melhor não forçar o pedaço de bolo goela abaixo de seus convivas; deixe que eles vejam os outros colegas servindo-se com gosto da iguaria que você está a servir e, quem sabe, o apetite - ou mesmo a curiosidade - crescerá neles ao ponto de eles pedirem para “provar só um pedacinho”…

A culinária e a educação são ofícios-irmãos na arte de abrir os sentidos alheios a novas experiências, a novos mundos de sabor e saber. E cabe a nós, professores, caso ainda não dominemos a alquimia dos grandes cozinheiros, elaborar a melhor maneira de apresentar o conhecimento que em nossas mãos foi depositado um dia de forma a deixar nossos alunos com”água na boca” para seguir aprendendo mais e mais.

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