Wednesday, February 8, 2006

Parque Pleistoceno

O mamute lanoso - que ganhou este nome dos paleontólogos pelos indícios de que o corpo deste enorme mamífero fosse coberto de lã - viveu há cerca de pelo menos doze mil anos, entre os anos um milhão e oitocentos mil e 11.500 a.C., na época geológica conhecida como Pleistoceno.  Tal época da era Cenozóica é conhecida dos paleontólogos, aliás, por serem abundantes os fósseis desse período, assim como serem os mais bem conservados e de datação precisa. 

O Pleistoceno foi também o período no qual ocorreram as glaciações mais recentes, mas a razão principal de seu retorno à imprensa internacional - e da súbita notoriedade do mamute lanoso - foi o anúncio, na edição de janeiro de 2006 da renomada revista Science, dos resultados obtidos pelos zoologistas Alexei Tikhonov, da Academia Russa de Ciência, e Ross McPhee, do Museu Americano de História Natural.  Em um trabalho conjunto, os dois cientistas conseguiram decodificar treze milhões de pares-base do DNA extraído do osso da mandíbula de um daqueles animais - metade do genoma completo do mamute lanoso -, o qual teria morrido há vinte e oito mil anos nas estepes siberianas. 

Tikhonov e McPhee, que estimam terminar a decodificação completa do DNA do mamute lanoso em três anos mais, têm planos maiores para a sua descoberta: eles pertencem à corrente dos cientistas que pretendem iniciar um processo que eles chamam de repopulação de espécies extintas da face da terra, seja nos anos mais recentes de nossa história ou mesmo em eras remotas do início da vida na Terra.  Para estes cientistas, casos como o do mamute lanoso permitiriam à ciência do século XXI consertar erros cometidos pelo homem no passado - já que se estima que o desaparecimento de grandes mamíferos do Pleistoceno, como o bisão-de-chifres-longos, o tigre-dente-de-sabre, o mastodonte e a hiena gigante, tenha sido causado pela caça predatória de nossos ancestrais humanos.  O estabelecimento do genoma completo desses animais, aliado às técnicas bem sucedidas de clonagem hoje disponíveis - até mesmo com o uso de células de animais similares aos do Pleistoceno, como o elefante, por exemplo - podem trazer à luz em um futuro não muito distante os primeiros exemplares de animais pré-históricos a caminhar na Terra dos nossos dias.

(…) O mais curioso é o discurso politicamente correto incutido em meio à defesa de sua idéia de reflorestamento: seu interesse de cientista seria, então, o de reparar a evolução das espécies, girar os ponteiros da história natural ao contrário e resgatar das mãos do homem anti-ecológico do Pleistoceno a vida daqueles animais extintos.  Mas quem somos nós para julgar o que foi certo e o que foi errado no longo caminhar da vida na Terra?

Charles Darwin, cuja obra certamente foi leitura obrigatória na formação desses paleontólogos, botânicos e zoologistas, já nos últimos anos do século XIX estabelecia, em seu A Origem das Espécies, que sobreviviam aqueles seres mais aptos - e não tão-somente os mais fortes.  Não terão sido os homens do Pleistoceno mais aptos que os mamutes lanosos e os alces gigantes? (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

 

O mamute lanoso - que ganhou este nome dos paleontólogos pelos indícios de que o corpo deste enorme mamífero fosse coberto de lã - viveu há cerca de pelo menos doze mil anos, entre os anos um milhão e oitocentos mil e 11.500 a.C., na época geológica conhecida como Pleistoceno.  Tal época da era Cenozóica é conhecida dos paleontólogos, aliás, por serem abundantes os fósseis desse período, assim como serem os mais bem conservados e de datação precisa. 

O Pleistoceno foi também o período no qual ocorreram as glaciações mais recentes, mas a razão principal de seu retorno à imprensa internacional - e da súbita notoriedade do mamute lanoso - foi o anúncio, na edição de janeiro de 2006 da renomada revista Science, dos resultados obtidos pelos zoologistas Alexei Tikhonov, da Academia Russa de Ciência, e Ross McPhee, do Museu Americano de História Natural.  Em um trabalho conjunto, os dois cientistas conseguiram decodificar treze milhões de pares-base do DNA extraído do osso da mandíbula de um daqueles animais - metade do genoma completo do mamute lanoso -, o qual teria morrido há vinte e oito mil anos nas estepes siberianas. 

Tikhonov e McPhee, que estimam terminar a decodificação completa do DNA do mamute lanoso em três anos mais, têm planos maiores para a sua descoberta: eles pertencem à corrente dos cientistas que pretendem iniciar um processo que eles chamam de repopulação de espécies extintas da face da terra, seja nos anos mais recentes de nossa história ou mesmo em eras remotas do início da vida na Terra.  Para estes cientistas, casos como o do mamute lanoso permitiriam à ciência do século XXI consertar erros cometidos pelo homem no passado - já que se estima que o desaparecimento de grandes mamíferos do Pleistoceno, como o bisão-de-chifres-longos, o tigre-dente-de-sabre, o mastodonte e a hiena gigante, tenha sido causado pela caça predatória de nossos ancestrais humanos.  O estabelecimento do genoma completo desses animais, aliado às técnicas bem sucedidas de clonagem hoje disponíveis - até mesmo com o uso de células de animais similares aos do Pleistoceno, como o elefante, por exemplo - podem trazer à luz em um futuro não muito distante os primeiros exemplares de animais pré-históricos a caminhar na Terra dos nossos dias.

Há projetos semelhantes em diversos países do mundo que buscam a repopulação de animais que as gerações presentes chegaram a conhecer - como o diabo-da-tasmânia na Austrália e algumas espécies de pássaros na Irlanda - e na própria Rússia crescem atualmente os esforços para a manutenção de um grande projeto, liderado pelo cientista Sergei Zimov, de ressurgimento das florestas e campinas existentes na Sibéria antes da última era do gelo.  A idéia de Zimov, aliás, é começar pela restauração da flora daquela época geológica, para depois, aos poucos, povoar a região com lobos, bisões e, quem sabe, mamutes lanosos e outras espécies cujos fósseis foram encontrados sob o gelo siberiano.  O nome de tal projeto?  Parque Pleistoceno.

O encantamento quase juvenil de poder ver de perto, vivos e em seu habitat natural (?) animais extintos há tanto tempo traz à mente de qualquer um de nós as agruras e desencantos dos personagens da série de filmes de Steven Spielberg chamada Jurassic Park.  Mas a questão ética envolvida em todo este afã científico de recriar mundos já mortos parece fugir à mente dos cientistas, cujos olhos parecem vislumbrar apenas a glória de uma conquista tão inusitada: a de ressuscitar fósseis.  O mais curioso é o discurso politicamente correto incutido em meio à defesa de sua idéia de reflorestamento: seu interesse de cientista seria, então, o de reparar a evolução das espécies, girar os ponteiros da história natural ao contrário e resgatar das mãos do homem anti-ecológico do Pleistoceno a vida daqueles animais extintos.  Mas quem somos nós para julgar o que foi certo e o que foi errado no longo caminhar da vida na Terra?

Charles Darwin, cuja obra certamente foi leitura obrigatória na formação desses paleontólogos, botânicos e zoologistas, já nos últimos anos do século XIX estabelecia, em seu A Origem das Espécies, que sobreviviam aqueles seres mais aptos - e não tão-somente os mais fortes.  Não terão sido os homens do Pleistoceno mais aptos que os mamutes lanosos e os alces gigantes?

Diante de tantos exemplos de ações mal-sucedidas de manipulações humanas no equilíbrio ecológico, quem quer assumir o ônus de reintroduzir em nosso horizonte seres dos quais tão pouco conhecemos? 

 

Posted by Frizero at 02:27:26 | Permalink | Comments (4)