Friday, January 20, 2006

Mulheres no Poder

Angela Merkel, filha de um pastor protestante de Hamburgo, obteve seu doutorado em Física aos vinte e quatro anos, sendo imediatamente admitida como pesquisadora na área de química em uma importante academia científica em Berlim Oriental. Dois meses depois da unificação alemã, em 1990, ela filiou-se ao partido União Democrática Cristã (UDC), e alguns meses depois foi escolhida como Ministra para as Causas Femininas e para a Juventude no gabinete de Helmut Kohl, que a chamava carinhosamente de “das Madchen” - algo como minha guria, minha descoberta. Dez anos depois, Angela Merkel foi eleita líder de seu partido, após um escândalo que demoliu a cúpula da UDC, que então precisava de alguém com força para moralizar sua estrutura política.

Ellen Johnson-Sirleaf nasceu em 1939 em Monrovia, capital de seu país, uma cidade batizada em homenagem ao presidente estadunidense, James Monroe, que estabeleceu uma colônia no continente africano para receber ex-escravos, a qual se tornaria o primeiro país independente da África, a Libéria. Líder do Partido da Unidade (Unity Party), Elen Johnson-Sirleaf estudou na Universidade de Harvard, foi economista sênior do Banco Mundial e vice-presidente do CitiBank, além de Ministra das Finanças da Libéria e consultora da Organização das Nações Unidas para a Economia na África.

Michelle Bachelet nasceu em Santiago do Chile em 1951, filha de uma arqueóloga e de um general-de-brigada do Exército do Chile - posteriormente assassinado em uma sessão de tortura durante o regime militar que depôs o presidente eleito Salvador Allende, nos anos 1970. Médica e pós-graduada em Ciências Militares, fala fluentemente, além do espanhol, sua língua materna, o inglês, o alemão, o francês e o português. Foi consultora da Organização das Nações Unidas para a Saúde na América Latina e, nos primeiros anos do século XXI, foi Ministra da Saúde e também Ministra de Defesa Nacional.

O que une estas três mulheres, além do fato de terem feito história ao se tornarem as primeiras mulheres a atingir o cargo máximo da política em seus respectivos países, é uma curiosa observação que, com raras exceções, se pode aplicar a todas as mulheres que atingem altos cargos na política e nos diversos ambientes empresariais. Todas estas mulheres são sobejamente mais qualificadas que os homens com quem concorreram nas eleições - e não seria exagero dizer que o eleitorado, ainda que subrepticiamente, parece apenas aprovar uma mulher para altos cargos se ela exibir um currículo impecável e acima de questionamentos, como são os de Merkel, Johnson-Sirleaf e Bachelet.

Em pelo menos uma dessas disputas, a diferença é gritante: o candidato opositor a Johnson-Sirleaf na disputa pela presidência da Libéria foi George Manneh Oppong Ousman Weah, cujo único grande mérito em seu breve currículo é o de ter sido o mais famoso jogador de futebol de seu país, ganhador do título de Melhor Jogador do Mundo pela federação internacional de futebol e técnico da atual seleção liberiana. Para enfrentar nas urnas um candidato com tais pífias qualificações para um futuro presidente, uma mulher precisa, ainda assim, apresentar uma longa história de superações e exceções, de vitórias e valores incontestáveis, para poder causar diferença na disputa e vencer, muitas vezes com uma apertada margem de votos de vantagem sobre o oponente.

Que o diga Condoleezza Rice, hoje o braço forte do governo de George W. Bush e que apenas após sua ascensão ao cargo de Secretária de Estado é que começou a ser cogitada como possível candidata à presidência por seu partido. Em que pese seu posicionamento político, o qual não agrada certamente a gregos e troianos, ela também é uma dessas mulheres de formação intelectual extremamente qualificada e com uma interessante história de vida - negra, nascida no estado do Alabama, berço dos principais acontecimentos motivadores do Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos da América, ela obteve seu doutorado em Ciência Política aos vinte e oito anos e em seguida foi contratada como professora de Ciência Política na renomada Universidade Stanford, onde tem atuado por mais de vinte anos; é ainda autora de importantes livros sobre política internacional e já assumiu cargos importantes em pelo menos três gestões presidenciais. Será Rice a primeira mulher - e o primeiro afro-descendente, homem ou mulher - a assumir a presidência da maior potência econômica e militar do mundo? E que mudanças causaria uma mulher em tal cargo, tão amado e odiado planeta afora? Essas questões só o tempo e o eleitorado estadunidense poderão responder. Mas é interessante comparar seu currículo ao do atual presidente dos Estados Unidos da América, George W. Bush, e tentar imaginar as diferenças que uma mulher como Rice poderia causar na direção daquele país.

Sobre as mulheres que adentram a vida pública pelas vias da política, não importando seu alinhamento de esquerda ou de direita, parece sempre repousar uma enorme desconfiança, expressa no pequeno número de parlamentares eleitas em um país como o nosso, no qual as eleitoras são maioria da população. Ou será que uma candidata com o currículo do nosso atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, teria sido eleita em nosso país?

Posted by Frizero at 11:25:05 | Permalink | Comments (6)