Agora é Moda
“Moda é aquilo que nós vestimos. Fora de moda é o que os outros vestem.”
(“Fashion is what one wears oneself. What is unfashionable is what other people wear.”)
Oscar Wilde, dramaturgo inglês
Afinal, o que é moda? Dizem os estudiosos que a moda sempre esteve associada diretamente ao status, ou seja, à posição que a pessoa ocupa em determinada sociedade. Não há que se negar que a moda segue certas associações psicológicas, nas quais as cores, por exemplo, carregam mensagens sobre aquele que as veste e dizem sobre seu humor e sua personalidade, bem como podem indicar estilos, etnias, modo de pensar e viver. As vestimentas já serviram - e ainda hoje assim são usadas por alguns - para marcar posicionamentos políticos e ideológicos. Mas alguns apontam a ocorrência de um curioso fenômeno contemporâneo da moda: ela estaria perdendo esses elementos simbólicos em nome de, simplesmente, representar o status de “pertencer a um grupo”. A perda do sentido na moda - que acompanha fenômenos similares em outras artes - faz com que o impensável de hoje torne-se fashionable amanhã, sem que saibamos ao certo as origens dessa ou daquela tendência.
Tais observações tornam-se ainda mais interessantes diante dos importantes eventos do mundo da moda que pontuaram esses primeiros dias de 2006, bem como de outras inusitadas ocorrências que podemos listar à guisa de elementos de comparação. Se o importante é ser fashion, estar antenado, ou seja lá qual termo que se use para expressar a idéia de pertencer ao grupo - parece valer tudo. (…) O mais curioso é que muitos dos que fazem moda - ou vestem a moda que estes fazem - tentam convencer com um discurso de “fuga da conformidade” ou “guerra ao sistema” - ainda que esta luta ou fuga seja, no fundo, através de um código de conduta transgressora tão rígido quanto aqueles padrões dos quais eles dizem fugir. Tudo isso faz lembrar das cenas finais do curioso filme de Robert Altman sobre o mundo da moda, Prêt-à-porter, nas quais uma estilista parisiense decide colocar todos os modelos completamente nus na passarela, angariando o aplauso de todos, que viram naquele gesto um “ato supremo de genialidade da moda” - exceto da repórter vivida por Kim Bassinger, que pede demissão em plena transmissão do desfile e delega sua função para sua atordoada contra-regra e assistente de produção. Bem, falta pouco para assistirmos cena semelhante em nossas passarelas de moda, quiçá em nossas ruas; e que cada um entenda tais mensagens como quiser - e puder. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
“Moda é aquilo que nós vestimos. Fora de moda é o que os outros vestem.”
(“Fashion is what one wears oneself. What is unfashionable is what other people wear.”)
Oscar Wilde, dramaturgo inglês
Afinal, o que é moda? Dizem os estudiosos que a moda sempre esteve associada diretamente ao status, ou seja, à posição que a pessoa ocupa em determinada sociedade. Não há que se negar que a moda segue certas associações psicológicas, nas quais as cores, por exemplo, carregam mensagens sobre aquele que as veste e dizem sobre seu humor e sua personalidade, bem como podem indicar estilos, etnias, modo de pensar e viver. As vestimentas já serviram - e ainda hoje assim são usadas por alguns - para marcar posicionamentos políticos e ideológicos. Mas alguns apontam a ocorrência de um curioso fenômeno contemporâneo da moda: ela estaria perdendo esses elementos simbólicos em nome de, simplesmente, representar o status de “pertencer a um grupo”. A perda do sentido na moda - que acompanha fenômenos similares em outras artes - faz com que o impensável de hoje torne-se fashionable amanhã, sem que saibamos ao certo as origens dessa ou daquela tendência.
Tais observações tornam-se ainda mais interessantes diante dos importantes eventos do mundo da moda que pontuaram esses primeiros dias de 2006, bem como de outras inusitadas ocorrências que podemos listar à guisa de elementos de comparação. Se o importante é ser fashion, estar antenado, ou seja lá qual termo que se use para expressar a idéia de pertencer ao grupo - parece valer tudo.
Há uma fábrica de roupas da Bolívia que está fabricando, “devido ao grande número de interessados, sobretudo entre os jovens”, segundo o empresário Raul Valda, dono da confecção, suéteres que reproduzem o modelo usado pelo novo presidente do país, o recém-eleito Evo Morales, em suas viagens a vários países depois do resultado das eleições presidenciais. O valor das peças deverá oscilar entre R$ 18,00 e R$22,00, estima Valda. O empresário afirmou que as encomendas do exterior já começaram a surgir, sobretudo de países da América Latina como o Brasil e a Venezuela. Ele espera poder acelerar a produção nos próximos dias para poder levar algumas peças para venda ainda nesta edição latino-americana do Fórum Social Mundial, realizada em 2006 em Caracas, na Venezuela.
Com o slogan “DASPU - a moda da vida”, a griffe, capitaneada por prostitutas fluminenses e cujo nome parodia a famosa loja de departamentos de luxo de São Paulo, promoveu em 13 de janeiro de 2006 seu primeiro desfile, em evento paralelo aos do Rio Fashion Week. A DASPU, que conta até mesmo com uma moderna página na Internet, estreou no alto circuito da moda com um desfile realizado na Praça Tiradentes, famoso reduto de prostituição no centro do Rio de Janeiro, contando com a presença de modelos famosas como a atriz Betty Lago - que caridosamente acedeu ao convite das estilistas da grife, desfilando várias peças da coleção outono-inverno das prostitutas, e aproveitou o ensejo para entrevistá-las para seu programa televisivo.
Curiosamente, no site, que comercializa as peças produzidas pela ONG ‘Davida’, as profissionais do sexo comentam, a meu ver ironicamente, que elas “sempre produziram moda” e que “agora, estão se apropriando de sua competência também nesta área”, produzindo “roupas de batalha (rua e casa), de lazer (praia, parques e jardins), de folia (festas e carnaval) e de ativismo (direitos humanos e prevenção de dst/aids)”. Comentando a coleção apresentada, Gabriela Leite, ex-prostituta, hoje socióloga formada pela USP e diretora da ONG Davida, disse que as roupas são “insinuantes, sensuais, mas sem vulgaridade [pois] queremos resgatar a elegância das meninas do passado”.
No São Paulo Fashion Week, por sua vez, o curioso era observar os anônimos que compareceram ao prédio da Bienal de Arte, no Parque do Ibirapuera, com o mero propósito de ver os famosos que por ali transitavam ou serem vistos. Para tal, esses aspirantes a celebridade vestiam o que podiam para chamar a atenção, por vezes reproduzindo a estranheza causada pelos modelos apresentados nas coleções outono-inverno em desfiles realizados a portas fechadas, para convidados, cujos temas variaram desde uma homenagem ao universo do cangaço (com direito a trouxas de roupa, latas d’água e balaios nas cabeças das modelos) aos bordéis dos anos 1920, da Bíblia a Chapeuzinho Vermelho - segundo os estilistas, estas serão algumas das tendências do outono e do inverno de 2006.
Afinal, quais são as mensagens que tais roupas passam para os que, ao andar pelas ruas, se deparam com estes exemplares do mundo fashion? Quando vemos camisetas nas ruas estampando imagens de Che Guevara, devemos entender como apoio aos assassínios que ele cometeu na África ou às execuções em Cuba? As bermudas e T-shirts com imagens do atentado de 11 de setembro de 2001, por exemplo, serão apoio incondicional ao terrorismo mundial ou piada de mau gosto com os que perderam parentes no evento fatídico? E as roupas largas, cordões prateados e roupas de baixo aparecendo por baixo das calças e bermudas sem cinto, imitação tosca do estilo dos rappers da maior potência econômica mundial - serão um elogio ao crime e à cultura de violência das gangues?
Bem, as pessoas do mundo da moda - como as que dominam as artes plásticas contemporâneas - são estranhas em suas escolhas estéticas, mas pródigas em explicações. Raul Valda, dono da fábrica de suéteres, por exemplo, diz que as pessoas querem “o estilo de Evo Morales para se aproximarem da história de um índio que desafiou o sistema e atingiu o poder”; Gabriela Leite, diretora da ONG Davida, declarou que o sucesso da Daspu deve-se ao fato de que “ser puta agora é fashion“; a grife Cavalera afirmou que seu desfile inspirado nos malfeitores do cangaço era uma busca por um estilo “street caboclo” - ou seja, o cangaço seria nosso mais próximo similar do gangsterismo contemporâneo que originou a chamada streetwear; Emilene Galende, por sua vez, teve sua coleção inspirada em Chapeuzinho Vermelho descrita pela imprensa como “uma coleção jovem, quase adolescente, divertida e inteligente como a personagem” - e pensar que poucos suspeitassem que a personagem infantil fosse tão divertida, antenada e inteligente!
O mais curioso é que muitos dos que fazem moda - ou vestem a moda que estes fazem - tentam convencer com um discurso de “fuga da conformidade” ou “guerra ao sistema” - ainda que esta luta ou fuga seja, no fundo, através de um código de conduta transgressora tão rígido quanto aqueles padrões dos quais eles dizem fugir. Tudo isso faz lembrar das cenas finais do curioso filme de Robert Altman sobre o mundo da moda, Prêt-à-porter, nas quais uma estilista parisiense decide colocar todos os modelos completamente nus na passarela, angariando o aplauso de todos, que viram naquele gesto um “ato supremo de genialidade da moda” - exceto da repórter vivida por Kim Bassinger, que pede demissão em plena transmissão do desfile e delega sua função para sua atordoada contra-regra e assistente de produção. Bem, falta pouco para assistirmos cena semelhante em nossas passarelas de moda, quiçá em nossas ruas; e que cada um entenda tais mensagens como quiser - e puder.