Sunday, February 5, 2006

A Vontade de Mudar

Museu GuggenheimNas primeiras décadas da Revolução Industrial Espanhola descobriu-se que as montanhas que cercam a cidade de Bilbao, capital da província de Biscaia e uma das mais importantes do chamado País Basco, eram ricas em minério de ferro - elemento importantíssimo para o desenvolvimento exigido pelos novos tempos. Por sua própria situação privilegiada de porto voltado para a industrializada Inglaterra, não tardou para que fosse promovida a criação de todo um parque industrial voltado para a siderurgia em Bilbao.

O progresso trouxe, de imediato, suas conseqüências funestas: o rio Nérvion começou, de imediato, a receber toneladas diárias de dejetos, que tornaram suas águas em um espesso e pesado líquido de coloração marrom, que seguia assim seu curso até ser lançado diretamente para o mar.  Ao chegar no oceano, a poluição das siderúrgicas e demais indústrias destruíam a fauna próxima, afetando até mesmo a produção de pescado, uma das fontes de renda mais antigas e tradicionais daquela região. 

Com o declínio da produção de minério de ferro, Bilbao caiu em uma terrível decadência urbana, a qual transformou bairros tradicionais como La Vieja em antros de prostituição e tráfico de drogas em espaços que, durante o dia, eram disputados por imigrantes em situação ilegal e locais sem outra opção de moradia, dos quais 32% (trinta e dois por cento) estavam desempregados.

A situação caótica da cidade modificou-se, contudo, em um intervalo de quinze anos: salvou-se o rio Nérvion da poluição, com um inteligente sistema de tratamento de esgotos que só retornava ao rio as águas servidas após total tratamento, além de uma legislação severa com multas pesadas para as empresas poluidoras; as margens do rio foram remodeladas para receber um novo modelo de reurbanização, no qual novos bairros surgiram - com edifícios residenciais, prédios de escritórios, parques e setores de entretenimento e compras, em um movimento de renovação urbana que acabou por se extender a toda a cidade.

(…)  Ainda assim, a cidade carecia de visibilidade perante as demais cidades espanholas e, por que não sonhar alto, os países europeus e o mundo. A opção foi ousada, e gerou protestos à época de parte da população, que imaginou que a verba usada no projeto deveria ser destinada a áreas outras como saúde e habitação: criou-se, em 1997, o Museu Guggenheim de Bilbao, um colosso de arquitetura contemporânea, uma enorme flor metálica que parece brotar em meio aos prédios antigos do centro de Bilbao e às margens do rio que corta a cidade; ao longo dos anos, o museu tornou-se um símbolo da cidade de Bilbao e começou a atrair turistas de todo o mundo, criando na região um fluxo de turismo jamais visto. O resultado é que setores da economia local antes diminutos, como restaurantes e rede hoteleira, tiveram que se expandir em quase quatro vezes seu tamanho original para vencer a demanda dos visitantes que durante todo o ano afluem para a capital de Biscaia em busca da modernidade do Guggenheim - e mais por sua arquitetura que pelas exposições lá existentes - e também do clima pitoresco das antigas ruas de Bilbao.

Que lições podemos tirar de Bilbao? A mais importante delas é que o destino de uma cidade está nas mãos de seus moradores - já que são eles que decidem quem a governa, além de serem seu usuário mais freqüente e, por conta disso, o maior responsável pelo estado em que se encontra suas ruas, praças, rios, praias, florestas, parques, prédios históricos, museus, monumentos e bens públicos diversos. (…)O que falta para que tornemos nossa cidade uma nova Bilbao?  Será a vontade de mudar?  (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Museu GuggenheimNas primeiras décadas da Revolução Industrial Espanhola descobriu-se que as montanhas que cercam a cidade de Bilbao, capital da província de Biscaia e uma das mais importantes do chamado País Basco, eram ricas em minério de ferro - elemento importantíssimo para o desenvolvimento exigido pelos novos tempos. Por sua própria situação privilegiada de porto voltado para a industrializada Inglaterra, não tardou para que fosse promovida a criação de todo um parque industrial voltado para a siderurgia em Bilbao.

O progresso trouxe, de imediato, suas conseqüências funestas: o rio Nérvion começou, de imediato, a receber toneladas diárias de dejetos, que tornaram suas águas em um espesso e pesado líquido de coloração marrom, que seguia assim seu curso até ser lançado diretamente para o mar.  Ao chegar no oceano, a poluição das siderúrgicas e demais indústrias destruíam a fauna próxima, afetando até mesmo a produção de pescado, uma das fontes de renda mais antigas e tradicionais daquela região. 

Com o declínio da produção de minério de ferro, Bilbao caiu em uma terrível decadência urbana, a qual transformou bairros tradicionais como La Vieja em antros de prostituição e tráfico de drogas em espaços que, durante o dia, eram disputados por imigrantes em situação ilegal e locais sem outra opção de moradia, dos quais 32% (trinta e dois por cento) estavam desempregados.

A situação caótica da cidade modificou-se, contudo, em um intervalo de quinze anos: salvou-se o rio Nérvion da poluição, com um inteligente sistema de tratamento de esgotos que só retornava ao rio as águas servidas após total tratamento, além de uma legislação severa com multas pesadas para as empresas poluidoras; as margens do rio foram remodeladas para receber um novo modelo de reurbanização, no qual novos bairros surgiram - com edifícios residenciais, prédios de escritórios, parques e setores de entretenimento e compras, em um movimento de renovação urbana que acabou por se extender a toda a cidade.

A despoluição do rio fez com que o comércio de pescado em Bilbao voltasse a florescer e retomasse seu lugar como um dos mais importantes da Europa.

Uma cidade nova pedia um sistema de transporte mais adequado, e então surgiu o novíssimo sistema de metrô de Bilbao, ligando a cidade aos distritos mais afastados e aos balneários próximos à cidade; além disso, recriou-se um sistema de bondes e trens de superfície há muito abandonados.

Ainda assim, a cidade carecia de visibilidade perante as demais cidades espanholas e, por que não sonhar alto, os países europeus e o mundo. A opção foi ousada, e gerou protestos à época de parte da população, que imaginou que a verba usada no projeto deveria ser destinada a áreas outras como saúde e habitação: criou-se, em 1997, o Museu Guggenheim de Bilbao, um colosso de arquitetura contemporânea, uma enorme flor metálica que parece brotar em meio aos prédios antigos do centro de Bilbao e às margens do rio que corta a cidade; ao longo dos anos, o museu tornou-se um símbolo da cidade de Bilbao e começou a atrair turistas de todo o mundo, criando na região um fluxo de turismo jamais visto. O resultado é que setores da economia local antes diminutos, como restaurantes e rede hoteleira, tiveram que se expandir em quase quatro vezes seu tamanho original para vencer a demanda dos visitantes que durante todo o ano afluem para a capital de Biscaia em busca da modernidade do Guggenheim - e mais por sua arquitetura que pelas exposições lá existentes - e também do clima pitoresco das antigas ruas de Bilbao.

Que lições podemos tirar de Bilbao? A mais importante delas é que o destino de uma cidade está nas mãos de seus moradores - já que são eles que decidem quem a governa, além de serem seu usuário mais freqüente e, por conta disso, o maior responsável pelo estado em que se encontra suas ruas, praças, rios, praias, florestas, parques, prédios históricos, museus, monumentos e bens públicos diversos. A segunda lição é a de que o turismo é, sim, uma fonte de renda que não pode jamais ser desprezada, pois gera empregos diretos e indiretos de tal forma que é virtualmente impossível medir seu real impacto na vida das cidades.

Mas creio que a lição maior ainda é esta: turismo não nasce pronto; é uma indústria que pode - e deve - ser inventada e reinventada a cada instante. Conheci cidades diminutas no interior do país que fizeram isso com maestria, mesmo que muitas vezes seu objetivo nem fosse se tornar um pólo nacional de turismo - como o fazem tão bem cidades como Gramado e Nova Petrópolis, no Rio Grande do Sul. Barra Bonita, no interior de São Paulo, é um exemplo: por estar às margens do Rio Tietê, no início de seu trecho navegável, e próxima a uma eclusa, a pequena cidade de trinta e quatro mil habitantes é um pequeno pólo turístico para as cidades vizinhas - e para tal investe em manter as ruas sempre limpas, as calçadas pintadas e floridas, medidas simples mas que criam no turista a vontade de regressar sempre que possível.  Barra Bonita, Gramado e Nova Petrópolis são, para mim, sinônimos - e, infelizmente, exceções quase absolutas - de cidades brasileiras que conseguiram abrir os olhos para o imenso potencial do turismo para a economia local e, o que é mais notável, criaram quase do nada atrações turísticas que atraem turistas (e lucro certo) para seus comerciantes e moradores.

O que falta para que tornemos nossa cidade uma nova Bilbao?  Será a vontade de mudar? 

Posted by Frizero at 00:51:00 | Permalink | Comments (3)