Wednesday, February 22, 2006

Memórias de uma escrava

 

“Histórias como esta nunca deveriam ser contadas.”

(frase de Chyio, personagem principal de Memórias de uma Geisha, que abre o filme dirigido por Ron Marshall e adaptado do romance homônimo de Arthur Golden)

Que valor terá uma produção hollywoodiana sobre o Japão pré-Segunda Grande Guerra, no qual os personagens japoneses principais são vividos por atores chineses, as locações são todas feitas em solo californiano, o diretor é famoso por seu trabalho em musicais da Broadway e o livro que deu origem à adaptação cinematográfica é a história de uma mulher japonesa contada em primeira pessoa por um escritor norte-americano?  O resultado de tão improvável arranjo é Memórias de uma Geisha, um dos filmes mais indicados à premiação da Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood em 2005 - e por verdadeiros méritos da produção. 

O filme de Ron Marshall - diretor do oscarizado e genial Chicago - conta com sutileza e suavidade a história de uma geisha e os caminhos que ela percorreu até se tornar a mais famosa dessas mulheres em atividade na Kyoto dos anos 1940.  As imagens, o vestuário e as músicas são marcantes e de uma beleza entorpecedora, à exemplo do que era a arte das geishas e sua relação com seus clientes(…)

O filme tem como grande mérito transformar em imagens o universo minuciosamente descrito nas páginas da história original.  Em que pese ser uma obra de ficção, o romance que deu mote ao filme de Marshall, escrito por Arthur Golden, é reconhecido por sua fidelidade àquele universo - é famosa a situação constrangedora que o autor criou ao agradecer, em seu livro, a uma famosa geisha de Kyoto pelas inúmeras entrevistas que ela lhe concedera em segredo - um muito obrigado que rendeu àquela mulher inúmeras ameaças de morte por ter ela quebrado o código de silêncio que rege tal profissão.  A obra leva também o leitor a inúmeras reflexões sobre o papel daquelas mulheres na sociedade japonesa até a derrota daquele país para os aliados na Segunda Guerra Mundial.(…)

Filha de pescadores pobres em uma aldeia distante no Japão dos anos trinta, Chyio - a menina com olhos de água - é vendida como escrava para uma  okiya (…), uma casa que mantinha e educava mulheres para aquele milenar ofício que os ocidentais confundiram sempre, e erroneamente, com a prostituição - ainda que o objetivo das okyia não diferissem das casas de cafetina do Ocidente, ou seja, angariar dinheiro por meio do trabalho de mulheres escravizadas por seu ofício, que ali chegavam por meio de um comércio clandestino (ainda que por todos conhecido) de escravas compradas dos próprios pais daquelas meninas. Por detrás da fachada de beleza, arte e encantamento daquelas etéreas mulheres - educadas em rígido sistema para o canto, a dança e a arte da conversação e da servidão para servirem de entertainers para os ricos senhores da cidade - há um sistema de competição e opressão entre as donas de okiya e as próprias geishas pelos favores e proteção dos homens mais ilustres - um mundo de ilusões no qual a virgindade das maiko, as aprendizes de geisha, é leiloada em grandes eventos públicos; onde o amor e a amizade são abolidos das vidas daquelas mulheres.  Apesar de todo o sofrimento, da separação de suas famílias e das humilhações, a fuga para Chiyo - e para todas aquelas meninas e moças - parece ser impensável, e sua existência torna-se apenas útil quando seus serviços como geisha rendem dinheiro às donas dos okiya(…).  A saída, então, para meninas como Chyio, passa a ser o sonho torto de se tornarem famosas e veneradas geishas, única forma possível de independência para elas.(…)

Uma das personagens principais da história, de nome Mameha,(…)diz à certa altura que sua jovem maiko deve sempre recordar que “ geishas não são cortesãs, nem esposas; vendemos nossas habilidades, não nosso corpo; criamos um outro mundo secreto, um mundo só de beleza; a própria palavra gueixa significa arte e ser uma geisha é ser julgada pelos outros como uma obra de arte em movimento”.  Que dizer desta forma de pensar senão que ela resume, com esta ou aquela pequena mudança de palavras, boa parte da história da opressão, da educação para a sumissão a que têm sido submetidas as mulheres de todo o mundo ao longo dos séculos?      

A dominação e a subserviência feminina parece sempre depender da participação das próprias mulheres como opressoras ou colaboradoras para a manutenção de tal sistema.  Mas não há, nesta constatação, nenhuma forma de censura.  O que se vê retratado em Memórias de uma Geisha é apenas um exemplo do que acontece em tantas outras partes do mundo em que a mulher é o primeiro algoz da mulher(…) Em que consistem tais sistemas de opressão da mulher senão no atendimento às vontades e fantasias masculinas?  Contudo, há que se ter amplitude ao analisar tal situação da mulher, pois há grilhões feitos de ferro pesado e duro, mas também há as feitas na seda dos quimonos ou nas blusinhas baby-look das jovens modernas; (…) há, em verdade, vários tipos de escravidão, a das gueixas e da de tantas outras mulheres cujo papel se limita ao de alimentar os desejos de dominação masculinos.  Ao assistir Memórias de uma Geisha, é difícil não traçar paralelos mentais entre a preparação minuciosa e dolorosa daquelas mulheres antes de uma noite de serviço aos homens ricos de Kyoto e os sacrifícios pelos quais algumas mulheres contemporâneas se submetem em nome de um bem-estar algo questionável. (…) A verdadeira libertação feminina parece residir, em grande parte, nas mãos das próprias mulheres e em sua vontade de servir -ou não - às fantasias do universo masculino sobre as mulheres - e à crueldade delas derivada.(…) [LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO]

“Histórias como esta nunca deveriam ser contadas.”

(frase de Chyio, personagem principal de Memórias de uma Geisha, que abre o filme dirigido por Ron Marshall e adaptado do romance homônimo de Arthur Golden)

Que valor terá uma produção hollywoodiana sobre o Japão pré-Segunda Grande Guerra, no qual os personagens japoneses principais são vividos por atores chineses, as locações são todas feitas em solo californiano, o diretor é famoso por seu trabalho em musicais da Broadway e o livro que deu origem à adaptação cinematográfica é a história de uma mulher japonesa contada em primeira pessoa por um escritor norte-americano? O resultado de tão improvável arranjo é Memórias de uma Geisha, um dos filmes mais indicados à premiação da Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood em 2005 - e por verdadeiros méritos da produção.

O filme de Ron Marshall - diretor do oscarizado e genial Chicago - conta com sutileza e suavidade a história de uma geisha e os caminhos que ela percorreu até se tornar a mais famosa dessas mulheres em atividade na Kyoto dos anos 1940. As imagens, o vestuário e as músicas são marcantes e de uma beleza entorpecedora, à exemplo do que era a arte das geishas e sua relação com seus clientes, mas o filme torna-se ainda mais arrebatador pelo trabalho magistral de interpretação de grandes nomes do cinema oriental como a sempre bela e talentosa Gong Li, Michelle Yeow (de O Tigre e o Dragão), Ziyi Zhang (a jovem e talentosa protagonista [veja fotos], famosa por seus papéis recentes em filmes como O Clã das Adagas Voadoras e Herói) e Ken Watanabe - atores que começam a se tornar conhecidos do público ocidental graças a filmes como este, que ousam não escalar para nenhum papel de destaque grandes astros ocidentais na tentativa vã de chamar bilheteria simplesmente com tal estratagema.

O filme tem como grande mérito transformar em imagens o universo minuciosamente descrito nas páginas da história original. Em que pese ser uma obra de ficção, o romance que deu mote ao filme de Marshall, escrito por Arthur Golden, é reconhecido por sua fidelidade àquele universo - é famosa a situação constrangedora que o autor criou ao agradecer, em seu livro, a uma famosa geisha de Kyoto pelas inúmeras entrevistas que ela lhe concedera em segredo - um muito obrigado que rendeu àquela mulher inúmeras ameaças de morte por ter ela quebrado o código de silêncio que rege tal profissão. A obra leva também o leitor a inúmeras reflexões sobre o papel daquelas mulheres na sociedade japonesa até a derrota daquele país para os aliados na Segunda Guerra Mundial.

Filha de pescadores pobres em uma aldeia distante no Japão dos anos trinta, Chyio - a menina com olhos de água - é vendida como escrava para uma okiya em Gion, o milenar e secreto bairro das gueixas em Kyoto. Uma okiya era uma casa que mantinha e educava mulheres para aquele milenar ofício que os ocidentais confundiram sempre, e erroneamente, com a prostituição - ainda que o objetivo das okyia não diferissem das casas de cafetina do Ocidente, ou seja, angariar dinheiro por meio do trabalho de mulheres escravizadas por seu ofício, que ali chegavam por meio de um comércio clandestino (ainda que por todos conhecido) de escravas compradas dos próprios pais daquelas meninas. Por detrás da fachada de beleza, arte e encantamento daquelas etéreas mulheres - educadas em rígido sistema para o canto, a dança e a arte da conversação e da servidão para servirem de entertainers para os ricos senhores da cidade - há um sistema de competição e opressão entre as donas de okiya e as próprias geishas pelos favores e proteção dos homens mais ilustres - um mundo de ilusões no qual a virgindade das maiko, as aprendizes de geisha, é leiloada em grandes eventos públicos; onde o amor e a amizade são abolidos das vidas daquelas mulheres. Apesar de todo o sofrimento, da separação de suas famílias e das humilhações, a fuga para Chiyo - e para todas aquelas meninas e moças - parece ser impensável, e sua existência torna-se apenas útil quando seus serviços como geisha rendem dinheiro às donas dos okiya, que mantém o instável equilíbrio de tal sistema de opressão feminina através de falsos vínculos familiares, nos quais geishas e suas maikos, agenciadoras e suas protegidas, chamam-se carinhosamente de irmã mais velha e irmã mais nova, de mãe e filha. A saída, então, para meninas como Chyio, passa a ser o sonho torto de se tornarem famosas e veneradas geishas, única forma possível de independência para elas.

Uma das personagens principais da história, de nome Mameha, a mais famosa geisha de Kyoto e aquela que caridosamente toma para si a tarefa de educar e preparar a menina Chyio, agora sua aprendiz (maiko), para o ofício de gueixa - contar mais sobre o porquê de sua atitude benevolente é estragar algumas surpresas da história - e que dá à jovem o nome de geisha de Sayuri, diz à certa altura que sua jovem maiko deve sempre recordar que ” geishas não são cortesãs, nem esposas; vendemos nossas habilidades, não nosso corpo; criamos um outro mundo secreto, um mundo só de beleza; a própria palavra gueixa significa arte e ser uma geisha é ser julgada pelos outros como uma obra de arte em movimento”. Que dizer desta forma de pensar senão que ela resume, com esta ou aquela pequena mudança de palavras, boa parte da história da opressão, da educação para a sumissão a que têm sido submetidas as mulheres de todo o mundo ao longo dos séculos?

A dominação e a subserviência feminina parece sempre depender da participação das próprias mulheres como opressoras ou colaboradoras para a manutenção de tal sistema. Mas não há, nesta constatação, nenhuma forma de censura. O que se vê retratado em Memórias de uma Geisha é apenas um exemplo do que acontece em tantas outras partes do mundo em que a mulher é o primeiro algoz da mulher - das mães que levam suas filhas às mutilações genitais na Etiópia às agenciadoras de prostitutas mirins na Praça da Alfândega, em Porto Alegre; das líderes das okiya no Japão às mães muçulmanas que ajudam a perpetuar a opressão feminina em tantos países islâmicos; das mães filipinas, que vendem suas filhas para ricos negociantes árabes, às mães ocidentais modernas que constróem nas mentes de suas filhas ainda adolescentes o sonho pueril de se tornarem modelos, custe a elas o que custar - façam elas com seu corpo e seu pudor o que tenham que fazer.

Em que consistem tais sistemas de opressão da mulher senão no atendimento às vontades e fantasias masculinas? Contudo, há que se ter amplitude ao analisar tal situação da mulher, pois há grilhões feitos de ferro pesado e duro, mas também há as feitas na seda dos quimonos ou nas blusinhas baby-look das jovens modernas; há a mutilação física e cruel dos costumes mais tribais, mas também a castração a que se auto-impõem as mulheres que determinam sua vida em função do que o universo feminino delas espera. Há, em verdade, vários tipos de escravidão, a das gueixas e da de tantas outras mulheres cujo papel se limita ao de alimentar os desejos de dominação masculinos. Ao assistir Memórias de uma Geisha, é difícil não traçar paralelos mentais entre a preparação minuciosa e dolorosa daquelas mulheres antes de uma noite de serviço aos homens ricos de Kyoto e os sacrifícios pelos quais algumas mulheres contemporâneas se submetem em nome de um bem-estar algo questionável. No Gion, o sonho maior das geishas era o de serem “adotadas” por um danna, uma espécie de mecenas que manteria sua protegida bem alimentada e segura em termos financeiros - algo equivalente a uma vida independente para uma geisha; no mundo moderno, quantas mulheres de todas as classes sociais ainda não alimentam o desejo de se casar com um homem rico que as mantenha e sustente em uma vida de comodidades? A verdadeira libertação feminina parece residir, em grande parte, nas mãos das próprias mulheres e em sua vontade de servir -ou não - às fantasias do universo masculino sobre as mulheres - e à crueldade delas derivada.

Ao contrário do que diz a personagem principal em sua narração inicial no magistral, belíssimo filme de Ron Marshall, histórias como esta precisam ser contadas - ainda que o desejo maior é que sua revelação leve-nos a um dia no qual a opressão feminina seja apenas um conto triste de um passado que já não exista mais.

Posted by Frizero at 14:28:18 | Permalink | Comments (6)