As várias faces da moeda
Recentemente recebi, de um grande amigo que merecidamente está a fazer um intercâmbio de um ano pelo renomado programa Erasmus, em uma universidade na Alemanha, uma mensagem na qual ele listava as perguntas impertinentes e os casos de preconceito explícito que vem sofrendo no ambiente acadêmico e mesmo nas rodas de amigos que conseguiu construir lá formar.
Em sua narrativa, há desde situações vexatórias - como aquela na qual um alemão, ao vê-lo conseguir resolver um problema de lógica matemática antes de toda a turma, deixa escapar, em sua língua germânica, que “para um brasileiro, [ele] até que não era tão burro assim” - até outras risíveis, como os inúmeros estudantes que vêm lhe perguntar sobre “como ele cursava universidade no Brasil em meio à Floresta Amazônica” ou “se era verdade que ele tinha sido criado por uma família de patos” como um outro brasileiro havia contado à turma, ou ainda se era verdade que “no Brasil, em cada esquina se podia fazer sexo ao ar livre sem ser importunado”. Houve ainda a alemã que declarou ter conhecido quase toda a América do Sul - Argentina, Chile, Peru, Paraguai, Bolívia e Colômbia - menos o Brasil, por considerar o país “violento demais”, e a outra que lhe perguntou se ele poderia lhe dar aulas particulares de… espanhol! Isto, é claro, sem falar dos muitos alemães que, à menção do Brasil, repetem a mesma cantilena - ”Brasil, ah…Ronaldo, football, carnival…” e similares.
Para algumas dessas indagações - pois ninguém é de ferro - meu grande amigo respondeu com o humor típico (e tantas vezes ferino) dos brasileiros, mas questiono os efeitos de tal “método” e tomei a liberdade de reproduzir, abaixo, a mensagem que lhe mandei em resposta à sua narrativa, para que vocês emitam sua opinião, caros (e viajados) leitores desta coluna eletrônica de variedades:
“(…) teus depoimentos são interessantes e, sei bem, sinceros. Mas até que ponto nós mesmos não alimentamos o preconceito que existe no exterior com relação aos brasileiros ao esperar que eles conheçam nosso país de cabo a rabo? O que nós conhecemos do país deles? Será que um brasileiro médio também não iria cometer gafes semelhantes em relação à Alemanha?
É claro que nenhum brasileiro em sã consciência iria perguntar a um alemão se ele mora na selva ou algo semelhante, mas qual é a imagem (e falo de imagética: filmes, fotografias, música, etc) do Brasil que chega até os europeus? Imagine um europeu que conhece do Brasil os filmes “Orquídea Selvagem”, “Lambada, a Dança Proibida” (sim, esse filme existe e conta a história da princesa de uma tribo amazônica que leva para os Estados Unidos a lambada, que era a dança da fertilidade de seu povo!) e “Cidade de Deus”? Ou, se ele for um pouco mais erudito, através das exposições fotográficas de Sebastião Salgado sobre os meninos carvoeiros do sertão nordestino? Antes de eu ir a Alemanha em 1993, com toda a cultura razoável que creio ter, eu acreditava que a Alemanha, de norte a sul, vestia aquelas roupas típicas de Oktoberfest e comia salsichão do almoço ao jantar (e eu nunca tinha saído do Rio de Janeiro, quer dizer, nem chimia e cuca eu conhecia para expandir meu repertório!). Se me perguntassem por alemães célebres, talvez eu respondesse algo do tipo “Ah, Germany… Beethoven, Bechenbauer, Goethe, Wagner, Nietszche…” e ficasse só nisso - e o que os alemães iriam pensar de mim?
Lembro-me que entrei em uma enorme loja de departamentos de Hamburgo e fui procurar um chapéu tipo Oktoberfest para um amigo que tinha me feito esta idiota encomenda. O lojista, que aliás falava português (quantos nós conhecemos no Brasil que falam alemão?), explicou-me que aquele artigo era apenas comum no sul da Alemanha, e mesmo assim em épocas de festa ou como artigo turístico. E tudo isso na maior educação. Mas daí tive o privilégio de conviver por dois dias com uma família católica de Osnabruck, norte da Alemanha, dois dias apenas, e minha visão já se modificou totalmente. Que dizer então dos europeus em relação ao Brasil, um país economicamente periférico, distante, do qual só recebem notícias de violência ou da vida selvagem da Amazônia?
Talvez alguns dos alemães que tenham feito perguntas que para nós soam totalmente idiotas estivessem mesmo atrás de informação de uma fonte confiável, no caso um brasileiro nato em intercâmbio no exterior. E é óbvio que isso não justifica um alemão imbecil que te diz que “para um brasileiro, até que você é inteligente!”. Mas se sempre partimos para a galhofa nesses casos, só aumentaremos o preconceito e a confusão. Quer se vingar? Responda tranqüilamente, e verdadeiramente, às perguntas, com um ar de “você não sabia disso?” ou “você realmente acha que o Brasil é só selva?” - e aqueles que tiverem perguntado com intenção de deboche verão o tiro sair pela culatra.”
Bem, está aberto o debate!