Possível, mas muito difícil
Em recente entrevista, concedida em seis de fevereiro de 2006 à revista semanal Newsweek, Pervez Musharraf, presidente do Paquistão, um dos poucos países islâmicos abertamente aliados dos Estados Unidos da América, foi questionado mais uma sobre sobre a sua crença em uma futura captura do líder da rede terrorista Al-Qaeda, Osama bin Laden, tido como o grande orquestrador de eventos como os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001em território estadunidense. A pergunta foi motivada pelos recentes incidentes ocorridos no Paquistão, quando aviões militares dos EUA atacaram grupos rebeldes ligados à Al Qaeda dentro do território daquele país asiático - uma ação que motivou uma representação do governo paquistanês junto à diplomacia norte-americana por “desprezo à soberania paquistanesa”. A resposta de Musharraf àquela indagação sobre a captura do homem mais procurado pelo governo estadunidense foi curta e enfática:
- Possible, but very difficult.
Pervez - que em sua terra natal é também alvo de ameaças terroristas de grupos radicais que mais de uma vez já promoveram atentados contra o presidente - expressou, com sua economia de palavras, uma percepção que talvez fuja aos que lideram a caçada norte-americana aos terroristas da Al-Qaeda: o relevo e a geografia de países como o Paquistão e o Afeganistão - além da falta de infraestrutura de muitas regiões de população eminentemente nômade - permitem que os líderes terroristas mais importantes, como Osama bin Laden e Ayman Al-Zawahiri, virtualmente possam permanecer ocultos em pequenas bases ocultas em suas montanhas por anos a fio - como efetivamente vem acontecendo; os grupos terroristas têm organização maleável, quase volátil, que lhes permite mudar de nome e aglutinar-se com outros grupos, dificultando qualquer acompanhamento mais detalhado; ações militares são eficazes apenas para dar tempo suficiente para a realização de outras ações mais detalhadas na área de Inteligência, não sendo em si uma soulção eficaz no combate ao terrorismo; o fundamento do terrorismo de inspiração islâmica é o extremismo, e este está dentro das mentes das pessoas, tornando-se impossível dar cabo de um grupo terrorista apenas eliminando seus líderes - o que remete à caçada desesperada pelas cabeças de bin Laden e Zawahiri, por exemplo, quando em verdade a morte desses dois líderes pouco afetaria uma organização que mais funciona como um grande guarda-chuva inspiracional de ações terroristas ocorridas em todas as partes do mundo que como um braço forte e controlador de tais ataques (já que dificilmente alguém oculto nas íngremes montanhas do Paquistão, por exemplo, teria capilaridade para engendrar e ordenar atentados na Espanha ou Inglaterra).
Em que pese a questionável forma como os Estados Unidos da América anda a conduzir sua política externa nos últimos tempos - travando guerras contra ditadores que eles mesmo ajudaram a colocar no poder em um passado não muito distante -, é compreensível que um país atingido pelos incidentes que marcaram aquele onze de setembro se veja no direito de tomar medidas de retaliação aos que cometeram tais atrocidades. Qualquer país tomaria alguma atitude em proteção aos seus interesses, ainda que os anti-americanos insistam em demonizar toda e qualquer ação que venha dos Estados Unidos da América. O cerne da questão, contudo, não será alcançado em invasões maciças e ataques a alvos civis sem qualquer ordenação, tampouco na humilhação e no desrespeito aos direitos humanos de pessoas cuja participação ou envolvimento com o terrorismo sequer fora ainda confirmada; ele reside no arcabouço filosófico por trás de tais ataques - e os incidentes recentes causados pelos protestos de manifestantes islâmicos em diversos países contra a publicação de caricaturas do profeta Mohammed mostram a extensão do problema.
A morte dos líderes - e símbolos, por que não dizer - da rede Al-Qaeda e de outros grupos terroristas de igual viés ideológico não representaria, de fato, nenhuma mudança mágica na guerra contra o terrorismo mundial. Talvez apenas acirrasse os ânimos e motivasse a ocorrência de novos ataques, já que a Al-Qaeda, por maior que seja o número de grupos a ela efetivamente filiados, serve aos extremistas hoje em dia mais como exemplo tosco a ser seguido que como financiador capaz de manter tantas e tamanhas ações terroristas em todo o mundo. Por isso, é possível que os Estados Unidos da América capture Osama bin Laden um dia, talvez até por pura casualidade. Mas é difícil acreditar que tal troféu almejado pela gestão George W. Bush traga os resultados esperados no combate ao terrorismo mundial.
Falta-nos, a nós ocidentais, muitas peças a completar para a compreensão do quebra-cabeças que é, para nós, o pensamento do atual mundo islâmico. Sem tal entendimento, tão difícil em tempos de tamanho extremismo e dominação daquelas populações por seus líderes religiosos, muitas vezes os únicos letrados em uma religião na qual seu texto sagrado ainda é inacessível para a maioria de seus seguidores, qualquer ação militar corre o risco de ser inócua ou irrelevante.