Sunday, February 19, 2006

Os Segredos de ‘Brokeback Mountain’

Há uma razão inegável para que o mais recente filme de Ang Lee (…) tenha alcançado as premiações e indicações todas que fazem da produção a grande favorita ao Oscar deste ano.  Não há, em nenhum instante do filme, excessos.  O filme é extremamente bem dirigido, os atores interpretam com naturalidade seus papéis, não há estereótipos nem qualquer tentativa planfetária pró-GayPride, a música é usada com precisão e parcimônia - ao ponto de se sair da sala de projeção com a agradável sensação de que havia boa música pontuando esta ou aquela cena, mas sendo totalmente impossível se recordar desta ou daquela canção (…).  Não há exageros sequer na transformação dos atores para representar a trajetória dos mais de vinte anos nos quais a história do filme se desenrola (…)

Ainda que o cerne do argumento de O Segredo de Brokeback Mountain seja amplamente conhecido - o despertar de uma relação homoerótica entre dois cowboys no pouco cosmopolita estado americano de Wyoming -, a forma como o tema é apresentado nas telas do cinema é que faz deste filme uma pequena obra-prima.  Pois não é exagerado dizer que a homossexualidade quase se torna um detalhe dentro de molduras maiores, temas mais amplos e universais que o filme se propõe a discutir: o preconceito - de todos os matizes - e suas funestas conseqüências, o amor tornado impossível diante das amarras sociais, a falta de diálogo nas famílias, a falta de perspectiva de vida diante da impossibilidade do amor.  A paixão mal resolvida e o amor prerenizado em Brokeback Mountain trazem ecos de outros dramas universais - da ficção shakespeareana de Romeu e Julieta ao drama real de Abelardo e Heloise, da desesperada descida aos infernos de Orfeu ao destino cruel dos amantes diante da impossibilidade da paixão do camiliano Amor de Perdição

Em tempos nos quais assistimos, horrorizados, uma escalada ensandecida de fundamentalismos e radicalismos de toda sorte, Brokeback Mountain ajuda-nos a repensar conceitos e examinar o quanto podemos destruir a vida do próximo ao impormos nossa intelorância e nossos temores infundados.(…)  [LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO]

Há uma razão inegável para que o mais recente filme de Ang Lee - diretor de recentes clássicos do cinema como “O Tigre e o Dragão” e “Razão e Sensibilidade”, mas também de bombas como “Hulk” - tenha alcançado as premiações e indicações todas que fazem da produção a grande favorita ao Oscar deste ano. Não há, em nenhum instante do filme, excessos. O filme é extremamente bem dirigido, os atores interpretam com naturalidade seus papéis, não há estereótipos nem qualquer tentativa planfetária pró-GayPride, a música é usada com precisão e parcimônia - ao ponto de se sair da sala de projeção com a agradável sensação de que havia boa música pontuando esta ou aquela cena, mas sendo totalmente impossível se recordar desta ou daquela canção (um efeito meritório em tempos hollywoodianos pós-Titanic, Celine Dion e “My Heart Will Go On” - creio que todos se recordam disso). Não há exageros sequer na transformação dos atores para representar a trajetória dos mais de vinte anos nos quais a história do filme se desenrola - os truques de maquiagem e de uso do vestuário para marcar tais passagens de tempo são mínimos e, por conta disso, bem sucedidos.

Ainda que o cerne do argumento de O Segredo de Brokeback Mountain seja amplamente conhecido - o despertar de uma relação homoerótica entre dois cowboys no pouco cosmopolita estado americano de Wyoming -, a forma como o tema é apresentado nas telas do cinema é que faz deste filme uma pequena obra-prima. Pois não é exagerado dizer que a homossexualidade quase se torna um detalhe dentro de molduras maiores, temas mais amplos e universais que o filme se propõe a discutir: o preconceito - de todos os matizes - e suas funestas conseqüências, o amor tornado impossível diante das amarras sociais, a falta de diálogo nas famílias, a falta de perspectiva de vida diante da impossibilidade do amor. A paixão mal resolvida e o amor prerenizado em Brokeback Mountain trazem ecos de outros dramas universais - da ficção shakespeareana de Romeu e Julieta ao drama real de Abelardo e Heloise, da desesperada descida aos infernos de Orfeu ao destino cruel dos amantes diante da impossibilidade da paixão do camiliano Amor de Perdição.

Em tempos nos quais assistimos, horrorizados, uma escalada ensandecida de fundamentalismos e radicalismos de toda sorte, Brokeback Mountain ajuda-nos a repensar conceitos e examinar o quanto podemos destruir a vida do próximo ao impormos nossa intelorância e nossos temores infundados.

Infelizmente, ainda precisamos - e muito - do auxílio de Hollywood e de seu poder no imaginário mundial para que, aos poucos, a temperança vença o ódio sem sentido. Durante todo o tempo de projeção do filme, atrás de minha poltrona havia um homem de seus quarenta e poucos anos que fazia comentários os mais homofóbicos sobre um filme que, afinal, é delicado e bastante sutil nas poucas cenas em que há algum contato físico entre os dois protagonistas - imagens, aliás, necessárias para a condução de uma história que surpreende e enlaça o expectador a cada instante. Se em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no sexualmente libertário Brasil, alguém consegue ainda ter esse tipo de reação em uma sala de cinema - tendo pago a entrada para assistir a uma história cujo argumento, convenhamos, foi mais que divulgado pela imprensa em geral (ou seja, não havia surpresas para qualquer expectador de que ali na tela se desenrolaria uma história de amor homossexual masculino) -, é porque precisaremos ainda de muito tempo - e muitos filmes como este - para apagar do coração dos homens e mulheres o preconceito e o rancor que impedem a felicidade de tantos outros homens e mulheres que nasceram ou optaram por uma outra forma de amar e viver - e querem tão-somente isso, amar e viver na paz protetora de uma Brokeback Mountain.

Posted by Frizero at 13:19:08 | Permalink | Comments (4)