Monday, January 23, 2006

Agora é Moda

“Moda é aquilo que nós vestimos. Fora de moda é o que os outros vestem.”
(“Fashion is what one wears oneself. What is unfashionable is what other people wear.”)
Oscar Wilde, dramaturgo inglês

 

Afinal, o que é moda? Dizem os estudiosos que a moda sempre esteve associada diretamente ao status, ou seja, à posição que a pessoa ocupa em determinada sociedade. Não há que se negar que a moda segue certas associações psicológicas, nas quais as cores, por exemplo, carregam mensagens sobre aquele que as veste e dizem sobre seu humor e sua personalidade, bem como podem indicar estilos, etnias, modo de pensar e viver. As vestimentas já serviram - e ainda hoje assim são usadas por alguns - para marcar posicionamentos políticos e ideológicos. Mas alguns apontam a ocorrência de um curioso fenômeno contemporâneo da moda: ela estaria perdendo esses elementos simbólicos em nome de, simplesmente, representar o status de “pertencer a um grupo”. A perda do sentido na moda - que acompanha fenômenos similares em outras artes - faz com que o impensável de hoje torne-se fashionable amanhã, sem que saibamos ao certo as origens dessa ou daquela tendência.

Tais observações tornam-se ainda mais interessantes diante dos importantes eventos do mundo da moda que pontuaram esses primeiros dias de 2006, bem como de outras inusitadas ocorrências que podemos listar à guisa de elementos de comparação. Se o importante é ser fashion, estar antenado, ou seja lá qual termo que se use para expressar a idéia de pertencer ao grupo - parece valer tudo.  (…) O mais curioso é que muitos dos que fazem moda - ou vestem a moda que estes fazem - tentam convencer com um discurso de “fuga da conformidade” ou “guerra ao sistema” - ainda que esta luta ou fuga seja, no fundo, através de um código de conduta transgressora tão rígido quanto aqueles padrões dos quais eles dizem fugir. Tudo isso faz lembrar das cenas finais do curioso filme de Robert Altman sobre o mundo da moda, Prêt-à-porter, nas quais uma estilista parisiense decide colocar todos os modelos completamente nus na passarela, angariando o aplauso de todos, que viram naquele gesto um “ato supremo de genialidade da moda” - exceto da repórter vivida por Kim Bassinger, que pede demissão em plena transmissão do desfile e delega sua função para sua atordoada contra-regra e assistente de produção. Bem, falta pouco para assistirmos cena semelhante em nossas passarelas de moda, quiçá em nossas ruas; e que cada um entenda tais mensagens como quiser - e puder. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Moda é aquilo que nós vestimos. Fora de moda é o que os outros vestem.”
(“Fashion is what one wears oneself. What is unfashionable is what other people wear.”)
Oscar Wilde, dramaturgo inglês

 

Afinal, o que é moda? Dizem os estudiosos que a moda sempre esteve associada diretamente ao status, ou seja, à posição que a pessoa ocupa em determinada sociedade. Não há que se negar que a moda segue certas associações psicológicas, nas quais as cores, por exemplo, carregam mensagens sobre aquele que as veste e dizem sobre seu humor e sua personalidade, bem como podem indicar estilos, etnias, modo de pensar e viver. As vestimentas já serviram - e ainda hoje assim são usadas por alguns - para marcar posicionamentos políticos e ideológicos. Mas alguns apontam a ocorrência de um curioso fenômeno contemporâneo da moda: ela estaria perdendo esses elementos simbólicos em nome de, simplesmente, representar o status de “pertencer a um grupo”. A perda do sentido na moda - que acompanha fenômenos similares em outras artes - faz com que o impensável de hoje torne-se fashionable amanhã, sem que saibamos ao certo as origens dessa ou daquela tendência.

Tais observações tornam-se ainda mais interessantes diante dos importantes eventos do mundo da moda que pontuaram esses primeiros dias de 2006, bem como de outras inusitadas ocorrências que podemos listar à guisa de elementos de comparação. Se o importante é ser fashion, estar antenado, ou seja lá qual termo que se use para expressar a idéia de pertencer ao grupo - parece valer tudo.

Blusão de Evo Morales é moda na BolíviaHá uma fábrica de roupas da Bolívia que está fabricando, “devido ao grande número de interessados, sobretudo entre os jovens”, segundo o empresário Raul Valda, dono da confecção, suéteres que reproduzem o modelo usado pelo novo presidente do país, o recém-eleito Evo Morales, em suas viagens a vários países depois do resultado das eleições presidenciais. O valor das peças deverá oscilar entre R$ 18,00 e R$22,00, estima Valda. O empresário afirmou que as encomendas do exterior já começaram a surgir, sobretudo de países da América Latina como o Brasil e a Venezuela. Ele espera poder acelerar a produção nos próximos dias para poder levar algumas peças para venda ainda nesta edição latino-americana do Fórum Social Mundial, realizada em 2006 em Caracas, na Venezuela.

Betty Lago desfilando pela DaspuCom o slogan “DASPU - a moda da vida”, a griffe, capitaneada por prostitutas fluminenses e cujo nome parodia a famosa loja de departamentos de luxo de São Paulo, promoveu em 13 de janeiro de 2006 seu primeiro desfile, em evento paralelo aos do Rio Fashion Week. A DASPU, que conta até mesmo com uma moderna página na Internet, estreou no alto circuito da moda com um desfile realizado na Praça Tiradentes, famoso reduto de prostituição no centro do Rio de Janeiro, contando com a presença de modelos famosas como a atriz Betty Lago - que caridosamente acedeu ao convite das estilistas da grife, desfilando várias peças da coleção outono-inverno das prostitutas, e aproveitou o ensejo para entrevistá-las para seu programa televisivo.

Curiosamente, no site, que comercializa as peças produzidas pela ONG ‘Davida’, as profissionais do sexo comentam, a meu ver ironicamente, que elas “sempre produziram moda” e que “agora, estão se apropriando de sua competência também nesta área”, produzindo “roupas de batalha (rua e casa), de lazer (praia, parques e jardins), de folia (festas e carnaval) e de ativismo (direitos humanos e prevenção de dst/aids)”. Comentando a coleção apresentada, Gabriela Leite, ex-prostituta, hoje socióloga formada pela USP e diretora da ONG Davida, disse que as roupas são “insinuantes, sensuais, mas sem vulgaridade [pois] queremos resgatar a elegância das meninas do passado”.

Desfile da grife Cavalera no São Paulo Fashion WeekNo São Paulo Fashion Week, por sua vez, o curioso era observar os anônimos que compareceram ao prédio da Bienal de Arte, no Parque do Ibirapuera, com o mero propósito de ver os famosos que por ali transitavam ou serem vistos. Para tal, esses aspirantes a celebridade vestiam o que podiam para chamar a atenção, por vezes reproduzindo a estranheza causada pelos modelos apresentados nas coleções outono-inverno em desfiles realizados a portas fechadas, para convidados, cujos temas variaram desde uma homenagem ao universo do cangaço (com direito a trouxas de roupa, latas d’água e balaios nas cabeças das modelos) aos bordéis dos anos 1920, da Bíblia a Chapeuzinho Vermelho - segundo os estilistas, estas serão algumas das tendências do outono e do inverno de 2006.

Afinal, quais são as mensagens que tais roupas passam para os que, ao andar pelas ruas, se deparam com estes exemplares do mundo fashion? Quando vemos camisetas nas ruas estampando imagens de Che Guevara, devemos entender como apoio aos assassínios que ele cometeu na África ou às execuções em Cuba? As bermudas e T-shirts com imagens do atentado de 11 de setembro de 2001, por exemplo, serão apoio incondicional ao terrorismo mundial ou piada de mau gosto com os que perderam parentes no evento fatídico? E as roupas largas, cordões prateados e roupas de baixo aparecendo por baixo das calças e bermudas sem cinto, imitação tosca do estilo dos rappers da maior potência econômica mundial - serão um elogio ao crime e à cultura de violência das gangues?

Bem, as pessoas do mundo da moda - como as que dominam as artes plásticas contemporâneas - são estranhas em suas escolhas estéticas, mas pródigas em explicações. Raul Valda, dono da fábrica de suéteres, por exemplo, diz que as pessoas querem “o estilo de Evo Morales para se aproximarem da história de um índio que desafiou o sistema e atingiu o poder”; Gabriela Leite, diretora da ONG Davida, declarou que o sucesso da Daspu deve-se ao fato de que “ser puta agora é fashion“; a grife Cavalera afirmou que seu desfile inspirado nos malfeitores do cangaço era uma busca por um estilo “street caboclo” - ou seja, o cangaço seria nosso mais próximo similar do gangsterismo contemporâneo que originou a chamada streetwear; Emilene Galende, por sua vez, teve sua coleção inspirada em Chapeuzinho Vermelho descrita pela imprensa como “uma coleção jovem, quase adolescente, divertida e inteligente como a personagem” - e pensar que poucos suspeitassem que a personagem infantil fosse tão divertida, antenada e inteligente!

O mais curioso é que muitos dos que fazem moda - ou vestem a moda que estes fazem - tentam convencer com um discurso de “fuga da conformidade” ou “guerra ao sistema” - ainda que esta luta ou fuga seja, no fundo, através de um código de conduta transgressora tão rígido quanto aqueles padrões dos quais eles dizem fugir. Tudo isso faz lembrar das cenas finais do curioso filme de Robert Altman sobre o mundo da moda, Prêt-à-porter, nas quais uma estilista parisiense decide colocar todos os modelos completamente nus na passarela, angariando o aplauso de todos, que viram naquele gesto um “ato supremo de genialidade da moda” - exceto da repórter vivida por Kim Bassinger, que pede demissão em plena transmissão do desfile e delega sua função para sua atordoada contra-regra e assistente de produção. Bem, falta pouco para assistirmos cena semelhante em nossas passarelas de moda, quiçá em nossas ruas; e que cada um entenda tais mensagens como quiser - e puder.

Posted by Frizero at 14:59:03
Comments

4 Responses to “Agora é Moda”

  1. Patrícia says:

    A moda inspirada em Chapeuzinho Vermelho é um prenúncio do que virá, a queda do último tabu sexual: a pedofilia.

    Sim, você leu direito, é um acinte, um nojo, um horror, mas já tem gente politicamente correta chamando isso de "sexo transgeracional" e eu já li um artigo no Correio Braziliense em 2002 que entrevistava pedófilos (!) e os representava como vítimas (!!) incompreendidas (!!!!) da sociedade-má-capitalista. Ou seja, em breve assistiremos à reabilitação do Lobo Mau.

    No ano em que deixei a França - era 1993, se não me engano - passou em um programa tipo "Márcia" a discussão do fim do incesto. A platéia, em uníssono, declarou que se era entre adultos e não estava incomodando ninguém, porquê não? O caso apresentado era entre irmãos. Ai de você falar mal, mesmo que não apele à argumentos morais inevitáveis, e faça a concessão de se ater a argumentos genéticos (bebês mal-formados) e antropológicos (destruição do núcleo familiar, seja ele de que tipo for).

    O potencial de violência e desagregação social, além do tabu do incesto ser universal nos casos irmão-irmã e mãe-filho (nem sempre, infelizmente, no caso pai-filha) não foi sequer discutido. A civilização é algo frágil. Foi penoso erguê-la. Vai ser fácil destruí-la.

  2. Frizero says:

    Teus comentários, Patrícia, fizeram-me recordar a reportagem exibida no "Fantástico" de 15 de janeiro de 2006, na qual se discutiu um caso de relação primo-prima retratado na novela das oito. Naquela ocasião, entrevistaram um geneticista que declarou que as chances de nascimento de bebês com alguma doença congênita era "pequeno" nesses casos, algo como um em cem mil - uma declaração que praticamente autorizava tais relações e colocava qualquer "tabu" sobre elas no campo da superstição. Pois domingo passado, 22 de janeiro, o mesmo "Fantástico" exibiu nova reportagem na qual aquele especialista retratava-se, dizendo que seus "números" estavam errados por ter ele se remetido apenas às doenças congênitas mais comuns. Em verdade, como mostraram outros especialistas entrevistados pelo programa, o risco de donças genéticas (e são mais de três mil possíveis!) é de aproximadamente 13%, ou seja, um em oito bebês de casais formados por primo-prima nasce com alguma doença congênita.

    Amedronta-me imaginar que estejamos nos encaminhando para uma desagregação de valores que tiveram algum motivo de terem sido criados sem que seja feita uma análise mais aprofundada de tais questões. Esta corrente do "é proibido proibir" traz, consigo, o malefício de autorizar situações abjetas como a pedofilia, o incesto, o bestialismo e outros desvios como se eles fossem mera questão de garantia da "liberdade de expressão" de uns - e não de proteção da vida e da integridade de outros.

    Qual será o próximo passo? Defender-mos o direito de os adeptos do canibalismo exercerem seu modo de vida? Lutar pela causa dos pedófilos e necrófilos? Oxalá minha vida expire antes que eu presencie tal dia.

  3. Patrícia says:

    Querido Frizero,

    A questão mais importante para mim nisso tudo não é a genética, é a do aumento da violência.

    Corremos o risco de voltar para a tribo endogâmica, que só casa entre si e vê os outros como inimigos a serem eliminados. Casar com gente fora da família forma laços de sociabilidade. Essa gente que leia antropologia, pelo amor de Deus.

    Ao fazer pais, filhos e primos competirem sexualmente rompemos a possibilidade de harmonia familiar e criamos aqueles lares infernais em que a mãe rouba o namorado da filha, o pai transa com as amigas da filha, o pai e o filho competem pelas mesmas mulheres, etc.
    Toda possibilidade de solidariedade e de sacrifício pela prole é assim eliminada e o resultado é o horror. Ou você conhece algum lar, de qualquer classe social, em que isso acontece e o resultado é bonito?

    Algumas distâncias são necessárias. Elas são salvaguardas contra a violência (Girard). Nós as estamos eliminando uma a uma; não surpreende que estejamos criando uma sociedade ultra-violenta. A Clockwork Orange. Já estamos lá.

  4. Frizero says:

    Sem dúvida, a principal questão relaciona-se não com a genética, mas com a estrutura social e a violência. Apenas fiquei espantado com a forma pela qual a Rede Globo de Televisão trabalhou a mesma informação em dois momentos: no primeiro, usou os dados estatísticos sobre genética (falsos, por sinal) para justificar o romance dos dois personagens da novela como "coisa normal" (certamente por conta das críticas que deve ter recebido de alguns telespectadores) e, uma semana depois, apresentou novos dados estatísticos para, de certa forma, condenar a prática do romance entre primos (pressionada que deve ter sido pela apresentação de informações erradas). Nos dois casos, usou-se a ciência, e não a moral, para defender ou condenar tal prática.

Leave a Reply