Sunday, February 12, 2006

O Futuro a Deus pertence

(…) Tenho cá em minhas mãos, por exemplo, a edição de 13 de abril de 2005 da revista VEJA - para quem não associou de imediato a data ao ocorrido, naquela época o mundo lamentava a morte de João Paulo II, o papa polonês, o De Labore Solis das profecias de São Malaquias; sua missa fúnebre havia sido celebrada dias antes, em 8 de abril, para uma Piazza San Pietro abarrotada de fiéis e curiosos e para uma audiência mundial difícil de ser calculada.  (…) Este número da VEJA (…) dedica inúmeras páginas aos serviços fúnebres de Karol Wojtyla e, por consegüinte, ao conclave no qual seria decidido o futuro da Igreja Católica Apostólica Romana na figura de um novo líder que, além de seu papel religioso, também acumula as funções de chefe de Estado da única monarquia eletiva do mundo.

Nas famosas páginas amarelas de VEJA (…) daquela ocasião foi publicada uma interessante entrevista com Giancarlo Zizola, considerado o principal vaticanólogo italiano - entenda-se: vaticanólogo é um termo cunhado pela imprensa brasileira para se referir ao estudioso da história e da política do Vaticano.  Zizola foi questionado, logicamente, sobre os rumos que a Igreja Católica iria tomar após a morte de Wojtyla.  (…) O vaticanólogo italiano arvora-se a fazer conjecturas sobre a escolha do conclave.  (…) Para ele, “dificilmente o novo papa [seria] proveniente de um país poderoso, para evitar que haja coincidência entre o papado e uma potência política, econômica e militar”.  Tal certeza levou Zizola a afirmar que era “improvável, por isso, que [houvesse] um pontífice americano ou alemão” e que a tendência seria a eleição de um papa asiático, já que “é na Ásia que passará o eixo econômico, político, tecnológico e demográfico do mundo, e o grande desafio do catolicismo é fincar raízes por lá”.

Não nos cabe aqui desprezar o conhecimento do vaticanólogo - até por que, como ele mesmo diz em sua entrevista a VEJA, “é preciso considerar o fato de que um vaticanólogo não é um adivinho (…) e que hoje, com tantas variantes possíveis, se tornou ainda mais difícil acertar na loteria do papa“.  Mas é interessante recordar todo o bulício que a eleição do novo papa causou à época.  Todos falavam mal de Joseph Ratzinger, cardial alemão de 78 anos e que fora, então, eleito o 265º pontífice com o nome algo conservador de Bento XVI.  Falava-se de seu radicalismo feroz em defesa da Igreja, de seu trabalho anterior como diretor do órgão da Igreja ao qual pertencia a malfadada Inquisição (a Congregação para a Doutrina da Fé) e do fato de ele ser alemão - não foram poucos os órgãos de imprensa, por meio de seus colunistas e chargistas, que associaram a nacionalidade de Ratzinger ao Nazismo - um expediente dos mais perversos e que não raro é usado contra os alemães contemporâneos, como se qualquer modo mais firme de ser de um germânico fosse razão para desconfiar de seu alinhamento com os ideais do Reich; e logo Ratzinger, que foi forçado a trabalhar para o regime de Adolf Hitler e dele conseguiu fugir, como muitos jovens que eram levados à força para os campos de batalha, fato que alguns historiadores e a massa de jornalistas prefere ignorar.

O fato é que Joseph Ratzinger iniciou seu pontificiado com humildade e sem estardalhaço, para a surpresa de muitos.  Não houve grandes mudanças na doutrina da Igreja - nem para conservadorismos radicais, como vaticinavam os mais exaltados, nem para uma liberação que descaracterizasse a fé católica, já que falamos de doutrina, algo que não pode mesmo mudar a cada vento que passa.  Sua primeira carta encíclica chama-se Deus Caritas Est  (“Deus é Amor”, em livre tradução, já que o grego e o latim têm várias palavras para designar amor, em suas diversas facetas).  Suas palavras iniciais, à guisa de introdução, são um belo exemplo do tom do longo documento (que pode ser lido na íntegra e em português no site do Vaticano), e contrastam com a imagem de um pontífice raivoso, radical ou nazista (…)

Em um mundo no qual vemos explosões de fanatismo religioso eclodirem a cada dia, confesso que, mesmo não sendo católico, tranqüilizo-me ao ver na direção dessa grande religião do mundo um homem centrado e comedido como Joseph Ratzinger.  E fico feliz que Zizola tenha errado em suas previsões geopolíticas de escolha do novo pontífice. (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

É curioso, até mesmo divertido, ao entrarmos de férias longe de nossos lares, ou ao fazermos uma visita de praxe ao dentista ou ao podólogo, dedicarmos um pouco do nosso tempo para a leitura de revistas antigas e compararmos os exercícios de futurologia de alguns articulistas ou entrevistados com o que de fato aconteceu nos meses que se seguiram àquela publicação. 

Tenho cá em minhas mãos, por exemplo, a edição de 13 de abril de 2005 da revista VEJA - para quem não associou de imediato a data ao ocorrido, naquela época o mundo lamentava a morte de João Paulo II, o papa polonês, o De Labore Solis das profecias de São Malaquias; sua missa fúnebre havia sido celebrada dias antes, em 8 de abril, para uma Piazza San Pietro abarrotada de fiéis e curiosos e para uma audiência mundial difícil de ser calculada.  Este número da VEJA, como era de se esperar, dedica inúmeras páginas aos serviços fúnebres de Karol Wojtyla e, por consegüinte, ao conclave no qual seria decidido o futuro da Igreja Católica Apostólica Romana na figura de um novo líder que, além de seu papel religioso, também acumula as funções de chefe de Estado da única monarquia eletiva do mundo.

Nas famosas páginas amarelas de VEJA - que abrem a revista com uma longa entrevista a alguém de renome, ainda que nem sempre por seus méritos intelectuais ou seu trabalho em prol da humanidade - daquela ocasião foi publicada uma interessante entrevista com Giancarlo Zizola, considerado o principal vaticanólogo italiano - entenda-se: vaticanólogo é um termo cunhado pela imprensa brasileira para se referir ao estudioso da história e da política do Vaticano.

Zizola foi questionado, logicamente, sobre os rumos que a Igreja Católica iria tomar após a morte de Wojtyla.  Além de dar sugestões questionáveis como a idéia de que os governos da Itália, da Polônia e da Espanha “deveriam tirar seus soldados do Iraque em homenagem ao pontífice morto, (…) o papa da Paz”, o vaticanólogo italiano arvora-se a fazer conjecturas sobre a escolha do conclave.  Primeiro, diz que o encontro de cardeais para eleger o novo papa duraria ao menos “uns sete dias” e que era quase certo que o novo papa viria “de fora da Europa”, já que mais da metade dos cardeais reunidos no conclave eram não-europeus.  Para ele, “dificilmente o novo papa [seria] proveniente de um país poderoso, para evitar que haja coincidência entre o papado e uma potência política, econômica e militar”.  Tal certeza levou Zizola a afirmar que era “improvável, por isso, que [houvesse] um pontífice americano ou alemão” e que a tendência seria a eleição de um papa asiático, já que “é na Ásia que passará o eixo econômico, político, tecnológico e demográfico do mundo, e o grande desafio do catolicismo é fincar raízes por lá”.

Não nos cabe aqui desprezar o conhecimento do vaticanólogo - até por que, como ele mesmo diz em sua entrevista a VEJA, “é preciso considerar o fato de que um vaticanólogo não é um adivinho (…) e que hoje, com tantas variantes possíveis, se tornou ainda mais difícil acertar na loteria do papa“.  Mas é interessante recordar todo o bulício que a eleição do novo papa causou à época.  Todos falavam mal de Joseph Ratzinger, cardial alemão de 78 anos e que fora, então, eleito o 265º pontífice com o nome algo conservador de Bento XVI.  Falava-se de seu radicalismo feroz em defesa da Igreja, de seu trabalho anterior como diretor do órgão da Igreja ao qual pertencia a malfadada Inquisição (a Congregação para a Doutrina da Fé) e do fato de ele ser alemão - não foram poucos os órgãos de imprensa, por meio de seus colunistas e chargistas, que associaram a nacionalidade de Ratzinger ao Nazismo - um expediente dos mais perversos e que não raro é usado contra os alemães contemporâneos, como se qualquer modo mais firme de ser de um germânico fosse razão para desconfiar de seu alinhamento com os ideais do Reich; e logo Ratzinger, que foi forçado a trabalhar para o regime de Adolf Hitler e dele conseguiu fugir, como muitos jovens que eram levados à força para os campos de batalha, fato que alguns historiadores e a massa de jornalistas prefere ignorar.

O fato é que Joseph Ratzinger iniciou seu pontificiado com humildade e sem estardalhaço, para a surpresa de muitos.  Não houve grandes mudanças na doutrina da Igreja - nem para conservadorismos radicais, como vaticinavam os mais exaltados, nem para uma liberação que descaracterizasse a fé católica, já que falamos de doutrina, algo que não pode mesmo mudar a cada vento que passa.  Sua primeira carta encíclica chama-se Deus Caritas Est  (“Deus é Amor”, em livre tradução, já que o grego e o latim têm várias palavras para designar amor, em suas diversas facetas).  Suas palavras iniciais, à guisa de introdução, são um belo exemplo do tom do longo documento (que pode ser lido na íntegra e em português no site do Vaticano), e contrastam com a imagem de um pontífice raivoso, radical ou nazista

” « Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele » (1 Jo 4, 16). Estas palavras da I Carta de João exprimem, com singular clareza, o centro da fé cristã: a imagem cristã de Deus e também a consequente imagem do homem e do seu caminho. Além disso, no mesmo versículo, João oferece-nos, por assim dizer, uma fórmula sintética da existência cristã: « Nós conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem ». Nós cremos no amor de Deus — deste modo pode o cristão exprimir a opção fundamental da sua vida. Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. (…) Num mundo em que ao nome de Deus se associa às vezes a vingança ou mesmo o dever do ódio e da violência, esta é uma mensagem de grande actualidade e de significado muito concreto. Por isso, na minha primeira Encíclica, desejo falar do amor com que Deus nos cumula e que deve ser comunicado aos outros por nós. Estão assim indicadas as duas grandes partes que compõem esta Carta, profundamente conexas entre elas. A primeira terá uma índole mais especulativa, pois desejo — ao início do meu Pontificado — especificar nela alguns dados essenciais sobre o amor que Deus oferece de modo misterioso e gratuito ao homem, juntamente com o nexo intrínseco daquele Amor com a realidade do amor humano. A segunda parte terá um carácter mais concreto, porque tratará da prática eclesial do mandamento do amor ao próximo. O argumento aparece demasiado amplo; uma longa explanação, porém, não entra no objectivo da presente Encíclica. O meu desejo é insistir sobre alguns elementos fundamentais, para deste modo suscitar no mundo um renovado dinamismo de empenhamento na resposta humana ao amor divino.”

Em um mundo no qual vemos explosões de fanatismo religioso eclodirem a cada dia, confesso que, mesmo não sendo católico, tranqüilizo-me ao ver na direção dessa grande religião do mundo um homem centrado e comedido como Joseph Ratzinger.  E fico feliz que Zizola tenha errado em suas previsões geopolíticas de escolha do novo pontífice.

Na crença dos católicos, os cardeais reunidos em conclave recebem inspiração divina para efetuar a escolha de um novo papa - o que acredito não ser difícil de acontecer na Capela Sixtina, diante da visão esplendorosa dos afrescos de Michelangelo.  Quem sabe se isso não é a mais pura verdade?

Posted by Frizero at 13:53:51 | Permalink | No Comments »