Wednesday, January 25, 2006

A Roda dos Enjeitados

O site Independent Feminists (segundo uma grande amiga, um grupo de feministas “das que não detestam os homens”), publicou em 18 de janeiro de 2006 um interessante artigo, assinado por Carey Roberts, sobre o tratamento diferenciado que homens e mulheres recebem das autoridades policiais, da Justiça e até mesmo dos meios de comunicação quando o assunto é violência - física e sexual - contra crianças e adolescentes. O texto de Roberts, que é professor de psicologia e articulista em vários órgãos de imprensa nos Estados Unidos da América, chama a atenção do leitor para casos recentes, ocorridos naquele país, em que a violência contra crianças perpretada por mulheres sequer chega a ser noticiada pela imprensa - ao contrário das ocorrências em que o agente agressor é um homem.  Ele cita casos assombrosos e que não receberam qualquer destaque nos jornais locais estadunidenses(…) [bem como] as estatísticas que o levaram a tal constatação.  (…)

O que terá mudado nos últimos tempos?  Afinal, a percepção que temos é a de que a mulher é sempre a vítima, nunca a algoz.  (…)  A existência de uma predisposição da sociedade para uma “vitimização da mulher”, da qual fala Roberts, é exemplificada pelo modo como alguns estados norte-americanos estão tratando os casos de abandono de bebês recém-nascidos (…)  Cerca de um terço dessas crianças abandonadas em parques, lixeiras e banheiros públicos são encontradas mortas.  Tim Jaccard, diretor de uma organização não-governamental chamada Children of Hope Foundation, baseada na região nova-iorquina de Long Island, foi um dos ativistas que lutou pela instalação de um programa de governo que resolvesse tal problema.  Sua fundação, cujas ações incluem a adoção legal, o batismo e o enterro das crianças encontradas mortas após o abandono pelas mães (dentro da crença de que todo cristão merece um nome e um enterro digno), fez parte de um movimento no estado de Nova Iorque para a descriminalização do abandono de crianças recém-nascidas e a criação de mecanismos que permitam às mulheres “deixar” seus recém-nascidos indesejados em hospitais públicos e outros lugares “seguros” - garantindo-se o direito de anonimato às mães “casuais” - ao invés de largá-los em locais públicos e nada saudáveis para os bebês.

A idéia, que gerou projetos semelhantes em outros estados norte-americanos, é o retorno à famigerada roda dos enjeitados.  Criada na França do século XVII, o dispositivo era usado para receber crianças indesejadas, desde bebês de colo a outros maiores, de até quatro anos de idade.  Depositados na roda de madeira, colocada em conventos e asilos, as crianças podiam ser recebidas pelas religiosas e serviçais sem que a identidade das mães e pais fosse revelada.  (…) Tornada abjeta pelos tempos modernos, a roda dos enjeitados agora retorna sob a máscara de bondade para com os abandonados pela sorte.  (…)

 Até quando estaremos dispostos a premiar a irresponsabilidade, a violência e a insanidade por conta de um pressuposto contra o qual os próprios movimentos feministas mais sérios lutam - o de que a mulher é sempre a vítima a ser protegida?  (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

O site Independent Feminists (segundo uma grande amiga, um grupo de feministas “das que não detestam os homens”), publicou em 18 de janeiro de 2006 um interessante artigo, assinado por Carey Roberts, sobre o tratamento diferenciado que homens e mulheres recebem das autoridades policiais, da Justiça e até mesmo dos meios de comunicação quando o assunto é violência - física e sexual - contra crianças e adolescentes. O texto de Roberts, que é professor de psicologia e articulista em vários órgãos de imprensa nos Estados Unidos da América, chama a atenção do leitor para casos recentes, ocorridos naquele país, em que a violência contra crianças perpretada por mulheres sequer chega a ser noticiada pela imprensa - ao contrário das ocorrências em que o agente agressor é um homem.  Ele cita casos assombrosos e que não receberam qualquer destaque nos jornais locais estadunidenses, como os de uma avó que matou sua neta de seis anos de idade ao afogá-la em uma banheira de água quente “como forma de punição” por uma travessura cometida pela menina, e o de uma mulher que foi presa sob a acusação de estupro após ter convencido uma menina a fugir de casa sob a promessa de presentes.

Roberts cita as estatísticas que o levaram a tal constatação.  Estudos estatísticos que computaram dados colhidos nos diversos Serviços de Proteção a Criança localizados nos cinqüenta estados norte-americanos, referentes ao ano de 2003, demonstram que o atual perfil dos crimes de abuso de crianças aponta para uma maioria de mulheres como agressoras naquele país - cerca de 58% (cinqüenta e oito por cento) dos casos; do total de registros, extrai-se ainda o alarmante número de 31% (trinta e um por cento) de casos nos quais a mãe agiu sozinha, enquanto 18% (dezoito por cento) dos casos foi de pais, homens, sem a ajuda de outros.

O que terá mudado nos últimos tempos?  Afinal, a percepção que temos é a de que a mulher é sempre a vítima, nunca a algoz.  Talvez o que precise mudar é justamente essa visão preconcebida sobre a fragilidade da mulher - uma vitimização que, muitas vezes, leva a absurdos como o ocorrido com um estudante do Rio Grande do Sul que teve seu programa de intercâmbio para Bruxelas, Bélgica, interrompido por ter sido acusado de usar drogas.  O jovem, que foi para aquele país plor intermédio de uma famosa organização não-governamental estadunidense de intercâmbio, ligou para a sua mãe biológica dizendo que estava sofrendo assédio sexual por parte da mulher que o hospedava na Bélgica e, ao serem avisados pela família brasileira do ocorrido, os coordenadores do programa de intercâmbio questionaram a  “mãe” belga, que então acusou o rapaz de ser dependente químico.  Os coordenadores do intercâmbio, acreditando nas palavras da “mãe” hospedeira, cancelaram o intercâmbio do brasileiro de imediato, mesmo depois de o jovem ter aceitado passar por três testes toxicológicos, todos negativos.  Ao menos neste caso, a predisposição da ONG em preconceber a mulher como vítima e acatar sua palavra como verdade foi consertada posteriormente: o jovem e sua família irão receber indenização dos organizadores do intercâmbio, por danos financeiros e morais.

E que pensar dos casos em que meninos e rapazes são abusados sexualmente por mulheres?  A mídia, então, recorre ao mesmo expediente da mediocridade de sua massa de leitores, considerando que o “estupro masculino” é uma impossibilidade, quando não raro fazendo comentários irônicos ou, como diz Roberts, “sanitarizando” a ocorrência ao dizer que a mulher adulta manteve “contato sexual” com o menino ou adolescente.  Se tais situações ocorrem nos Estados Unidos da América, que dizer em um país como o nosso, no qual a cultura do homem que se inicia sexualmente muito cedo, em geral com uma serviçal ou uma prostituta?  Creio que homem algum, de qualquer idade, jamais iria a polícia dar queixa de uma violência de qualquer sorte causada por uma mulher.

A existência de uma predisposição da sociedade para uma “vitimização da mulher”, da qual fala Roberts, é exemplificada pelo modo como alguns estados norte-americanos estão tratando os casos de abandono de bebês recém-nascidos, um tipo de ocorrência que cresce a cada ano nos Estados Unidos da América. 

Cerca de um terço dessas crianças abandonadas em parques, lixeiras e banheiros públicos são encontradas mortas.  Tim Jaccard, diretor de uma organização não-governamental chamada Children of Hope Foundation, baseada na região nova-iorquina de Long Island, foi um dos ativistas que lutou pela instalação de um programa de governo que resolvesse tal problema.  Sua fundação, cujas ações incluem a adoção legal, o batismo e o enterro das crianças encontradas mortas após o abandono pelas mães (dentro da crença de que todo cristão merece um nome e um enterro digno), fez parte de um movimento no estado de Nova Iorque para a descriminalização do abandono de crianças recém-nascidas e a criação de mecanismos que permitam às mulheres “deixar” seus recém-nascidos indesejados em hospitais públicos e outros lugares “seguros” - garantindo-se o direito de anonimato às mães “casuais” - ao invés de largá-los em locais públicos e nada saudáveis para os bebês.

A idéia, que gerou projetos semelhantes em outros estados norte-americanos, é o retorno à famigerada roda dos enjeitados.  Criada na França do século XVII, o dispositivo era usado para receber crianças indesejadas, desde bebês de colo a outros maiores, de até quatro anos de idade.  Depositados na roda de madeira, colocada em conventos e asilos, as crianças podiam ser recebidas pelas religiosas e serviçais sem que a identidade das mães e pais fosse revelada.  Mas aquela era uma época marcadamente governada por preconceito e discriminação às mães solteiras, sem métodos anti-concepcionais disponíveis e sem acesso à informação aos moldes do que hoje existe.  Tornada abjeta pelos tempos modernos, a roda dos enjeitados agora retorna sob a máscara de bondade para com os abandonados pela sorte.

Roberts coloca, e com propriedade, que leis como esta apenas incentivam a paternidade irresponsável - em que pese o fato de que efetivamente irão salvar vidas.  Mas, para o pensador estadunidense, “em uma sociedade civilizada que faz com que os serviços de adoção sejam amplamente disponíveis, tal prática deveria ser condenada como inconsciente e errada.  Contudo, ao invés de processarmos os que abandonam, nós acomodamos a lei aos imperativos sociais de promover escolhas para as mulheres, não importando as conseqüências morais disso”.  O absurdo da lei nova-iorquina vai além: as mulheres podem abandonar seus filhos indesejados nestes “locais seguros” enquanto eles têm até cinco dias de vida, mas têm o direito de reclamar sua devolução, caso se arrependam do que fizeram, em um prazo de quinze meses, em um sistema que Carey Roberts associa ao “satisfação garantida ou o seu dinheiro de volta” das grandes redes de varejo estadunidenses. 

Até quando estaremos dispostos a premiar a irresponsabilidade, a violência e a insanidade por conta de um pressuposto contra o qual os próprios movimentos feministas mais sérios lutam - o de que a mulher é sempre a vítima a ser protegida?

Posted by Frizero in 13:13:56 | Permalink | Comments (5)