Chopin
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Uma pequena menina estende os braços pequenos, e, do olhar desta criança, toda beleza que havia |
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Da obra
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(1996)
(Robertson Frizero Barros)
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Uma pequena menina estende os braços pequenos, e, do olhar desta criança, toda beleza que havia |
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Da obra
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(1996)
(Robertson Frizero Barros)
“As leis, no seu significado mais lato, são relações necessárias que derivam da natureza das coisas. Há uma razão primitiva, e as leis são as relações que se encontram entre os vários seres,
e das relações destes seres entre si.”
(Montesquieu, in ‘O Espírito das Leis’, 1748)
Para Montesquieu, (…) apenas no direito natural, comum a todos os povos, é que se podia encontrar a unidade primeira do direito.
Mas, como podemos associar ao senso comum o recente resultado apresentado no julgamento de uma causa peculiar e, por que não dizer, insólita demais, ocorrido no Reino Unido? Em termos gerais, o episódio em referência é um processo do ramo da defesa do consumidor, já que se trata da queixa apresentada por Christine Ryder, cidadã britânica, a Kevin Reeves, também cidadão britânico, a quem a mulher contratou para que realizasse um serviço para o qual ela se sentia incapaz de fazer. (…) Nada mais justo, (…) a não ser pelo detalhe que faz abrir sobre o caso uma perspectiva moral difícil de ser relevada: o serviço em questão era a morte da própria Christine Ryder, que na falta de coragem para cometer suicídio, contratara Reeves para que lhe arrumasse um matador profissional e, posteriormente, para que ele mesmo realizasse o “serviço” de matá-la, conforme o desejo dela mesma.
(…) Onde reside a razão e, Montesquieu, caro amigo, como analisar um caso como este apenas à luz da legislação vigente?(…) [LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO]
“As leis, no seu significado mais lato, são relações necessárias que derivam da natureza das coisas. Há uma razão primitiva, e as leis são as relações que se encontram entre os vários seres,
e das relações destes seres entre si.”
(Montesquieu, in ‘O Espírito das Leis’, 1748)
Para Montesquieu, o grande pensador do século XVIII, a ampla gama de diferentes leis existentes nas sociedades era uma demonstração inequívoca da instabilidade da justiça humana. Segundo o escritor francês, “pai” da separação clássica da governança em três poderes, apenas no direito natural, comum a todos os povos, é que se podia encontrar a unidade primeira do direito.
Mas, como podemos associar ao senso comum o recente resultado apresentado no julgamento de uma causa peculiar e, por que não dizer, insólita demais, ocorrido no Reino Unido? Em termos gerais, o episódio em referência é um processo do ramo da defesa do consumidor, já que se trata da queixa apresentada por Christine Ryder, cidadã britânica, a Kevin Reeves, também cidadão britânico, a quem a mulher contratou para que realizasse um serviço para o qual ela se sentia incapaz de fazer. Reeves não cumpriu com o trato e a justiça britânica decidiu que o homem deveria pagar à cliente insatisfeira um total de £20.000,00 (vinte mil libras esterlinas, algo em torno de setenta e quatro mil e oitocentos reais em cotação atual), além de cumprir quinze meses de detenção em regime fechado. Nada mais justo, uma multa por quebra de contrato, a não ser pelo detalhe que faz abrir sobre o caso uma perspectiva moral difícil de ser relevada: o serviço em questão era a morte da própria Christine Ryder, que na falta de coragem para cometer suicídio, contratara Reeves para que lhe arrumasse um matador profissional e, posteriormente, para que ele mesmo realizasse o “serviço” de matá-la, conforme o desejo dela mesma.
A situação é, de fato, por demais surreal para que se emita um certeiro juízo de valor - mas parece ser britânica demais a distância que o magistrado conseguiu manter das questões éticas para condenar alguém por não ter cometido um crime de assassinato. Ryder, a consumidora lesada e com tendências suicidas, saiu lucrando financeiramente com o processo, algo em torno de sete mil e quinhentos reais, e ainda tem sua vida para gastar seus vinténs auferidos no processo graças à incapacidade de Reeves de também realizar o “serviço” de eliminá-la. Onde reside a razão e, Montesquieu, caro amigo, como analisar um caso como este apenas à luz da legislação vigente?
A armadilha do Direito parece residir, justamente, no momento em que o legislador e o jurista passam a analisar as leis apenas pelas leis, sem imaginar que por trás delas estão, enfim, pessoas, e que as leis existem justamente para garantir aos seres humanos condições de uma vida melhor em sociedade.
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“Histórias como esta nunca deveriam ser contadas.” (frase de Chyio, personagem principal de Memórias de uma Geisha, que abre o filme dirigido por Ron Marshall e adaptado do romance homônimo de Arthur Golden) |
Que valor terá uma produção hollywoodiana sobre o Japão pré-Segunda Grande Guerra, no qual os personagens japoneses principais são vividos por atores chineses, as locações são todas feitas em solo californiano, o diretor é famoso por seu trabalho em musicais da Broadway e o livro que deu origem à adaptação cinematográfica é a história de uma mulher japonesa contada em primeira pessoa por um escritor norte-americano? O resultado de tão improvável arranjo é Memórias de uma Geisha, um dos filmes mais indicados à premiação da Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood em 2005 - e por verdadeiros méritos da produção.
O filme de Ron Marshall - diretor do oscarizado e genial Chicago - conta com sutileza e suavidade a história de uma geisha e os caminhos que ela percorreu até se tornar a mais famosa dessas mulheres em atividade na Kyoto dos anos 1940. As imagens, o vestuário e as músicas são marcantes e de uma beleza entorpecedora, à exemplo do que era a arte das geishas e sua relação com seus clientes(…)
O filme tem como grande mérito transformar em imagens o universo minuciosamente descrito nas páginas da história original. Em que pese ser uma obra de ficção, o romance que deu mote ao filme de Marshall, escrito por Arthur Golden, é reconhecido por sua fidelidade àquele universo - é famosa a situação constrangedora que o autor criou ao agradecer, em seu livro, a uma famosa geisha de Kyoto pelas inúmeras entrevistas que ela lhe concedera em segredo - um muito obrigado que rendeu àquela mulher inúmeras ameaças de morte por ter ela quebrado o código de silêncio que rege tal profissão. A obra leva também o leitor a inúmeras reflexões sobre o papel daquelas mulheres na sociedade japonesa até a derrota daquele país para os aliados na Segunda Guerra Mundial.(…)
Filha de pescadores pobres em uma aldeia distante no Japão dos anos trinta, Chyio - a menina com olhos de água - é vendida como escrava para uma okiya (…), uma casa que mantinha e educava mulheres para aquele milenar ofício que os ocidentais confundiram sempre, e erroneamente, com a prostituição - ainda que o objetivo das okyia não diferissem das casas de cafetina do Ocidente, ou seja, angariar dinheiro por meio do trabalho de mulheres escravizadas por seu ofício,
que ali chegavam por meio de um comércio clandestino (ainda que por todos conhecido) de escravas compradas dos próprios pais daquelas meninas. Por detrás da fachada de beleza, arte e encantamento daquelas etéreas mulheres - educadas em rígido sistema para o canto, a dança e a arte da conversação e da servidão para servirem de entertainers para os ricos senhores da cidade - há um sistema de competição e opressão entre as donas de okiya e as próprias geishas pelos favores e proteção dos homens mais ilustres - um mundo de ilusões no qual a virgindade das maiko, as aprendizes de geisha, é leiloada em grandes eventos públicos; onde o amor e a amizade são abolidos das vidas daquelas mulheres. Apesar de todo o sofrimento, da separação de suas famílias e das humilhações, a fuga para Chiyo - e para todas aquelas meninas e moças - parece ser impensável, e sua existência torna-se apenas útil quando seus serviços como geisha rendem dinheiro às donas dos okiya(…). A saída, então, para meninas como Chyio, passa a ser o sonho torto de se tornarem famosas e veneradas geishas, única forma possível de independência para elas.(…)
Uma das personagens principais da história, de nome Mameha,(…)diz à certa altura que sua jovem maiko deve sempre recordar que “ geishas não são cortesãs, nem esposas; vendemos nossas habilidades, não nosso corpo; criamos um outro mundo secreto, um mundo só de beleza; a própria palavra gueixa significa arte e ser uma geisha é ser julgada pelos outros como uma obra de arte em movimento”. Que dizer desta forma de pensar senão que ela resume, com esta ou aquela pequena mudança de palavras, boa parte da história da opressão, da educação para a sumissão a que têm sido submetidas as mulheres de todo o mundo ao longo dos séculos?
A dominação e a subserviência feminina parece sempre depender da participação das próprias mulheres como opressoras ou colaboradoras para a manutenção de tal sistema. Mas não há, nesta constatação, nenhuma forma de censura. O que se vê retratado em Memórias de uma Geisha é apenas um exemplo do que acontece em tantas outras partes do mundo em que a mulher é o primeiro algoz da mulher(…) Em que consistem tais sistemas de opressão da mulher senão no atendimento às vontades e fantasias masculinas? Contudo, há que se ter amplitude ao analisar tal situação da mulher, pois há grilhões feitos de ferro pesado e duro, mas também há as feitas na seda dos quimonos ou nas blusinhas baby-look das jovens modernas; (…) há, em verdade, vários tipos de escravidão, a das gueixas e da de tantas outras mulheres cujo papel se limita ao de alimentar os desejos de dominação masculinos. Ao assistir Memórias de uma Geisha, é difícil não traçar paralelos mentais entre a preparação minuciosa e dolorosa daquelas mulheres antes de uma noite de serviço aos homens ricos de Kyoto e os sacrifícios pelos quais algumas mulheres contemporâneas se submetem em nome de um bem-estar algo questionável. (…) A verdadeira libertação feminina parece residir, em grande parte, nas mãos das próprias mulheres e em sua vontade de servir -ou não - às fantasias do universo masculino sobre as mulheres - e à crueldade delas derivada.(…) [LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO]
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“Histórias como esta nunca deveriam ser contadas.”
(frase de Chyio, personagem principal de Memórias de uma Geisha, que abre o filme dirigido por Ron Marshall e adaptado do romance homônimo de Arthur Golden) |
Que valor terá uma produção hollywoodiana sobre o Japão pré-Segunda Grande Guerra, no qual os personagens japoneses principais são vividos por atores chineses, as locações são todas feitas em solo californiano, o diretor é famoso por seu trabalho em musicais da Broadway e o livro que deu origem à adaptação cinematográfica é a história de uma mulher japonesa contada em primeira pessoa por um escritor norte-americano? O resultado de tão improvável arranjo é Memórias de uma Geisha, um dos filmes mais indicados à premiação da Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood em 2005 - e por verdadeiros méritos da produção.
O filme de Ron Marshall - diretor do oscarizado e genial Chicago - conta com sutileza e suavidade a história de uma geisha e os caminhos que ela percorreu até se tornar a mais famosa dessas mulheres em atividade na Kyoto dos anos 1940. As imagens, o vestuário e as músicas são marcantes e de uma beleza entorpecedora, à exemplo do que era a arte das geishas e sua relação com seus clientes, mas o filme torna-se ainda mais arrebatador pelo trabalho magistral de interpretação de grandes nomes do cinema oriental como a sempre bela e talentosa Gong Li, Michelle Yeow (de O Tigre e o Dragão), Ziyi Zhang (a jovem e talentosa protagonista [veja fotos], famosa por seus papéis recentes em filmes como O Clã das Adagas Voadoras e Herói) e Ken Watanabe - atores que começam a se tornar conhecidos do público ocidental graças a filmes como este, que ousam não escalar para nenhum papel de destaque grandes astros ocidentais na tentativa vã de chamar bilheteria simplesmente com tal estratagema.
O filme tem como grande mérito transformar em imagens o universo minuciosamente descrito nas páginas da história original. Em que pese ser uma obra de ficção, o romance que deu mote ao filme de Marshall, escrito por Arthur Golden, é reconhecido por sua fidelidade àquele universo - é famosa a situação constrangedora que o autor criou ao agradecer, em seu livro, a uma famosa geisha de Kyoto pelas inúmeras entrevistas que ela lhe concedera em segredo - um muito obrigado que rendeu àquela mulher inúmeras ameaças de morte por ter ela quebrado o código de silêncio que rege tal profissão. A obra leva também o leitor a inúmeras reflexões sobre o papel daquelas mulheres na sociedade japonesa até a derrota daquele país para os aliados na Segunda Guerra Mundial.
Filha de pescadores pobres em uma aldeia distante no Japão dos anos trinta, Chyio - a menina com olhos de água - é vendida como escrava para uma okiya em Gion, o milenar e secreto bairro das gueixas em Kyoto. Uma okiya era uma casa que mantinha e educava mulheres para aquele milenar ofício que os ocidentais confundiram sempre, e erroneamente, com a prostituição - ainda que o objetivo das okyia não diferissem das casas de cafetina do Ocidente, ou seja, angariar dinheiro por meio do trabalho de mulheres escravizadas por seu ofício,
que ali chegavam por meio de um comércio clandestino (ainda que por todos conhecido) de escravas compradas dos próprios pais daquelas meninas. Por detrás da fachada de beleza, arte e encantamento daquelas etéreas mulheres - educadas em rígido sistema para o canto, a dança e a arte da conversação e da servidão para servirem de entertainers para os ricos senhores da cidade - há um sistema de competição e opressão entre as donas de okiya e as próprias geishas pelos favores e proteção dos homens mais ilustres - um mundo de ilusões no qual a virgindade das maiko, as aprendizes de geisha, é leiloada em grandes eventos públicos; onde o amor e a amizade são abolidos das vidas daquelas mulheres. Apesar de todo o sofrimento, da separação de suas famílias e das humilhações, a fuga para Chiyo - e para todas aquelas meninas e moças - parece ser impensável, e sua existência torna-se apenas útil quando seus serviços como geisha rendem dinheiro às donas dos okiya, que mantém o instável equilíbrio de tal sistema de opressão feminina através de falsos vínculos familiares, nos quais geishas e suas maikos, agenciadoras e suas protegidas, chamam-se carinhosamente de irmã mais velha e irmã mais nova, de mãe e filha. A saída, então, para meninas como Chyio, passa a ser o sonho torto de se tornarem famosas e veneradas geishas, única forma possível de independência para elas.
Uma das personagens principais da história, de nome Mameha, a mais famosa geisha de Kyoto e aquela que caridosamente toma para si a tarefa de educar e preparar a menina Chyio, agora sua aprendiz (maiko), para o ofício de gueixa - contar mais sobre o porquê de sua atitude benevolente é estragar algumas surpresas da história - e que dá à jovem o nome de geisha de Sayuri, diz à certa altura que sua jovem maiko deve sempre recordar que ” geishas não são cortesãs, nem esposas; vendemos nossas habilidades, não nosso corpo; criamos um outro mundo secreto, um mundo só de beleza; a própria palavra gueixa significa arte e ser uma geisha é ser julgada pelos outros como uma obra de arte em movimento”. Que dizer desta forma de pensar senão que ela resume, com esta ou aquela pequena mudança de palavras, boa parte da história da opressão, da educação para a sumissão a que têm sido submetidas as mulheres de todo o mundo ao longo dos séculos?
A dominação e a subserviência feminina parece sempre depender da participação das próprias mulheres como opressoras ou colaboradoras para a manutenção de tal sistema. Mas não há, nesta constatação, nenhuma forma de censura. O que se vê retratado em Memórias de uma Geisha é apenas um exemplo do que acontece em tantas outras partes do mundo em que a mulher é o primeiro algoz da mulher - das mães que levam suas filhas às mutilações genitais na Etiópia às agenciadoras de prostitutas mirins na Praça da Alfândega, em Porto Alegre; das líderes das okiya no Japão às mães muçulmanas que ajudam a perpetuar a opressão feminina em tantos países islâmicos; das mães filipinas, que vendem suas filhas para ricos negociantes árabes, às mães ocidentais modernas que constróem nas mentes de suas filhas ainda adolescentes o sonho pueril de se tornarem modelos, custe a elas o que custar - façam elas com seu corpo e seu pudor o que tenham que fazer.
Em que consistem tais sistemas de opressão da mulher senão no atendimento às vontades e fantasias masculinas? Contudo, há que se ter amplitude ao analisar tal situação da mulher, pois há grilhões feitos de ferro pesado e duro, mas também há as feitas na seda dos quimonos ou nas blusinhas baby-look das jovens modernas; há a mutilação física e cruel dos costumes mais tribais, mas também a castração a que se auto-impõem as mulheres que determinam sua vida em função do que o universo feminino delas espera. Há, em verdade, vários tipos de escravidão, a das gueixas e da de tantas outras mulheres cujo papel se limita ao de alimentar os desejos de dominação masculinos. Ao assistir Memórias de uma Geisha, é difícil não traçar paralelos mentais entre a preparação minuciosa e dolorosa daquelas mulheres antes de uma noite de serviço aos homens ricos de Kyoto e os sacrifícios pelos quais algumas mulheres contemporâneas se submetem em nome de um bem-estar algo questionável. No Gion, o sonho maior das geishas era o de serem “adotadas” por um danna, uma espécie de mecenas que manteria sua protegida bem alimentada e segura em termos financeiros - algo equivalente a uma vida independente para uma geisha; no mundo moderno, quantas mulheres de todas as classes sociais ainda não alimentam o desejo de se casar com um homem rico que as mantenha e sustente em uma vida de comodidades? A verdadeira libertação feminina parece residir, em grande parte, nas mãos das próprias mulheres e em sua vontade de servir -ou não - às fantasias do universo masculino sobre as mulheres - e à crueldade delas derivada.
Ao contrário do que diz a personagem principal em sua narração inicial no magistral, belíssimo filme de Ron Marshall, histórias como esta precisam ser contadas - ainda que o desejo maior é que sua revelação leve-nos a um dia no qual a opressão feminina seja apenas um conto triste de um passado que já não exista mais.
Em recente entrevista, concedida em seis de fevereiro de 2006 à revista semanal Newsweek, Pervez Musharraf, presidente do Paquistão, um dos poucos países islâmicos abertamente aliados dos Estados Unidos da América, foi questionado mais uma sobre sobre a sua crença em uma futura captura do líder da rede terrorista Al-Qaeda, Osama bin Laden, tido como o grande orquestrador de eventos como os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001em território estadunidense. A pergunta foi motivada pelos recentes incidentes ocorridos no Paquistão, quando aviões militares dos EUA atacaram grupos rebeldes ligados à Al Qaeda dentro do território daquele país asiático - uma ação que motivou uma representação do governo paquistanês junto à diplomacia norte-americana por “desprezo à soberania paquistanesa”. A resposta de Musharraf àquela indagação sobre a captura do homem mais procurado pelo governo estadunidense foi curta e enfática:
- Possible, but very difficult.
Pervez - que em sua terra natal é também alvo de ameaças terroristas de grupos radicais que mais de uma vez já promoveram atentados contra o presidente - expressou, com sua economia de palavras, uma percepção que talvez fuja aos que lideram a caçada norte-americana aos terroristas da Al-Qaeda: o relevo e a geografia de países como o Paquistão e o Afeganistão - além da falta de infraestrutura de muitas regiões de população eminentemente nômade - permitem que os líderes terroristas mais importantes, como Osama bin Laden e Ayman Al-Zawahiri, virtualmente possam permanecer ocultos em pequenas bases ocultas em suas montanhas por anos a fio - como efetivamente vem acontecendo; os grupos terroristas têm organização maleável, quase volátil, que lhes permite mudar de nome e aglutinar-se com outros grupos, dificultando qualquer acompanhamento mais detalhado; ações militares são eficazes apenas para dar tempo suficiente para a realização de outras ações mais detalhadas na área de Inteligência, não sendo em si uma soulção eficaz no combate ao terrorismo; o fundamento do terrorismo de inspiração islâmica é o extremismo, e este está dentro das mentes das pessoas, tornando-se impossível dar cabo de um grupo terrorista apenas eliminando seus líderes - o que remete à caçada desesperada pelas cabeças de bin Laden e Zawahiri, por exemplo, quando em verdade a morte desses dois líderes pouco afetaria uma organização que mais funciona como um grande guarda-chuva inspiracional de ações terroristas ocorridas em todas as partes do mundo que como um braço forte e controlador de tais ataques (já que dificilmente alguém oculto nas íngremes montanhas do Paquistão, por exemplo, teria capilaridade para engendrar e ordenar atentados na Espanha ou Inglaterra).
Em que pese a questionável forma como os Estados Unidos da América anda a conduzir sua política externa nos últimos tempos - travando guerras contra ditadores que eles mesmo ajudaram a colocar no poder em um passado não muito distante -, é compreensível que um país atingido pelos incidentes que marcaram aquele onze de setembro se veja no direito de tomar medidas de retaliação aos que cometeram tais atrocidades. Qualquer país tomaria alguma atitude em proteção aos seus interesses, ainda que os anti-americanos insistam em demonizar toda e qualquer ação que venha dos Estados Unidos da América. O cerne da questão, contudo, não será alcançado em invasões maciças e ataques a alvos civis sem qualquer ordenação, tampouco na humilhação e no desrespeito aos direitos humanos de pessoas cuja participação ou envolvimento com o terrorismo sequer fora ainda confirmada; ele reside no arcabouço filosófico por trás de tais ataques - e os incidentes recentes causados pelos protestos de manifestantes islâmicos em diversos países contra a publicação de caricaturas do profeta Mohammed mostram a extensão do problema.
A morte dos líderes - e símbolos, por que não dizer - da rede Al-Qaeda e de outros grupos terroristas de igual viés ideológico não representaria, de fato, nenhuma mudança mágica na guerra contra o terrorismo mundial. Talvez apenas acirrasse os ânimos e motivasse a ocorrência de novos ataques, já que a Al-Qaeda, por maior que seja o número de grupos a ela efetivamente filiados, serve aos extremistas hoje em dia mais como exemplo tosco a ser seguido que como financiador capaz de manter tantas e tamanhas ações terroristas em todo o mundo. Por isso, é possível que os Estados Unidos da América capture Osama bin Laden um dia, talvez até por pura casualidade. Mas é difícil acreditar que tal troféu almejado pela gestão George W. Bush traga os resultados esperados no combate ao terrorismo mundial.
Falta-nos, a nós ocidentais, muitas peças a completar para a compreensão do quebra-cabeças que é, para nós, o pensamento do atual mundo islâmico. Sem tal entendimento, tão difícil em tempos de tamanho extremismo e dominação daquelas populações por seus líderes religiosos, muitas vezes os únicos letrados em uma religião na qual seu texto sagrado ainda é inacessível para a maioria de seus seguidores, qualquer ação militar corre o risco de ser inócua ou irrelevante.
Há uma razão inegável para que o mais recente filme de Ang Lee (…) tenha alcançado as premiações e indicações todas que fazem da produção a grande favorita ao Oscar deste ano. Não há, em nenhum instante do filme, excessos. O filme é extremamente bem dirigido, os atores interpretam com naturalidade seus papéis, não há estereótipos nem qualquer tentativa planfetária pró-GayPride, a música é usada com precisão e parcimônia - ao ponto de se sair da sala de projeção com a agradável sensação de que havia boa música pontuando esta ou aquela cena, mas sendo totalmente impossível se recordar desta ou daquela canção (…). Não há exageros sequer na transformação dos atores para representar a trajetória dos mais de vinte anos nos quais a história do filme se desenrola (…)
Ainda que o cerne do argumento de O Segredo de Brokeback Mountain seja amplamente conhecido - o despertar de uma relação homoerótica entre dois cowboys no pouco cosmopolita estado americano de Wyoming -, a forma como o tema é apresentado nas telas do cinema é que faz deste filme uma pequena obra-prima. Pois não é exagerado dizer que a homossexualidade quase se torna um detalhe dentro de molduras maiores, temas mais amplos e universais que o filme se propõe a discutir: o preconceito - de todos os matizes - e suas funestas conseqüências, o amor tornado impossível diante das amarras sociais, a falta de diálogo nas famílias, a falta de perspectiva de vida diante da impossibilidade do amor. A paixão mal resolvida e o amor prerenizado em Brokeback Mountain trazem ecos de outros dramas universais - da ficção shakespeareana de Romeu e Julieta ao drama real de Abelardo e Heloise, da desesperada descida aos infernos de Orfeu ao destino cruel dos amantes diante da impossibilidade da paixão do camiliano Amor de Perdição.
Em tempos nos quais assistimos, horrorizados, uma escalada ensandecida de fundamentalismos e radicalismos de toda sorte, Brokeback Mountain ajuda-nos a repensar conceitos e examinar o quanto podemos destruir a vida do próximo ao impormos nossa intelorância e nossos temores infundados.(…) [LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO]
Há uma razão inegável para que o mais recente filme de Ang Lee - diretor de recentes clássicos do cinema como “O Tigre e o Dragão” e “Razão e Sensibilidade”, mas também de bombas como “Hulk” - tenha alcançado as premiações e indicações todas que fazem da produção a grande favorita ao Oscar deste ano. Não há, em nenhum instante do filme, excessos. O filme é extremamente bem dirigido, os atores interpretam com naturalidade seus papéis, não há estereótipos nem qualquer tentativa planfetária pró-GayPride, a música é usada com precisão e parcimônia - ao ponto de se sair da sala de projeção com a agradável sensação de que havia boa música pontuando esta ou aquela cena, mas sendo totalmente impossível se recordar desta ou daquela canção (um efeito meritório em tempos hollywoodianos pós-Titanic, Celine Dion e “My Heart Will Go On” - creio que todos se recordam disso). Não há exageros sequer na transformação dos atores para representar a trajetória dos mais de vinte anos nos quais a história do filme se desenrola - os truques de maquiagem e de uso do vestuário para marcar tais passagens de tempo são mínimos e, por conta disso, bem sucedidos.
Ainda que o cerne do argumento de O Segredo de Brokeback Mountain seja amplamente conhecido - o despertar de uma relação homoerótica entre dois cowboys no pouco cosmopolita estado americano de Wyoming -, a forma como o tema é apresentado nas telas do cinema é que faz deste filme uma pequena obra-prima. Pois não é exagerado dizer que a homossexualidade quase se torna um detalhe dentro de molduras maiores, temas mais amplos e universais que o filme se propõe a discutir: o preconceito - de todos os matizes - e suas funestas conseqüências, o amor tornado impossível diante das amarras sociais, a falta de diálogo nas famílias, a falta de perspectiva de vida diante da impossibilidade do amor. A paixão mal resolvida e o amor prerenizado em Brokeback Mountain trazem ecos de outros dramas universais - da ficção shakespeareana de Romeu e Julieta ao drama real de Abelardo e Heloise, da desesperada descida aos infernos de Orfeu ao destino cruel dos amantes diante da impossibilidade da paixão do camiliano Amor de Perdição.
Em tempos nos quais assistimos, horrorizados, uma escalada ensandecida de fundamentalismos e radicalismos de toda sorte, Brokeback Mountain ajuda-nos a repensar conceitos e examinar o quanto podemos destruir a vida do próximo ao impormos nossa intelorância e nossos temores infundados.
Infelizmente, ainda precisamos - e muito - do auxílio de Hollywood e de seu poder no imaginário mundial para que, aos poucos, a temperança vença o ódio sem sentido. Durante todo o tempo de projeção do filme, atrás de minha poltrona havia um homem de seus quarenta e poucos anos que fazia comentários os mais homofóbicos sobre um filme que, afinal, é delicado e bastante sutil nas poucas cenas em que há algum contato físico entre os dois protagonistas - imagens, aliás, necessárias para a condução de uma história que surpreende e enlaça o expectador a cada instante. Se em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no sexualmente libertário Brasil, alguém consegue ainda ter esse tipo de reação em uma sala de cinema - tendo pago a entrada para assistir a uma história cujo argumento, convenhamos, foi mais que divulgado pela imprensa em geral (ou seja, não havia surpresas para qualquer expectador de que ali na tela se desenrolaria uma história de amor homossexual masculino) -, é porque precisaremos ainda de muito tempo - e muitos filmes como este - para apagar do coração dos homens e mulheres o preconceito e o rancor que impedem a felicidade de tantos outros homens e mulheres que nasceram ou optaram por uma outra forma de amar e viver - e querem tão-somente isso, amar e viver na paz protetora de uma Brokeback Mountain.
Germaine Greer, professora de Literatura da Universidade de Warwick, Inglaterra, e doutora honoris causa pela Universidade de Sidney, tornou-se conhecida mundialmente ao publicar, ainda em 1970, seu polêmico livro The Female Eunuch, no qual a autora, de forma pioneira, tecia ligações entre o relacionamento sexual entre homens e mulheres e os esquemas de dominação sexual que, à época, eram a bandeira maior do chamado movimento feminista. Para a autora, as diferenças entre os sexos haviam sido “amplamente exageradas ao longo da história” e os papéis desempenhados por cada sexo eram “fruto de um aprendizado planejado pelos homens, e não algo natural”. Greer já então considerava que tanto os homens quanto as mulheres “deformavam-se mutuamente de modo a se conformarem aos padrões e aos papéis sociais exigidos para cada sexo” - e que o local onde isto aconteceria com maior intensidade seria na família “nuclear, suburbana e consumista”. O termo eunuco do título, normalmente associado ao homem que tinham decepados seus órgãos genitais para servirem como escravos em funções as mais servis, não foi escolhido por acaso: para a escritora australiana, “a mulher é o verdadeiro eunuco” da humanidade.
Curioso então é comparar a guinada de interesses que o último livro de Germaine Greer, The Boy, representa na obra da autora. Nesta obra, a crítica de literatura sobrepõe-se à polemicista e feminista para tecer um interessante estudo do papel da juventude - em especial da juventude masculina - na história da arte. Como as pinceladas de um pintor costumam ser uma assinatura quase definitiva a marcar a autenticidade de uma obra, contudo, as alusões sexuais são constantes no livro de Greer, uma espécie de marca registrada da escritora, que enxerga em quase todas as obras que se põe a analisar um componente erótico - desde uma “evidente imagem orgástica” que ela vislumbrou na famosa escultura do “Escravo à hora da morte”, de Michelangelo (veja imagem ao lado), até a louvação a Coreggio por ter sido “o único artista a ter retratado o ânus e o saco escrotal de um anjo” em suas pinturas.
Tais movimentos de Greer, contudo, parecem ter um alvo certeiro, que ela mesma deixa explícito em uma de suas frases mais bombásticas de The Boy: para a autora, estabelecer a verdade de que “meninos são sinônimo da mais pura beleza estética” - e que as mulheres adultas deveriam olhar com mais cuidado para os pequenos homens que as cercam - “é demolir um dos últimos grandes tabus ocidentais”. Greer diz que as “mulheres adultas perdem muito ao fechar os olhos para os meninos e rapazes” e que os homems mesmo “saem em desvantagem por não celebrarem a sua própria “meninice”.
“Graças às guerras, à violência e ao suicídio”, afirma Germaine Greer, “as grandes vítimas do mundo são os meninos e rapazes”. Para a escritora, os meninos são criaturas vulneráveis, por conta de sua própria impetuosidade, sua falta de bom senso em sua ações e também por serem tolhidos no uso de modos mais fáceis de autodefesa que os exigidos pela sociedade. Ao adentrar na vida adulta, os homens precisam eliminar o menino e isso representa abolir sua “irresponsabilidade sexual”, sua capacidade de correr riscos e buscar emoções fortes - as mães percebem tal fase facilmente, quando o menino que admirava suas palavras e cuidados passa a ser arredio e evitar ser visto em público com sua mãe, sobretudo em atividades nas quais estejam envolvidos outros meninos de sua idade. Greer considera que nisto resida o princípio do infinito menosprezo aprendido pelos homens às mulheres em geral. Aos olhos da autora australiana são a causa “de vermos destruídos, em frente aos nossos próprios olhos, todas as coisas maravilhosas que amamos nos meninos”.
Qual será a intenção oculta por trás das idéias inovadoras de Greer? Por um lado, há a abjeta sugestão - comum a grande parte de feministas históricas - de que as mulheres atingirão direitos iguais aos dos homens ao assumir seus comportamentos - no caso, ao começarem a despertar seu interesse sexual para os menores de idade, uma espécie de Lolita às avessas na qual a autora não atenta, em nenhum momento, para os reflexos que tais investidas eróticas de mulheres adultas sobre homens-meninos poderá acarretas para estes últimos. Ou será que correrá sem tropeços daqui por diante a vida de um menino de treze anos, como recentemente aconteceu nos Estados Unidos da América, cuja professora que o assediou sexualmente está grávida de um seu filho? É machista demais, até mesmo para uma feminista, a idéia de que a iniciação sexual de meninos por mulheres adultas e experientes seja o caminho normal da vida. Por outro lado, há essa admiração incompreensível pelo que há de “falta de bom senso”, de “amor pelo risco” e “irresponsabilidade sexual” nos meninos e rapazes. Então terá passado Germaine Greer ao largo de toda a luta da sociedade atual pelas conseqüências funestas do desprezo ao “sexo seguro”, do flagelo da AIDS e de outras DSTs, do baby boom das adolescentes grávidas e dos pais menores de idade?
Mesmo para criar polêmicas, há que se ter uma mínima preocupação com as conseqüências das idéias que pregamos - algo que Greer parece abstrair de seu texto sedutor - e repleto de belíssimas ilustrações - sobre meninos e arte.
Recentemente recebi, de um grande amigo que merecidamente está a fazer um intercâmbio de um ano pelo renomado programa Erasmus, em uma universidade na Alemanha, uma mensagem na qual ele listava as perguntas impertinentes e os casos de preconceito explícito que vem sofrendo no ambiente acadêmico e mesmo nas rodas de amigos que conseguiu construir lá formar.
Em sua narrativa, há desde situações vexatórias - como aquela na qual um alemão, ao vê-lo conseguir resolver um problema de lógica matemática antes de toda a turma, deixa escapar, em sua língua germânica, que “para um brasileiro, [ele] até que não era tão burro assim” - até outras risíveis, como os inúmeros estudantes que vêm lhe perguntar sobre “como ele cursava universidade no Brasil em meio à Floresta Amazônica” ou “se era verdade que ele tinha sido criado por uma família de patos” como um outro brasileiro havia contado à turma, ou ainda se era verdade que “no Brasil, em cada esquina se podia fazer sexo ao ar livre sem ser importunado”. Houve ainda a alemã que declarou ter conhecido quase toda a América do Sul - Argentina, Chile, Peru, Paraguai, Bolívia e Colômbia - menos o Brasil, por considerar o país “violento demais”, e a outra que lhe perguntou se ele poderia lhe dar aulas particulares de… espanhol! Isto, é claro, sem falar dos muitos alemães que, à menção do Brasil, repetem a mesma cantilena - ”Brasil, ah…Ronaldo, football, carnival…” e similares.
Para algumas dessas indagações - pois ninguém é de ferro - meu grande amigo respondeu com o humor típico (e tantas vezes ferino) dos brasileiros, mas questiono os efeitos de tal “método” e tomei a liberdade de reproduzir, abaixo, a mensagem que lhe mandei em resposta à sua narrativa, para que vocês emitam sua opinião, caros (e viajados) leitores desta coluna eletrônica de variedades:
“(…) teus depoimentos são interessantes e, sei bem, sinceros. Mas até que ponto nós mesmos não alimentamos o preconceito que existe no exterior com relação aos brasileiros ao esperar que eles conheçam nosso país de cabo a rabo? O que nós conhecemos do país deles? Será que um brasileiro médio também não iria cometer gafes semelhantes em relação à Alemanha?
É claro que nenhum brasileiro em sã consciência iria perguntar a um alemão se ele mora na selva ou algo semelhante, mas qual é a imagem (e falo de imagética: filmes, fotografias, música, etc) do Brasil que chega até os europeus? Imagine um europeu que conhece do Brasil os filmes “Orquídea Selvagem”, “Lambada, a Dança Proibida” (sim, esse filme existe e conta a história da princesa de uma tribo amazônica que leva para os Estados Unidos a lambada, que era a dança da fertilidade de seu povo!) e “Cidade de Deus”? Ou, se ele for um pouco mais erudito, através das exposições fotográficas de Sebastião Salgado sobre os meninos carvoeiros do sertão nordestino? Antes de eu ir a Alemanha em 1993, com toda a cultura razoável que creio ter, eu acreditava que a Alemanha, de norte a sul, vestia aquelas roupas típicas de Oktoberfest e comia salsichão do almoço ao jantar (e eu nunca tinha saído do Rio de Janeiro, quer dizer, nem chimia e cuca eu conhecia para expandir meu repertório!). Se me perguntassem por alemães célebres, talvez eu respondesse algo do tipo “Ah, Germany… Beethoven, Bechenbauer, Goethe, Wagner, Nietszche…” e ficasse só nisso - e o que os alemães iriam pensar de mim?
Lembro-me que entrei em uma enorme loja de departamentos de Hamburgo e fui procurar um chapéu tipo Oktoberfest para um amigo que tinha me feito esta idiota encomenda. O lojista, que aliás falava português (quantos nós conhecemos no Brasil que falam alemão?), explicou-me que aquele artigo era apenas comum no sul da Alemanha, e mesmo assim em épocas de festa ou como artigo turístico. E tudo isso na maior educação. Mas daí tive o privilégio de conviver por dois dias com uma família católica de Osnabruck, norte da Alemanha, dois dias apenas, e minha visão já se modificou totalmente. Que dizer então dos europeus em relação ao Brasil, um país economicamente periférico, distante, do qual só recebem notícias de violência ou da vida selvagem da Amazônia?
Talvez alguns dos alemães que tenham feito perguntas que para nós soam totalmente idiotas estivessem mesmo atrás de informação de uma fonte confiável, no caso um brasileiro nato em intercâmbio no exterior. E é óbvio que isso não justifica um alemão imbecil que te diz que “para um brasileiro, até que você é inteligente!”. Mas se sempre partimos para a galhofa nesses casos, só aumentaremos o preconceito e a confusão. Quer se vingar? Responda tranqüilamente, e verdadeiramente, às perguntas, com um ar de “você não sabia disso?” ou “você realmente acha que o Brasil é só selva?” - e aqueles que tiverem perguntado com intenção de deboche verão o tiro sair pela culatra.”
Bem, está aberto o debate!
(…) Tenho cá em minhas mãos, por exemplo, a edição de 13 de abril de 2005 da revista VEJA - para quem não associou de imediato a data ao ocorrido, naquela época o mundo lamentava a morte de João Paulo II, o papa polonês, o De Labore Solis das profecias de São Malaquias; sua missa fúnebre havia sido celebrada dias antes, em 8 de abril, para uma Piazza San Pietro abarrotada de fiéis e curiosos e para uma audiência mundial difícil de ser calculada. (…) Este número da VEJA (…) dedica inúmeras páginas aos serviços fúnebres de Karol Wojtyla e, por consegüinte, ao conclave no qual seria decidido o futuro da Igreja Católica Apostólica Romana na figura de um novo líder que, além de seu papel religioso, também acumula as funções de chefe de Estado da única monarquia eletiva do mundo.
Nas famosas páginas amarelas de VEJA (…) daquela ocasião foi publicada uma interessante entrevista com Giancarlo Zizola, considerado o principal vaticanólogo italiano - entenda-se: vaticanólogo é um termo cunhado pela imprensa brasileira para se referir ao estudioso da história e da política do Vaticano. Zizola foi questionado, logicamente, sobre os rumos que a Igreja Católica iria tomar após a morte de Wojtyla. (…) O vaticanólogo italiano arvora-se a fazer conjecturas sobre a escolha do conclave. (…) Para ele, “dificilmente o novo papa [seria] proveniente de um país poderoso, para evitar que haja coincidência entre o papado e uma potência política, econômica e militar”. Tal certeza levou Zizola a afirmar que era “improvável, por isso, que [houvesse] um pontífice americano ou alemão” e que a tendência seria a eleição de um papa asiático, já que “é na Ásia que passará o eixo econômico, político, tecnológico e demográfico do mundo, e o grande desafio do catolicismo é fincar raízes por lá”.
Não nos cabe aqui desprezar o conhecimento do vaticanólogo - até por que, como ele mesmo diz em sua entrevista a VEJA, “é preciso considerar o fato de que um vaticanólogo não é um adivinho (…) e que hoje, com tantas variantes possíveis, se tornou ainda mais difícil acertar na loteria do papa“. Mas é interessante recordar todo o bulício que a eleição do novo papa causou à época. Todos falavam mal de Joseph Ratzinger, cardial alemão de 78 anos e que fora, então, eleito o 265º pontífice com o nome algo conservador de Bento XVI. Falava-se de seu radicalismo feroz em defesa da Igreja, de seu trabalho anterior como diretor do órgão da Igreja ao qual pertencia a malfadada Inquisição (a Congregação para a Doutrina da Fé) e do fato de ele ser alemão - não foram poucos os órgãos de imprensa, por meio de seus colunistas e chargistas, que associaram a nacionalidade de Ratzinger ao Nazismo - um expediente dos mais perversos e que não raro é usado contra os alemães contemporâneos, como se qualquer modo mais firme de ser de um germânico fosse razão para desconfiar de seu alinhamento com os ideais do Reich; e logo Ratzinger, que foi forçado a trabalhar para o regime de Adolf Hitler e dele conseguiu fugir, como muitos jovens que eram levados à força para os campos de batalha, fato que alguns historiadores e a massa de jornalistas prefere ignorar.
O fato é que Joseph Ratzinger iniciou seu pontificiado com humildade e sem estardalhaço, para a surpresa de muitos. Não houve grandes mudanças na doutrina da Igreja - nem para conservadorismos radicais, como vaticinavam os mais exaltados, nem para uma liberação que descaracterizasse a fé católica, já que falamos de doutrina, algo que não pode mesmo mudar a cada vento que passa. Sua primeira carta encíclica chama-se Deus Caritas Est (“Deus é Amor”, em livre tradução, já que o grego e o latim têm várias palavras para designar amor, em suas diversas facetas). Suas palavras iniciais, à guisa de introdução, são um belo exemplo do tom do longo documento (que pode ser lido na íntegra e em português no site do Vaticano), e contrastam com a imagem de um pontífice raivoso, radical ou nazista (…)
Em um mundo no qual vemos explosões de fanatismo religioso eclodirem a cada dia, confesso que, mesmo não sendo católico, tranqüilizo-me ao ver na direção dessa grande religião do mundo um homem centrado e comedido como Joseph Ratzinger. E fico feliz que Zizola tenha errado em suas previsões geopolíticas de escolha do novo pontífice. (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
É curioso, até mesmo divertido, ao entrarmos de férias longe de nossos lares, ou ao fazermos uma visita de praxe ao dentista ou ao podólogo, dedicarmos um pouco do nosso tempo para a leitura de revistas antigas e compararmos os exercícios de futurologia de alguns articulistas ou entrevistados com o que de fato aconteceu nos meses que se seguiram àquela publicação.
Tenho cá em minhas mãos, por exemplo, a edição de 13 de abril de 2005 da revista VEJA - para quem não associou de imediato a data ao ocorrido, naquela época o mundo lamentava a morte de João Paulo II, o papa polonês, o De Labore Solis das profecias de São Malaquias; sua missa fúnebre havia sido celebrada dias antes, em 8 de abril, para uma Piazza San Pietro abarrotada de fiéis e curiosos e para uma audiência mundial difícil de ser calculada. Este número da VEJA, como era de se esperar, dedica inúmeras páginas aos serviços fúnebres de Karol Wojtyla e, por consegüinte, ao conclave no qual seria decidido o futuro da Igreja Católica Apostólica Romana na figura de um novo líder que, além de seu papel religioso, também acumula as funções de chefe de Estado da única monarquia eletiva do mundo.
Nas famosas páginas amarelas de VEJA - que abrem a revista com uma longa entrevista a alguém de renome, ainda que nem sempre por seus méritos intelectuais ou seu trabalho em prol da humanidade - daquela ocasião foi publicada uma interessante entrevista com Giancarlo Zizola, considerado o principal vaticanólogo italiano - entenda-se: vaticanólogo é um termo cunhado pela imprensa brasileira para se referir ao estudioso da história e da política do Vaticano.
Zizola foi questionado, logicamente, sobre os rumos que a Igreja Católica iria tomar após a morte de Wojtyla. Além de dar sugestões questionáveis como a idéia de que os governos da Itália, da Polônia e da Espanha “deveriam tirar seus soldados do Iraque em homenagem ao pontífice morto, (…) o papa da Paz”, o vaticanólogo italiano arvora-se a fazer conjecturas sobre a escolha do conclave. Primeiro, diz que o encontro de cardeais para eleger o novo papa duraria ao menos “uns sete dias” e que era quase certo que o novo papa viria “de fora da Europa”, já que mais da metade dos cardeais reunidos no conclave eram não-europeus. Para ele, “dificilmente o novo papa [seria] proveniente de um país poderoso, para evitar que haja coincidência entre o papado e uma potência política, econômica e militar”. Tal certeza levou Zizola a afirmar que era “improvável, por isso, que [houvesse] um pontífice americano ou alemão” e que a tendência seria a eleição de um papa asiático, já que “é na Ásia que passará o eixo econômico, político, tecnológico e demográfico do mundo, e o grande desafio do catolicismo é fincar raízes por lá”.
Não nos cabe aqui desprezar o conhecimento do vaticanólogo - até por que, como ele mesmo diz em sua entrevista a VEJA, “é preciso considerar o fato de que um vaticanólogo não é um adivinho (…) e que hoje, com tantas variantes possíveis, se tornou ainda mais difícil acertar na loteria do papa“. Mas é interessante recordar todo o bulício que a eleição do novo papa causou à época. Todos falavam mal de Joseph Ratzinger, cardial alemão de 78 anos e que fora, então, eleito o 265º pontífice com o nome algo conservador de Bento XVI. Falava-se de seu radicalismo feroz em defesa da Igreja, de seu trabalho anterior como diretor do órgão da Igreja ao qual pertencia a malfadada Inquisição (a Congregação para a Doutrina da Fé) e do fato de ele ser alemão - não foram poucos os órgãos de imprensa, por meio de seus colunistas e chargistas, que associaram a nacionalidade de Ratzinger ao Nazismo - um expediente dos mais perversos e que não raro é usado contra os alemães contemporâneos, como se qualquer modo mais firme de ser de um germânico fosse razão para desconfiar de seu alinhamento com os ideais do Reich; e logo Ratzinger, que foi forçado a trabalhar para o regime de Adolf Hitler e dele conseguiu fugir, como muitos jovens que eram levados à força para os campos de batalha, fato que alguns historiadores e a massa de jornalistas prefere ignorar.
O fato é que Joseph Ratzinger iniciou seu pontificiado com humildade e sem estardalhaço, para a surpresa de muitos. Não houve grandes mudanças na doutrina da Igreja - nem para conservadorismos radicais, como vaticinavam os mais exaltados, nem para uma liberação que descaracterizasse a fé católica, já que falamos de doutrina, algo que não pode mesmo mudar a cada vento que passa. Sua primeira carta encíclica chama-se Deus Caritas Est (“Deus é Amor”, em livre tradução, já que o grego e o latim têm várias palavras para designar amor, em suas diversas facetas). Suas palavras iniciais, à guisa de introdução, são um belo exemplo do tom do longo documento (que pode ser lido na íntegra e em português no site do Vaticano), e contrastam com a imagem de um pontífice raivoso, radical ou nazista:
” « Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele » (1 Jo 4, 16). Estas palavras da I Carta de João exprimem, com singular clareza, o centro da fé cristã: a imagem cristã de Deus e também a consequente imagem do homem e do seu caminho. Além disso, no mesmo versículo, João oferece-nos, por assim dizer, uma fórmula sintética da existência cristã: « Nós conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem ». Nós cremos no amor de Deus — deste modo pode o cristão exprimir a opção fundamental da sua vida. Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. (…) Num mundo em que ao nome de Deus se associa às vezes a vingança ou mesmo o dever do ódio e da violência, esta é uma mensagem de grande actualidade e de significado muito concreto. Por isso, na minha primeira Encíclica, desejo falar do amor com que Deus nos cumula e que deve ser comunicado aos outros por nós. Estão assim indicadas as duas grandes partes que compõem esta Carta, profundamente conexas entre elas. A primeira terá uma índole mais especulativa, pois desejo — ao início do meu Pontificado — especificar nela alguns dados essenciais sobre o amor que Deus oferece de modo misterioso e gratuito ao homem, juntamente com o nexo intrínseco daquele Amor com a realidade do amor humano. A segunda parte terá um carácter mais concreto, porque tratará da prática eclesial do mandamento do amor ao próximo. O argumento aparece demasiado amplo; uma longa explanação, porém, não entra no objectivo da presente Encíclica. O meu desejo é insistir sobre alguns elementos fundamentais, para deste modo suscitar no mundo um renovado dinamismo de empenhamento na resposta humana ao amor divino.”
Em um mundo no qual vemos explosões de fanatismo religioso eclodirem a cada dia, confesso que, mesmo não sendo católico, tranqüilizo-me ao ver na direção dessa grande religião do mundo um homem centrado e comedido como Joseph Ratzinger. E fico feliz que Zizola tenha errado em suas previsões geopolíticas de escolha do novo pontífice.
Na crença dos católicos, os cardeais reunidos em conclave recebem inspiração divina para efetuar a escolha de um novo papa - o que acredito não ser difícil de acontecer na Capela Sixtina, diante da visão esplendorosa dos afrescos de Michelangelo. Quem sabe se isso não é a mais pura verdade?
O mamute lanoso - que ganhou este nome dos paleontólogos pelos indícios de que o corpo deste enorme mamífero fosse coberto de lã - viveu há cerca de pelo menos doze mil anos, entre os anos um milhão e oitocentos mil e 11.500 a.C., na época geológica conhecida como Pleistoceno. Tal época da era Cenozóica é conhecida dos paleontólogos, aliás, por serem abundantes os fósseis desse período, assim como serem os mais bem conservados e de datação precisa.
O Pleistoceno foi também o período no qual ocorreram as glaciações mais recentes, mas a razão principal de seu retorno à imprensa internacional - e da súbita notoriedade do mamute lanoso - foi o anúncio, na edição de janeiro de 2006 da renomada revista Science, dos resultados obtidos pelos zoologistas Alexei Tikhonov, da Academia Russa de Ciência, e Ross McPhee, do Museu Americano de História Natural. Em um trabalho conjunto, os dois cientistas conseguiram decodificar treze milhões de pares-base do DNA extraído do osso da mandíbula de um daqueles animais - metade do genoma completo do mamute lanoso -, o qual teria morrido há vinte e oito mil anos nas estepes siberianas.
Tikhonov e McPhee, que estimam terminar a decodificação completa do DNA do mamute lanoso em três anos mais, têm planos maiores para a sua descoberta: eles pertencem à corrente dos cientistas que pretendem iniciar um processo que eles chamam de repopulação de espécies extintas da face da terra, seja nos anos mais recentes de nossa história ou mesmo em eras remotas do início da vida na Terra. Para estes cientistas, casos como o do mamute lanoso permitiriam à ciência do século XXI consertar erros cometidos pelo homem no passado - já que se estima que o desaparecimento de grandes mamíferos do Pleistoceno, como o bisão-de-chifres-longos, o tigre-dente-de-sabre, o mastodonte e a hiena gigante, tenha sido causado pela caça predatória de nossos ancestrais humanos. O estabelecimento do genoma completo desses animais, aliado às técnicas bem sucedidas de clonagem hoje disponíveis - até mesmo com o uso de células de animais similares aos do Pleistoceno, como o elefante, por exemplo - podem trazer à luz em um futuro não muito distante os primeiros exemplares de animais pré-históricos a caminhar na Terra dos nossos dias.
(…) O mais curioso é o discurso politicamente correto incutido em meio à defesa de sua idéia de reflorestamento: seu interesse de cientista seria, então, o de reparar a evolução das espécies, girar os ponteiros da história natural ao contrário e resgatar das mãos do homem anti-ecológico do Pleistoceno a vida daqueles animais extintos. Mas quem somos nós para julgar o que foi certo e o que foi errado no longo caminhar da vida na Terra?
Charles Darwin, cuja obra certamente foi leitura obrigatória na formação desses paleontólogos, botânicos e zoologistas, já nos últimos anos do século XIX estabelecia, em seu A Origem das Espécies, que sobreviviam aqueles seres mais aptos - e não tão-somente os mais fortes. Não terão sido os homens do Pleistoceno mais aptos que os mamutes lanosos e os alces gigantes? (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
O mamute lanoso - que ganhou este nome dos paleontólogos pelos indícios de que o corpo deste enorme mamífero fosse coberto de lã - viveu há cerca de pelo menos doze mil anos, entre os anos um milhão e oitocentos mil e 11.500 a.C., na época geológica conhecida como Pleistoceno. Tal época da era Cenozóica é conhecida dos paleontólogos, aliás, por serem abundantes os fósseis desse período, assim como serem os mais bem conservados e de datação precisa.
O Pleistoceno foi também o período no qual ocorreram as glaciações mais recentes, mas a razão principal de seu retorno à imprensa internacional - e da súbita notoriedade do mamute lanoso - foi o anúncio, na edição de janeiro de 2006 da renomada revista Science, dos resultados obtidos pelos zoologistas Alexei Tikhonov, da Academia Russa de Ciência, e Ross McPhee, do Museu Americano de História Natural. Em um trabalho conjunto, os dois cientistas conseguiram decodificar treze milhões de pares-base do DNA extraído do osso da mandíbula de um daqueles animais - metade do genoma completo do mamute lanoso -, o qual teria morrido há vinte e oito mil anos nas estepes siberianas.
Tikhonov e McPhee, que estimam terminar a decodificação completa do DNA do mamute lanoso em três anos mais, têm planos maiores para a sua descoberta: eles pertencem à corrente dos cientistas que pretendem iniciar um processo que eles chamam de repopulação de espécies extintas da face da terra, seja nos anos mais recentes de nossa história ou mesmo em eras remotas do início da vida na Terra. Para estes cientistas, casos como o do mamute lanoso permitiriam à ciência do século XXI consertar erros cometidos pelo homem no passado - já que se estima que o desaparecimento de grandes mamíferos do Pleistoceno, como o bisão-de-chifres-longos, o tigre-dente-de-sabre, o mastodonte e a hiena gigante, tenha sido causado pela caça predatória de nossos ancestrais humanos. O estabelecimento do genoma completo desses animais, aliado às técnicas bem sucedidas de clonagem hoje disponíveis - até mesmo com o uso de células de animais similares aos do Pleistoceno, como o elefante, por exemplo - podem trazer à luz em um futuro não muito distante os primeiros exemplares de animais pré-históricos a caminhar na Terra dos nossos dias.
Há projetos semelhantes em diversos países do mundo que buscam a repopulação de animais que as gerações presentes chegaram a conhecer - como o diabo-da-tasmânia na Austrália e algumas espécies de pássaros na Irlanda - e na própria Rússia crescem atualmente os esforços para a manutenção de um grande projeto, liderado pelo cientista Sergei Zimov, de ressurgimento das florestas e campinas existentes na Sibéria antes da última era do gelo. A idéia de Zimov, aliás, é começar pela restauração da flora daquela época geológica, para depois, aos poucos, povoar a região com lobos, bisões e, quem sabe, mamutes lanosos e outras espécies cujos fósseis foram encontrados sob o gelo siberiano. O nome de tal projeto? Parque Pleistoceno.
O encantamento quase juvenil de poder ver de perto, vivos e em seu habitat natural (?) animais extintos há tanto tempo traz à mente de qualquer um de nós as agruras e desencantos dos personagens da série de filmes de Steven Spielberg chamada Jurassic Park. Mas a questão ética envolvida em todo este afã científico de recriar mundos já mortos parece fugir à mente dos cientistas, cujos olhos parecem vislumbrar apenas a glória de uma conquista tão inusitada: a de ressuscitar fósseis. O mais curioso é o discurso politicamente correto incutido em meio à defesa de sua idéia de reflorestamento: seu interesse de cientista seria, então, o de reparar a evolução das espécies, girar os ponteiros da história natural ao contrário e resgatar das mãos do homem anti-ecológico do Pleistoceno a vida daqueles animais extintos. Mas quem somos nós para julgar o que foi certo e o que foi errado no longo caminhar da vida na Terra?
Charles Darwin, cuja obra certamente foi leitura obrigatória na formação desses paleontólogos, botânicos e zoologistas, já nos últimos anos do século XIX estabelecia, em seu A Origem das Espécies, que sobreviviam aqueles seres mais aptos - e não tão-somente os mais fortes. Não terão sido os homens do Pleistoceno mais aptos que os mamutes lanosos e os alces gigantes?
Diante de tantos exemplos de ações mal-sucedidas de manipulações humanas no equilíbrio ecológico, quem quer assumir o ônus de reintroduzir em nosso horizonte seres dos quais tão pouco conhecemos?
Nas primeiras décadas da Revolução Industrial Espanhola descobriu-se que as montanhas que cercam a cidade de Bilbao, capital da província de Biscaia e uma das mais importantes do chamado País Basco, eram ricas em minério de ferro - elemento importantíssimo para o desenvolvimento exigido pelos novos tempos. Por sua própria situação privilegiada de porto voltado para a industrializada Inglaterra, não tardou para que fosse promovida a criação de todo um parque industrial voltado para a siderurgia em Bilbao.
O progresso trouxe, de imediato, suas conseqüências funestas: o rio Nérvion começou, de imediato, a receber toneladas diárias de dejetos, que tornaram suas águas em um espesso e pesado líquido de coloração marrom, que seguia assim seu curso até ser lançado diretamente para o mar. Ao chegar no oceano, a poluição das siderúrgicas e demais indústrias destruíam a fauna próxima, afetando até mesmo a produção de pescado, uma das fontes de renda mais antigas e tradicionais daquela região.
Com o declínio da produção de minério de ferro, Bilbao caiu em uma terrível decadência urbana, a qual transformou bairros tradicionais como La Vieja em antros de prostituição e tráfico de drogas em espaços que, durante o dia, eram disputados por imigrantes em situação ilegal e locais sem outra opção de moradia, dos quais 32% (trinta e dois por cento) estavam desempregados.
A situação caótica da cidade modificou-se, contudo, em um intervalo de quinze anos: salvou-se o rio Nérvion da poluição, com um inteligente sistema de tratamento de esgotos que só retornava ao rio as águas servidas após total tratamento, além de uma legislação severa com multas pesadas para as empresas poluidoras; as margens do rio foram remodeladas para receber um novo modelo de reurbanização, no qual novos bairros surgiram - com edifícios residenciais, prédios de escritórios, parques e setores de entretenimento e compras, em um movimento de renovação urbana que acabou por se extender a toda a cidade.
(…) Ainda assim, a cidade carecia de visibilidade perante as demais cidades espanholas e, por que não sonhar alto, os países europeus e o mundo. A opção foi ousada, e gerou protestos à época de parte da população, que imaginou que a verba usada no projeto deveria ser destinada a áreas outras como saúde e habitação: criou-se, em 1997, o Museu Guggenheim de Bilbao, um colosso de arquitetura contemporânea, uma enorme flor metálica que parece brotar em meio aos prédios antigos do centro de Bilbao e às margens do rio que corta a cidade; ao longo dos anos, o museu tornou-se um símbolo da cidade de Bilbao e começou a atrair turistas de todo o mundo, criando na região um fluxo de turismo jamais visto. O resultado é que setores da economia local antes diminutos, como restaurantes e rede hoteleira, tiveram que se expandir em quase quatro vezes seu tamanho original para vencer a demanda dos visitantes que durante todo o ano afluem para a capital de Biscaia em busca da modernidade do Guggenheim - e mais por sua arquitetura que pelas exposições lá existentes - e também do clima pitoresco das antigas ruas de Bilbao.
Que lições podemos tirar de Bilbao? A mais importante delas é que o destino de uma cidade está nas mãos de seus moradores - já que são eles que decidem quem a governa, além de serem seu usuário mais freqüente e, por conta disso, o maior responsável pelo estado em que se encontra suas ruas, praças, rios, praias, florestas, parques, prédios históricos, museus, monumentos e bens públicos diversos. (…)O que falta para que tornemos nossa cidade uma nova Bilbao? Será a vontade de mudar? (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
Nas primeiras décadas da Revolução Industrial Espanhola descobriu-se que as montanhas que cercam a cidade de Bilbao, capital da província de Biscaia e uma das mais importantes do chamado País Basco, eram ricas em minério de ferro - elemento importantíssimo para o desenvolvimento exigido pelos novos tempos. Por sua própria situação privilegiada de porto voltado para a industrializada Inglaterra, não tardou para que fosse promovida a criação de todo um parque industrial voltado para a siderurgia em Bilbao.
O progresso trouxe, de imediato, suas conseqüências funestas: o rio Nérvion começou, de imediato, a receber toneladas diárias de dejetos, que tornaram suas águas em um espesso e pesado líquido de coloração marrom, que seguia assim seu curso até ser lançado diretamente para o mar. Ao chegar no oceano, a poluição das siderúrgicas e demais indústrias destruíam a fauna próxima, afetando até mesmo a produção de pescado, uma das fontes de renda mais antigas e tradicionais daquela região.
Com o declínio da produção de minério de ferro, Bilbao caiu em uma terrível decadência urbana, a qual transformou bairros tradicionais como La Vieja em antros de prostituição e tráfico de drogas em espaços que, durante o dia, eram disputados por imigrantes em situação ilegal e locais sem outra opção de moradia, dos quais 32% (trinta e dois por cento) estavam desempregados.
A situação caótica da cidade modificou-se, contudo, em um intervalo de quinze anos: salvou-se o rio Nérvion da poluição, com um inteligente sistema de tratamento de esgotos que só retornava ao rio as águas servidas após total tratamento, além de uma legislação severa com multas pesadas para as empresas poluidoras; as margens do rio foram remodeladas para receber um novo modelo de reurbanização, no qual novos bairros surgiram - com edifícios residenciais, prédios de escritórios, parques e setores de entretenimento e compras, em um movimento de renovação urbana que acabou por se extender a toda a cidade.
A despoluição do rio fez com que o comércio de pescado em Bilbao voltasse a florescer e retomasse seu lugar como um dos mais importantes da Europa.
Uma cidade nova pedia um sistema de transporte mais adequado, e então surgiu o novíssimo sistema de metrô de Bilbao, ligando a cidade aos distritos mais afastados e aos balneários próximos à cidade; além disso, recriou-se um sistema de bondes e trens de superfície há muito abandonados.
Ainda assim, a cidade carecia de visibilidade perante as demais cidades espanholas e, por que não sonhar alto, os países europeus e o mundo. A opção foi ousada, e gerou protestos à época de parte da população, que imaginou que a verba usada no projeto deveria ser destinada a áreas outras como saúde e habitação: criou-se, em 1997, o Museu Guggenheim de Bilbao, um colosso de arquitetura contemporânea, uma enorme flor metálica que parece brotar em meio aos prédios antigos do centro de Bilbao e às margens do rio que corta a cidade; ao longo dos anos, o museu tornou-se um símbolo da cidade de Bilbao e começou a atrair turistas de todo o mundo, criando na região um fluxo de turismo jamais visto. O resultado é que setores da economia local antes diminutos, como restaurantes e rede hoteleira, tiveram que se expandir em quase quatro vezes seu tamanho original para vencer a demanda dos visitantes que durante todo o ano afluem para a capital de Biscaia em busca da modernidade do Guggenheim - e mais por sua arquitetura que pelas exposições lá existentes - e também do clima pitoresco das antigas ruas de Bilbao.
Que lições podemos tirar de Bilbao? A mais importante delas é que o destino de uma cidade está nas mãos de seus moradores - já que são eles que decidem quem a governa, além de serem seu usuário mais freqüente e, por conta disso, o maior responsável pelo estado em que se encontra suas ruas, praças, rios, praias, florestas, parques, prédios históricos, museus, monumentos e bens públicos diversos. A segunda lição é a de que o turismo é, sim, uma fonte de renda que não pode jamais ser desprezada, pois gera empregos diretos e indiretos de tal forma que é virtualmente impossível medir seu real impacto na vida das cidades.
Mas creio que a lição maior ainda é esta: turismo não nasce pronto; é uma indústria que pode - e deve - ser inventada e reinventada a cada instante. Conheci cidades diminutas no interior do país que fizeram isso com maestria, mesmo que muitas vezes seu objetivo nem fosse se tornar um pólo nacional de turismo - como o fazem tão bem cidades como Gramado e Nova Petrópolis, no Rio Grande do Sul. Barra Bonita, no interior de São Paulo, é um exemplo: por estar às margens do Rio Tietê, no início de seu trecho navegável, e próxima a uma eclusa, a pequena cidade de trinta e quatro mil habitantes é um pequeno pólo turístico para as cidades vizinhas - e para tal investe em manter as ruas sempre limpas, as calçadas pintadas e floridas, medidas simples mas que criam no turista a vontade de regressar sempre que possível. Barra Bonita, Gramado e Nova Petrópolis são, para mim, sinônimos - e, infelizmente, exceções quase absolutas - de cidades brasileiras que conseguiram abrir os olhos para o imenso potencial do turismo para a economia local e, o que é mais notável, criaram quase do nada atrações turísticas que atraem turistas (e lucro certo) para seus comerciantes e moradores.
O que falta para que tornemos nossa cidade uma nova Bilbao? Será a vontade de mudar?